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Embora constasse nos convites

Por Júlia Pessôa

31/05/2020 às 07h00 - Atualizada 29/05/2020 às 14h55

Pensei mais em você na semana em que se passou. Não que haja como me afastar completamente, nossas vidas – embora não nós – são indissociáveis. Ainda que hoje nos vejamos tão pouco. Estou reaprendendo a medir o tempo desde a última vez que pude sentir o corpo em contato com você. Há quantas manhãs não sinto o rosto ternamente abraçado pelo seu calor tão falso quanto reconfortante? Já faz quantas noites que as noites estão mais geladas porque meus pés invariavelmente de meia não pisam mais o seu chão? Nos últimos dias vi mais da sua cara, falaram mais de você. Era a proximidade do seu dia, lembrei-me depois. E pensei que talvez houvesse uma grande festa, em que abraçaria pessoas que eu amo, veria outras tantas inesperadamente, riria, comeria e beberia em algum canto, ao ar livre, sob pretexto de celebrar você, que seria mentira – ou esquecimento -, embora constasse escrito nos convites.

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Seria capaz de imitar Matilde e tirar a poeira da bicicleta caso isso fosse capaz de fazer você dançar. E isso diz mais sobre meu amor do que sobre a capacidade torácica, um tanto comprometida por uma rinite que já já ameaça virar sinusite, visto que chegou a época. Senti falta de me indignar em pequenas (ou grandes) aglomerações maldizendo a presidência, o assassinato movido a colorimetria de pele, o frio, as violências , as injustiças, um filme ruim, uma banda ainda pior, a falta de tempo e tudo, e todo mundo que leva a doença. Mas justamente por causa dela, engasgo no meu solitário praguejar, soterrada por cobertas que nem de longe se assemelham ao calor de desbravar os dias com você.

Como meu péssimo hábito de me perder no tempo tem piorado bastante, passei a anotar cada dia que sinto um mínimo sinal de sua falta. É para manter intacta minha linha de crédito, evitando me manter devedora quando finalmente puder passar a régua nessa salgada conta de nostalgia. Sei que falharei, e logo estarei vociferando, ainda que em murmúrio, contra o caos de seu Calçadão,  a soberba de sua classe média que se julga elite ou o trânsito impossível da Região Central e tantas outras coisas mais. E eu não sei se é a pequenez de minhas janelas, se são as lentes coloridas de olhos em isolamento, se de fato é amor ou a força (fortíssima) do hábito. Mas da aqui de onde te vejo, pela tela que segura a gata em casa ou pelas que digitalizam suas cores, só sinto saudades. 170 anos, Juiz de Fora. Parece que foi ontem. Quando vai ser nosso amanhã?

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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