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Regra de três

Por Júlia Pessôa

20/09/2020 às 07h00 - Atualizada 19/09/2020 às 18h14

Nunca fui muito boa com número. A despeito da exatidão que atribuem à matemática, jamais confio na exatidão dos cálculos que eu mesma faço, recorrendo com frequência a uma regrinha de três rabiscada no papel, a uma calculadora ou aos dedos das mãos pra garantir a contagem. Se minha inaptidão numérica acidentalmente me doeu ou favoreceu o bolso algumas vezes em trocos equivocados, o passar dos anos me fez enxergar com precisão uma conta que nunca fecha: pagar na mesma moeda.  Olho por olho, dente por dente, soco por soco, tiro por tiro  – e variações infinitas destes – são, por excelência, círculos viciosos e que tendem à autodestruição.

Jamais vocês me verão advogar por uma superioridade moral blasé de oferecer a outra face quando a que apanhou ainda tem estalados os dedões quentes de quem me virou um safanão. Tampouco estou falando de um pacifismo submisso, de aceitar violações e violências sem reação. Mas tenho pensado muito em gastar meu tempo, minha energia, minhas palavras e reações de maneira útil.  E aí que vejo que o câmbio de “pagar na mesma moeda” é nulo.

Assisti horrorizada, na semana que se passou, ao chilique violento de um homem que viralizou nas redes. Quando a funcionária de uma sorveteria de Campinas (SP) pediu que ele usasse máscara dentro do estabelecimento, ele gritou, chutou objetos da loja, xingou, humilhou e ameaçou a moça. Seguiu à risca o  velho roteiro de uma masculinidade extremamente agressiva, um “eu sou homem” que caso aqui R$ 100 se alguém teve a sorte de nunca presenciar. Como é típico da laia, quando o caso se tornou público, ele mentiu que teria sido agredido com um soco antes de seu siricotico. Como é típico da laia (2), não foi a primeira vez que algo assim aconteceu. O agressor negacionista já havia sido condenado pela Justiça Federal a prestar serviços comunitários e pagar cestas básicas por ameaça e denunciação caluniosa contra uma médica perita do INSS.  Coincidência que as duas agressões tenham sido a mulheres? Óbvio que não.

Tampouco é coincidência que um dos tweets que denunciou o infortúnio também tenha cometido uma violência simbólica – ainda que, sem dúvidas, tenha sido bem-intencionado com a vítima deste caso. “Patriota rasga calcinha em sorveteria em Campinas pq a atendente se recusou a atendê-lo sem máscara”, dizia a publicação que acompanhava o vídeo do piti do homem. Do homem, reitero.

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Dizer que ele “rasga calcinha”, que é uma peça associada ao feminino, é relacionar o comportamento violento ao de uma mulher. Possivelmente pessoas dirão que ele “não agiu como homem”, “não é homem de verdade” e variações no mesmo tom. Enquanto isso, a maioria esmagadora de agressões deste tipo é praticada por homens, contra mulheres. Tentar desqualificar o agressor fazendo relação a uma vestimenta feminina diz muito sobre como nossa sociedade enxerga as mulheres: histéricas, descontroladas, desequilibradas, (insira aqui outro adjetivo).

Estou falando, claro, de uma leitura generalizada, de uma visão da calcinha como uma peça “de mulher” num sentido social. (Porque eu mesma acho que roupa não tem gênero e calcinha, cueca ou o diabo, usa quem quiser. Mas isso é papo para outra coluna, não sou eu que mudo as convenções sociais.)

“As ferramentas do mestre nunca vão desmantelar a casa-grande”, escreveu muito sabiamente Audre Lorde em 1984. Na minha matemática das palavras, a regra de três me traz um resultado incontestável e análogo sobre o babaca de Campinas e a infeliz calcinha do tweet que o expôs: “As ferramentas misóginas nunca vão desmantelar a misoginia”.

 

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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