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Mais anos de vida, menos lugar na cidade

Pitico Fernando Priamo
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Vivemos mais. Vamos durar por muito tempo. Isso deveria ser motivo de muita comemoração. Mas não é. A cidade, silenciosamente, transforma essa vitória em contradição. E abafa essa potencialidade. Há mais tempo de vida em nós. Há mais histórias. Mais perrengues também. E muito mais memórias. E paradoxalmente, há menos espaços na cidade, para todos nós que envelhecemos. Há uma “conspiração do silêncio” para que fiquemos em casa. A cidade que se vive hoje tem lado e tem escolha. Ela privilegia quem corre, quem sobretudo, consome; quem produz sem parar. “Time is Money”. A cidade organiza o tempo como mercadoria e tudo o que não se encaixa nesse ritmo é empurrado para fora do quadro.

O que faz do envelhecer é um ato político. Resistir. Pouco a pouco, vai se produzindo no envelhecimento uma invisibilidade que não é natural – ela é construída. Caímos no lugar comum: quem envelhece deixa de ser prioridade (algum dia foi?). Depois deixa de ser lembrado. Por fim, deixa de ser visto. Essa realidade não é destino. É decisão. Decisão política, urbana, econômica e cultural. Até quando, essa decisão vai continuar prevalecendo, diante de uma cidade com mais de 100 mil pessoas 60+?

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O que está em jogo não é apenas acessibilidade. É pertencimento. É dignidade. É o direito de continuar sendo parte – mesmo quando já não se atende às exigências da velocidade e do lucro. Há sim, uma força silenciosa no envelhecer. Há uma espécie de resistência em continuar ocupando o espaço. Em atravessar a rua mesmo quando o semáforo é de 12 segundos. Há também uma resistência em existir velho onde se esperava silêncio e ausência. Envelhecer, nos dias de hoje, é também possuir um desejo de permanência.

E talvez seja por isso que a cidade precisa reaprender: que o tempo não é apenas aquilo que se acelera – é também – aquilo que se sustenta. Uma cidade que se percebe justa não é a que corre mais rápido, mas a que não deixa ninguém para trás. Portanto, ter mais anos de vida não pode significar ter menos a cidade, ter menos direitos, ter menos voz e ter menos presença. O que vale de verdade, não é o tempo que temos, mas o valor que damos a ele. Afinal de contas, uma cidade, como a nossa, que não reconhece o valor da vida que nela envelhece, é uma cidade que já começou a perder o seu próprio futuro. Não vamos permitir que isso aconteça. Como?

Promovendo um pacto firme e robusto entre as gerações, os territórios e as escolhas políticas. O nosso futuro se constrói com planejamento de longo prazo, com adoção de políticas públicas para as pessoas idosas e a participação social real da comunidade. O futuro não pode ser um privilégio de poucos. Se for um projeto coletivo, ele se torna possível. Uma cidade que não acolhe o envelhecimento nega, com certeza, o seu próprio futuro. Isso é tudo o que não queremos.

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