Tópicos em alta: delivery jf / eleições 2020 / coronavírus / greve / polícia

Tomara que caia

Por Júlia Pessôa

20/10/2019 às 07h00 - Atualizada 18/10/2019 às 18h00

Essa semana, enquanto me refastelava no dito no foco de transmissão de esquerdopatite de Juiz de Fora, a Faculdade de Comunicação da UFJF, discutia, em um grupo de estudos, um texto que falava sobre os machismos naturalizados na moda. E aí surgiram várias expressões das quais eu nem conhecia a peça de vestuário a que o texto se referia. Nos EUA, por exemplo, uma camiseta branca ajustada ao corpo, atribuída ao guarda-roupa masculino, tipo aquelas que se usava por baixo da camisa, se chama “wife beater”, literalmente “espancador de mulher”.

Outras naturalizações de termos remetem a como o corpo da mulher é visto socialmente como estando à disposição de homens, insaciáveis “por natureza”. Está no termo “tomara que caia”, que repetimos tão cotidianamente e que se pensarmos dois segundinhos, remete a uma violência simbólica, a uma nudez que se deseja, mas não é consentida, um desnudar que é não é voluntário. Pensar nisso me remeteu à adolescência, do medo de usar tomara que caia em ambientes como shows e de fato alguém puxá-lo. O artigo também falava, da versão em inglês para o scarpin, aquele sapato de salto com bico fino que, em tese, “empina a bunda”. Em inglês, ele foi apelidado de “fuck me pumps” que, perdão pelo palavreado, significa saltos “vêm me foder”.

O conteúdo continua após o anúncio

Não é possível que as pessoas não percebam que a mesma lógica que está nesses nomes permeia o pensamento de que uma mulher “estava pedindo”: um estupro um assédio, uma agressão. Como se sapatos expressassem abertura e consentimento automático ao sexo. Como se uma roupa curta ou decote fosse um convite ao toque. E ao contrário também, como se uma mulher que se veste com roupas lidas como masculinas automaticamente fosse interessada em outras mulheres, e, sendo o caso ou não, a interpretação dada, e aí justificam-se assédios sexuais, e estupros corretivos “para aprender a gostar de homem”. Não sou eu que estou dizendo. É o Datafolha, que realizou uma pesquisa revelando que um em cada três pessoas brasileiras acha que a culpa de estupro é da mulher. Entre os homens, claro, é pior: 42% deles dizem que mulheres que se “dão ao respeito” (o que quer que pensem que isso seja” não são estupradas. E a moda está reforçando este pensamento: para 30% dos homens, a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada.

As palavras têm poder. “Tomara que caia” diz muito sobre como se imagina o corpo da mulher na sociedade. Como não pertencente a ela própria, como subjugado ao desejo e ao toque dos homens, como se existisse para servir. Tomara que o termo caia e se torne uma expressão apenas do que de fato deve entrar em queda livre. Esse termo não, ele não, tomara que caia! (Quanto ao suposto foco de esquerdopatite, caso seja confirmado como local de contágio, temo que vá sofrer contaminação voluntária repetida).

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia