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Duas letras

Por Júlia Pessôa

17/05/2020 às 07h00 - Atualizada 15/05/2020 às 13h02

É inevitável que o espírito do tempo –zeitgeist no alemão, que parece ter uma palavra específica para expressões e frases inteiras-, nos afete. Estamos cada vez submergindo mais fundo, na melhor das hipóteses, em incertezas sobre o que nos aguarda e aguardará da porta de nossas casas para fora.  Assim, quando nada se sabe sobre o futuro, é natural que sintamos insegurança, descrença e até uma certa desconfiança.

Precisamos, entretanto, tomar medidas de proteção contra outra pandemia cujo foco foi identificado no Brasil: o ceticismo, a incapacidade absoluta de crer que possamos ter dias melhores (aposto que existe uma palavra específica em alemão para isso). Será que estamos incuravelmente mergulhados em incredulidade? Por que não acreditar que, numa conversa sobre a atuação da inteligência da Polícia Federal as letras “PF” não estejam relacionadas às palavras “polícia” e “federal”? “São duas letras”, disse o homem que é notório por suas relações com mentiras. (Não estou dizendo que é verdade, hein!).

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De fato, duas letras. Pensem comigo: num contexto em que eu estivesse reclamando que não recebo informações da inteligência da Polícia Federal, quando digo “PF”, a sigla pode querer dizer absolutamente qualquer coisa. Imaginem possíveis frases completamente plausíveis. “Não estou recebendo informações da inteligência do prato feito”. Perfeitamente crível. Trata-se de um admirador de um dos baluartes da gastronomia brasileira. E há outras substituições igualmente possíveis para as duas letras: “Paulo Freire” ou “Paulo Francis”, a gosto do posicionamento do freguês. “Por favor”, numa clara manifestação de educação. “Pai e filho”, já que sempre foi “pela famiglia” (olha, outro PF!). “Peter Frampton”, em uma nítida apreciação do rock dos anos 1970. “Polinésia Francesa”, planejando o turismo pós-quarentena -caso ele exista. “Page fault”, falando sobre um erro de programação computacional… enfim, tantas combinações possíveis com duas letrinhas, que só pode ser maldade e leviandade dessa esquerda-comunista-abortista-gayzista-maconhista-corrupta-mimimizenta entender que “PF” significa Polícia Federal numa conversa sobre a Polícia Federal.

Assim, como manifesto meu profundo desprezo, vergonha e a absoluta certeza de que o Brasil não tem a menor perspectiva de futuro – a não ser a descoberta de novos fundos do poço – com JB. O uísque? Juliette Binoche? Jornal do Brasil? Jack Black? James Bond? Jabá com batata? Jabuticaba branca? Jingle Bells? Justin Bieber? JavaBeans? Há possibilidades infinitas, não tirem conclusões sobre o que eu não disse. Mas deixo, de lambuja, uma sugestão: “já basta”.

 

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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