O Brasil que eu espero para as pessoas idosas, e para mim mesmo, é um país onde os direitos das pessoas idosas precisam sair do papel. Onde o Estatuto da Pessoa Idosa tenha vida própria e seja conhecido e cumprido no dia dia. Desejo continuar envelhecendo nesse país e nessa cidade sem ter medo da violência e esconder a dor do desprezo atrás de um bom dia.
O Brasil que eu espero para as pessoas idosas é um país onde envelhecer não seja sinônimo de perder a voz, perder a autonomia e o direito de sonhar.
Desejo um país que entenda que cuidar das pessoas idosas não é nenhum ato de favor, de caridade ou um gesto de bondade. É dever do Estado. Responsabilidade da sociedade. E da comunidade. Também espero viver num país que abandone a ideia de que envelhecer é o mesmo que adoecer.
Nós precisamos de atenção à nossa saúde, é certo; mas, precisamos também de acesso a cultura, educação, lazer, afeto, participação política, oportunidades e liberdade. Esse mesmo país que eu desejo não será um país sem dificuldades. Mas, que de uma vez por todas, seja um país que não aceite a indiferença às pessoas idosas, a todos nós que envelhecemos, como coisa normal.
Sonho com um país onde a experiência das pessoas mais velhas seja ponte e não um buraco; onde a convivência entre as gerações seja aprendizado, e não conflito; onde cada pessoa idosa possa olhar para o dia de amanhã sem sentir medo de ser esquecida. Que sociedade é essa que prolonga a vida, mas nem sempre garante condições dignas para vivê-la?
O Brasil que eu espero para as pessoas idosas não suporta mais os discursos de palanque; as efemérides de outubro pelo dia internacional da pessoa idosa. Desejo viver num país e numa cidade onde a dignidade não seja promessa eleitoral, a saúde não seja um martírio e o respeito não dependa da boa vontade de ninguém.
O Brasil que eu espero para as pessoas idosas, onde eu mesmo estou envelhecendo, seja um país que não abandone quem já percorreu tantos caminhos. Que não esqueça quem tanto fez por ele; e que não feche os olhos para quem tem ainda muito a viver. O Brasil que eu espero á partir da nova gestão presidencial é um país mais humano, justo e sensível.
Um país que não perceba a idade como um peso, mas, como um testemunho de uma vida vivida, de batalhas enfrentadas, de sonhos realizados e de tantos outros que ainda merecem florescer. Infelizmente ainda temos muitas pessoas idosas enfrentando filas intermináveis, com dificuldades para conseguir medicamentos; aposentadorias insuficientes; desrespeito, violência e solidão. Muitas pessoas idosas também passam dias esperando por uma visita, uma ligação ou uma palavra de carinho.
É um absurdo perceber que depois de uma vida inteira dedicada a outras pessoas e familiares, muita gente chega a velhice sentindo que não tem nenhuma importância. Não quero isso continue para um novo país que chega á partir da semana que vem. A pobreza, o abandono e a invisibilidade não podem ser tratados como destinos inevitáveis de todos nós que envelhecemos nesse país e nessa cidade.
Acredito sim que o Brasil que eu desejo e a cidade também, talvez estejam um pouco longe do quanto que eu sinto, mas, não é impossível encurtar essa distância entre o sonho e a realidade: depende das nossas decisões políticas e sobretudo por uma nova sociedade capaz de substituir a indiferença pela solidariedade.

