Para Alice, em mãos (zinhas)

Por Júlia Pessôa

31/12/2017 às 07h00 - Atualizada 29/12/2017 às 15h06

Juiz de Fora, 1 de janeiro meu

Querida Alice,

Eu também acabei de chegar. Como tenho certeza que acontece com você, as pessoas têm grandes expectativas sobre o que eu vou me tornar. Não se assuste, elas não fazem por mal. Às vezes, os seres humanos têm um jeito muito torto de querer o melhor. Tente acreditar sempre que é isso que estão fazendo – nem sempre é, mas acabamos de começar a caminhada, sejamos otimistas.

Por ter nascido mulher, você vai nascer com o peso do mundo sobre as costas, ainda que tenha nascido no topo de uma montanha de privilégios -nunca, nunca deixe de reconhecê-los. Vão querer desde cedo lhe dizer o que você pode ou não pode fazer por ser menina – e pode ser que você nem se reconheça assim. Mas você tem pais incríveis, que sempre te dirão que você pode ser e conquistar tudo que quiser. Eles não estarão mentindo. O futuro é seu, menina. Meu também.

Sei que andam dizendo por aí que eu serei muito difícil, tem eleição no Brasil com projeções desesperadoras, e andam até associando o nome de um imbecil propagador de ódio a mim. “Fulano (recuso-me a nominá-lo) 2018”. Eu queria muito que me incluíssem fora desta, não quero meu nome colado a machista, homofóbico, corrupto (sim) e exaltador da ditadura. Mas tem muita gente boa se mobilizando para que você cresça num país melhor. É nelas que temos que acreditar.

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Não se leve tão a sério. Veja bem, eu duro 365 dias só e ainda que você acumule contagens de mim e meus irmãos, a vida é muito curta para a gente se preocupar com bobagens. Ria até a cara doer; peça colo enquanto puder; suje-se de tinta, terra e tudo que diverte; surpreenda seus pais com frases inapropriadas e bagunças homéricas. Seu irmão Rafa te ajudará nisso, não tenho dúvidas.

Eu gostaria de poder te dar alguma dica, algum conselho valioso sobre como vai ser a vida neste planeta louco em que acabamos de pousar, mas a verdade é que sei tão pouco quanto você sobre ele. A real é que não depende de mim o que vai acontecer, ao contrário do que todo mundo acha. “Vem 2018”, “Tchau 2017”, gente, quando as pessoas vão entender que quem nos faz são elas? O que posso adiantar é que contar com a boa vontade, as boas intenções e o com caráter das pessoas é sempre um risco. Mas tenho andado bem positivo, só de você ter chegado, por exemplo, eu tendo a ser muito melhor. Sigamos juntos. E atentos. E fortes.

Beijos,
2018

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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