Existe uma expressão da violência que não deixa marcas, mas, machuca muito, é silenciosa, e não aparece nas estatísticas – está muito presente no nosso cotidiano: a invisibilidade das pessoas idosas. Algumas? A maioria! É quando uma pessoa idosa está diante de nós, e ela não é vista.
Essa maioria está no ônibus, na fila do banco, do caixa do supermercado. Está na igreja. Está em muitos lugares. Mas, muitas vezes, a cidade passa por ela como se ela fosse apenas parte da paisagem urbana. Morta. As pessoas idosas não estão mortas para a vida. Não são paisagens. Nós não somos paisagens. Paisagem a gente observa. Pessoa a gente escuta. Paisagem não reclama. Pessoa reivindica. Paisagem não vota. Pessoa escolhe os destinos da cidade pelo voto.
E o momento é oportuno para apresentar aos candidatos e às candidatas às eleições de outubro: onde estão as pessoas idosas nos seus compromissos políticos? Uma cidade que envelhece, como a nossa, precisa de ter (?) mais do que rampas, bancos e ônibus acessíveis. Precisa combater o preconceito etário. Garantir moradia, mobilidade, segurança, cultura, lazer, saúde, trabalho e participação social. Envelhecer não pode levar ao nosso desaparecimento. Pelo contrário.
Uma pessoa idosa não é apenas alguém, como se tem no dia a dia da sociedade, que precisa necessariamente, de cuidados. É alguém, como nós, como eu, que possui história, conhecimentos, desejos, afetos, capacidade de escolha e direito de continuar ocupando o espaço público diariamente.
Celebramos a longevidade nos discursos oficiais e, ao mesmo tempo, retiramos das pessoas idosas o direito de decidirem sobre as suas próprias vidas. Isso precisa mudar. A velhice não é um problema urbano. É parte da solução urbana: a experiência de quem viveu décadas pode ajudar a cidade a cometer menos erros; construir melhores relações e enxergar aquilo que a pressa dos mais jovens não consegue perceber.
É urgente, sim, trocar o olhar de coitado pelo olhar de cidadania. A tutela pelo protagonismo. O silêncio pela participação. A cidade que envelhece, essa novidade da contemporaneidade, de um novo mundo precisa parar de olhar as pessoas idosas como paisagens. Não somos paisagens! Paisagens ficam paradas: pessoas idosas continuam vivendo, trabalhando, amando, errando, aprendendo, votando, criando e desejando uma cidade que seja sua amiga.
Uma reflexão final: se a cidade teima em não enxergar quem já envelheceu, como pretende acolher quem ainda vai envelhecer?. Vamos precisar de todo mundo. Vamos em frente. Já vivemos mais. O desafio continua: viver melhor. Precisamos sair da imagem de ter a pessoa idosa, necessariamente, como alguém frágil, dependente, objeto de cuidado, de “coitado” para o reconhecimento de sua força política, de sua cidadania. Com direitos de envelhecer com saúde, mobilidade, moradia, segurança, cultura, trabalho e participação social como parte ativa da cidade. Entrar prá valer no orçamento público municipal.

