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Feminazi

Por Júlia Pessôa

17/11/2019 às 07h00 - Atualizada 18/11/2019 às 12h49

As veias abertas da América Latina, cunhadas por Eduardo Galeano, mas vividas desde os tempos coloniais – que nos tentam fazer engolir até hoje como “descobrimento” – não jorram tanto sangue assim faz tempo – e um pouco de pus, tamanha putrefação – embora nunca tenham chegado a cicatrizar. A precariedade da vida no Chile que levou a manifestos gigantescos, o golpe de Estado na Bolívia, a histórica situação de miséria em que a Venezuela se afunda há anos, e o Brasil…. bem, não preciso dizer muito sobre o Brasil. “Só quem viveu sabe, Gabi”, como diria o meme. Mas eu hoje não vou escrever sobre a derrocada política da América Latina, embora não me saiam da cabeça os versos de Caetano sobre o inconformismo de sempre confirmarmos “a incompetência da América Católica”, com seus “ridículos tiranos” que com sua burrice fazem jorrar “sangue demais”. Mas talvez eu só ouça Caetano demais.

Mas andei pensando esses dias sobre como qualquer mulher, identifique-se ou não como feminista, que defende direito de, pasmem, mulheres, é logo tachada da contradição em termos que é o termo “feminazi”. Certamente o termo se popularizou pela falta de cognição de quem o usa, porque qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento e reflexão sabe que é impossível unir em um termo duas linhas de pensamento tao extremamente opostas como o feminismo e o nazismo. Para ser muito simplória, a primeira defende a inclusão, a igualdade, e outra a exclusão, a eliminação (literal mesmo, no sentido de assassinato) do que é diferente da norma. Além disso, conforme Sarah Helm narra em detalhes assustadores no livro” Se Isto é Uma Mulher”, o nazismo se posicionou fortemente contra o feminismo, perseguindo ativistas e pensadoras, fechando clínicas de planejamento familiar e declarando o aborto um crime. Eliminando estas mulheres. Portanto, o uso do termo “feminazi” só pode vir da má-fé ou da burrice (ou de ambos).

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O que vejo, bem ao contrário, é que as mulheres continuam sendo eliminadas, humilhadas e violadas pelo mundo todo, diariamente, em massa. Seis mulheres morrem a cada hora em todo o planeta vítimas de feminicídio, dado de 2018 da ONU. No Brasil, uma morre a cada duas horas vítima de violência, segundo números levantados pelo G1, o portal de notícias da Globo, em parceria com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Voltemos à América Latina: na última semana, Patrícia Arce, prefeita da cidade de Vinto, da província de Cochabamba, foi humilhada publicamente, tendo o cabelo cabelo cortado, pintado de rosa e sido obrigada a andar descalça por vários quarteirões em meio a gritos de “assassina”. Nos protestos do Chile, grupos feministas fizeram várias denúncias de maus tratos, tortura e violência sexual por parte dos Carabineros, a tropa de choque do governo chileno, às mulheres. Fugindo da crise da Venezuela, várias mulheres relataram ter sofrido abuso sexual em Roraima. E como se tudo não fosse estarrecedor demais, fora tudo que há de misoginia no Brasil, nesta última semana, em Gravataí (RS), o corpo de uma mulher foi retirado da cova e encontrado seminu por familiares. Após perícia há indicativo de que possa ter sofrido algum ato com conotação sexual. Não temos paz nem com a morte.

Chamar uma mulher de feminazi é, além de covardia e incapacidade intelectual (à compreensão do termo e ao debate), uma tentativa de silenciá-la. Ademais, se é para falar de nazismo, nós estamos exatamente no lado oposto, o das vítimas de um histórico, impiedoso e incessante holocausto.

Júlia Pessôa

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