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Boletim meteorológico

Por Júlia Pessôa

29/09/2019 às 07h00 - Atualizada 28/09/2019 às 16h06

Quando a realidade é dura demais e não há alento para onde quer que olhemos, resta falar sobre o tempo. Não o tempo cronológico, o passar das horas e dias, mas aquele que aparece normalmente próximo deles nas telas de nossos celulares, indicando a temperatura, se vem chuva, ou se dá para ficar sem casaco até o fim do dia. Hoje eu falo sobre o tempo da meteorologia, que notoriamente tem vontade própria aqui em Juiz de Fora, fazendo do chavão um tanto irritante das “quatro estações do ano em um dia” um clássico de conversas de elevador. O tempo, aquele que não por acaso se fechou na última semana, num início de primavera em que as flores não deram as caras (não julgo. Eu, se pudesse, faria o mesmo em vários momentos) e que mais se parece um clichê de cenas de filme tristíssimas de dias frios e chuvosos, em variadas escalas de cinza.

Não tenho qualquer conhecimento científico sobre as condições climáticas, mas não preciso desta formação para afirmar – com provas e convicções – que no Brasil, elas se manterão pesadas, sem alteração do estado presente ou de muitos anos já.  Uma massa de ar de genocídio vai continuar a pairar sobre zonas periféricas com tempestade de balas que, ao contrário das perdidas, têm alvo certeiro: nunca falham na localidade e na cor da pele de onde acertam. “Mira na cabecinha e… fogo!”. Nem sempre, é verdade, a cabeça é o destino final, mas “perdidos” é que estes projéteis não são. “Encomendados” talvez seja o termo científico. Mas como disse, não tenho formação específica na área.

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O tempo segue encoberto em todo país, com possibilidade de chuva de excrementos a qualquer momento. Postagens adulteradas buscando culpabilizar meninas adolescentes que buscam alguma forma de conscientizar o mundo sobre seu inevitável homicídio tendem agravar este cenário. Discursos de machos prescrevendo sexo como cura a consciência ambiental destas mesmas jovens também são fatores de risco para enxurradas de dejetos. Há um alerta meteorológico de que o volume intenso das precipitações de excreção podem causar enchentes (cuidado com afogamentos). Não há previsão de céu aberto e ensolarado para os apaixonados. Uma frente absolutamente fria formada em Nova Iorque tende a atuar, fazendo declarações de “I love you” serem respondidas com gélidos “Bom te ver de novo” (ai!).

Declarações falsas sobre uma Amazônia intocada diante de autoridades do mundo inteiro não revertem a situação em que a região se encontra, nem a névoa de fumaça que ainda encobre a região – e encobrirá por muitos anos ainda, depois que as chamas tiverem parado de queimar. Análises da Nasa e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), apontam correlação entre as queimadas atuais e o desmatamento que ocorreu nos meses anteriores, que chegou a uma alta de 50% entre agosto do ano passado e julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores. Os dados vêm de alertas do sistema Deter, de suporte à fiscalização e controle de desmatamento e da degradação florestal, vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ainda segundo o instituto, queimada espontânea, é rara na floresta tropical úmida, segundo o instituto. Não adianta vestir colar de índio para forjar autoridade sobre a natureza, cuja verdade sempre prevalece, tamanha sua superioridade.

Perdão pela omissão e a fuga dos dolorosos temas importantes dos últimos dias. É que quando as coisas andam difíceis demais, repito: é sempre melhor falar sobre o tempo.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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