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Dez minutos

Por Júlia Pessôa

15/09/2019 às 07h00 - Atualizada 13/09/2019 às 17h01

Nesta última semana, eu fiquei paralisada diante de afazeres que pareciam se multiplicar feito Gremlin sob goteira. Buguei, parei, congelei, dei pau, surtei, empenei, dei siricotico, piripaque, chame como quiser. Eu simplesmente não consegui mais produzir. Fiquei estática diante do monitor, com agonia de um cursor piscando, como uma tortura chinesa que me lembrava passivo-agressivamente que cada minuto que eu passava imobilizada era um a menos de sono e de dever cumprido, o que – surpresa!- só me deixou mais ansiosa e improdutiva. Muito ao contrário do que dizem baboseiras motivacionais, eu desisti. Há que se desistir sim, sempre que a insistência é só um caminho para o desgaste emocional, físico e mental.

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Tem um dizer desses que memetizou e os trouxas da internet adoram replicar: “Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham”. Toda vez que essa atrocidade pipoca na minha timeline fico enojada. Essa ideia de que precisamos produzir o tempo inteiro, essa glorificação do tempo preenchido, a ética e a estética da máxima “o trabalho enobrece o homem” – que ainda por cima é machista, como se trabalhar fosse só do domínio dos homens. É “treinando” enquanto eles dormem e seguindo a sequência como uma cartilha de sucesso que nos tornamos insones, cansados, doentes e para ser sincera, a maior parte das pessoas que eu conheço nem ganhando mais dinheiro por se manter ocupado o tempo todo está. Precisamos parar de bater palma para o doido das horas úteis dançar. Precisamos, sim, de descansar – ainda que haja loucos “persistindo” às custas da própria sanidade e saúde.

Não é raro que eu me esqueça disso, ou ainda que me lembre, ignoro todos os alarmes do meu corpo que soam me informando que é hora de parar. Nunca dá certo. Sempre acabo esgotada, o que prejudica que eu continue funcional não só no dia em que tento apesar do cansaço, mas no seguinte, num ciclo que pode se prolongar. No dia do meu pequeno (mas não único) bug do milênio particular, fui dormir, enquanto talvez, eles estivessem treinando. E no dia seguinte, tirei dez minutinhos do meu dia para fazer absolutamente nada. Nada. Dez minutos apenas, nem mais, nem menos. O tempo de um atraso que ainda se pode justificar com algum traço de elegância. Quase nada no dia, mas exatamente o intervalo de que eu precisava sem qualquer tela diante da minha cara. Muitas vezes o que a gente precisa fazer por nós é exatamente isso: quase nada, e que muda absolutamente tudo. E nem assim o fazemos. Fiz um tratado comigo mesma: desistir sempre que for necessário, e nunca mais me negar dez minutos em tempos em que é tão importante estar atenta e forte.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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