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Medo besta

Por Júlia Pessôa

24/11/2019 às 07h00 - Atualizada 22/11/2019 às 17h13

Uma tentativa/ameaça/suspeita de assalto, uma reação a mão armada, uma vítima fatal. Troque-se os nomes e , dependendo do caso, a ordem dos fatores, e temos a cena repetida elevada à enésima potência. “Estava no lugar errado, na hora errada”. Até quando se vai defender a máxima de que armas são sinônimos de segurança para o dito “cidadão de bem”, quando Ágathas não chegam aos dez de idade, quando músicos são exterminados por oitenta tiros (OITENTA TIROS), quando… quem foi que matou Marielle e Anderson mesmo? Infelizmente, adianto a resposta. Não é tão cedo que vai acabar o belicismo no país em que se manda e desmanda e que o cargo de maior poder político é ocupado por alguém que funda um partido próprio, cujo número faz alusão ao calibre 38 de um revólver, e cuja representação é um painel feito com cartuchos de balas. (A ultradireita, além de todas as tristes mazelas, é cafonérrima).

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Eu entendo o impulso que faz quem se sente ameaçado de alguma forma correr a mão à cintura para buscar a arma. O problema é ela estar ali, e poder estar cada vez mais facilmente. O problema é ela ser a resposta, a primeira, quando não a única. O problema é achar que ela é proteção. Não é. Jamais será. Não se apaga fogo com gasolina, não se coíbe a insegurança causando mais insegurança (a ponto de matar), não se evita tragédia com tragédia. “E se fosse você? E se tentassem te assaltar/matar/roubar/insira aqui sua pergunta passivo-agressiva sobre criminalidade?”. Só neste ano, houve um aumento de 16% no número de pessoas mortas e feridas por balas perdidas em locais em que havia presença de agentes de segurança do estado (policiais civis ou militares). Segundo o levantamento, da plataforma Fogo Cruzado, 23 pessoas morreram e 61 ficaram feridas na Região Metropolitana do Rio entre 1º de janeiro e 3 de setembro. Estamos falando de ações com agentes treinados. Imagine a desgraça quando pensarmos num cenário em que qualquer borra-botas como eu e você que me lê pode ter acesso a uma arma de fogo.

Esses dias mesmo falei sobre um medo que carrego desde sempre, mesmo tendo achado, também desde sempre, muito besta. De estar, um dia, no dito “lugar errado, na hora errada” – que parece ser cada vez mais frequentado – e passar alguém atirando, ao léu. A cada dia que passa, tenho achado meu medo menos besta. E ando com um questionamento perene, como um zumbido na orelha depois de um estrondo: restarão lugares e horas certas?

Júlia Pessôa

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