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Caça às bruxas

Por Júlia Pessôa

22/09/2019 às 07h00 - Atualizada 20/09/2019 às 18h01

Se tem um termo de que eu tenho pavor é “caça às bruxas”. Pelo simples fato de que ele, como tantos argumentos que vemos deturpados em textões de internet – que além de equivocados são chatíssimos – nunca sé utilizado por quem deveria se apropriar deles. No caso, as bruxas, sejam elas as pessoas que sofrem as mais variadas opressões nesta nossa contemporaneidade ou as tantas mulheres que de fato foram atiradas em fogueiras em séculos passados, por não corresponderem – por resistência, inocência ou preconceito – ao que se esperava que elas fossem.

Muito ao contrário de designar uma perseguição injusta a vítimas de um sistema que persegue e aniquila pessoas sem qualquer fundamento, “caça às bruxas” tornou-se uma expressão guarda-chuva que acaba por proteger um opressor contra a reação das pessoas que ele oprime. Está diante dos nossos narizes, o tempo todo. A cada homem que é acusado de assédio sexual por uma mulher- ou por várias. “Ah, mas tem que ver isso aí, não podemos fazer uma caça às bruxas”. A cada resposta a uma palavra, expressão ou ato LGBTTIfóbico que a galerinha “engraçadona” insiste em continuar, legitimando a violência – não raramente fatal – contra quem integra a sigla. “Calma, não precisa fazer uma caça às bruxas, foi uma piada, não é igual bater num viado/travesti (sic)/sapatão/insira aqui quem muita gente acha motivo de piada”. A cada imbecilidade proferida por quem tem o mau-caratismo de falar em absurdos como racismo reverso. “É uma caça às bruxas, como se ser branco fosse errado, enquanto os negros são vitimistas e aceitam esmolas como as cotas de ensino”. “Caça às bruxas”, quanta cara de pau e falta da retidão em nomear as coisas como se deve: vontade do opressor em continuar oprimindo.

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Na semana que se passou, a atriz Fernanda Montenegro, que completa 90 anos no mês que vem, estampou a capa da revista literária “Quatro cinco um” em uma edição que certamente se tornará histórica. Na imagem, ela aparece trajando um longo vestido preto e amarrada por cordas. À sua frente, um monte de livros. A imagem é uma clara menção à caça às bruxas feitas, entre outros mecanismos, pelos tribunais de inquisição, que lançaram mulheres e livros inapropriados à sociedade às chamas. “Quando acenderem as fogueiras, quero estar ao lado das bruxas”, diz a atriz à publicação.

Eu queria não ter pensado no que pensei quando vi a capa e a declaração da artista quase nonagenária. Mas para onde quer que eu olhe na atualidade, vejo uma multidão empunhando as tochas, ávidas por ver gente queimando em enormes fogueiras. Certamente eles estarão aqui, pouco abaixo destas linhas, como acontece todo domingo. Talvez todas fogueiras ainda não estejam acesas, de fato. Porém, como incontáveis outros e outras, por precaução, eu sempre soube direitinho de que lado estou – e ultimamente, mais do que nunca. Abracadabra!

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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