Há algo silencioso e em franca expansão acontecendo diante de nós: a cidade está envelhecendo. Nós mesmos, com certeza, estamos envelhecendo. Querendo ou não. Essa percepção, é mais do que uma percepção, é uma realidade. Não é um fenômeno distante de nós. Restrito às estatísticas dos estudiosos dessa matéria. Embora não seja nada fácil, convenhamos, enxergar em nós mesmos essa condição – quem me fala que estou ficando velho, geralmente, é uma outra pessoa.
É visível notar a presença de muitas pessoas idosas entre nós: nas ruas, nas filas dos bancos, nos cultos religiosos, nas excursões de viagens e em muitos outros lugares. As pessoas, nós, estamos vivendo mais. Mesmo assim, há um contraste nessa nova configuração da cidade. Enquanto a população envelhece, a geografia humana nas relações sociais continua desenhada para os mais novos, para os jovens. Jovens na pressa, na velocidade, na falta de paciência, no acelerado das motos. E a cidade continua com semáforos de 12 segundos para a travessia da Avenida dos Andradas, no Morro da Glória, em frente à igreja.
As calçadas (muitas) estão esburacadas. Alguns ônibus – coletivos – tem altos degraus para o embarque e desembarque. Fica evidente a constatação de que a cidade está construída para quem corre. Mas não será assim para sempre. Com o passar do tempo e ele chega mesmo, isso muda. A vida muda. Porque envelhecer não é exceção. É o nosso destino coletivo. E todos nós desejamos chegar lá! Por isso, quando falamos de cidades que envelhecem, não estamos falando apenas de pessoas idosas. Estamos falando do futuro de todos nós. A questão central aqui não é sobre os anos vividos. A questão é outra. Essencialmente política: que tipo de cidade estamos construindo para o tempo que virá?
Precisamos, o quanto antes, desde já, pensar e fazer uma cidade que nos garanta o direito de envelhecer nela. Para todas as pessoas. Ignorar as pessoas idosas é empobrecer a nossa cidade. Porque elas, isso pode parecer clichê, recorrente, mas, elas, são testemunhas vivas da nossa história: viram bairros nascerem; enchentes acontecerem, como as de dias atrás; cinemas fecharem – eu lembro muito – do Cine Excelsior, Paraíso, Veneza, Festival, Rex.
Uma cidade que envelhece como a nossa, somos mais de 100 mil pessoas 60+, precisa ter políticas de novas condicionalidades: paciência, oferecer acessibilidade, promover escuta e cuidado aos idosos. Isso são condições de cidadania. Não é luxo nem preferências. Uma cidade boa para quem envelhece é, na verdade, uma cidade melhor para viver. Para todas e todos. Esse é o maior desafio das cidades do nosso tempo: reconhecer que estamos envelhecendo – rapidamente – e que nós, pessoas idosas, viveremos e já estamos vivendo na cidade – portanto, o futuro dos novos calçadões e espaços de convivências – terão rugas, cabelos brancos e passos mais lentos. E bancos confortáveis para assento. Tem que ter.

