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Liberdade (ainda que à tardinha)

Por Júlia Pessôa

10/11/2019 às 07h00 - Atualizada 09/11/2019 às 17h16

Embora não seja mineira de nascença, sempre gostei do lema inscrito na bandeira: “Liberdade ainda que tardia”. Talvez por meu usucapião de mineiridade que já completa 16 anos, tenho internalizado cada vez mais o lema, o que é bastante representativo para uma pessimista inveterada como eu. A flâmula mineira meio que passou a sussurrar em meu ouvido que não importa quão sufocante sejam as prisões em que a vida nos joga, a liberdade, quando merecida e justa, sempre vem. A falta de amor próprio (e alheio). Nossas inseguranças. Relacionamentos abusivos, tóxicos e que só nos diminuem. Opressões sociais. Desigualdades mil. Preconceitos. A falta de esperança. Tantos, tantos encarceramentos. Mas precisamos acreditar, bem à mineira, na liberdade.

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Ao longo da vida, fui diversas vezes jogada no xadrez, e durante muito tempo acreditei estar em prisão perpétua. Claro que não falo de unidades penitenciárias reais, pois até onde sei, carrego uma ficha limpíssima – a menos que criminalizem o sarcasmo, a falta de paciência ou a preguiça. Em caso positivo, me declaro culpada. As grades a que me refiro são aquelas impostas pela sensação que vez ou outra quase todo mundo sente nesta vida, de estar imobilizado, de mãos atadas, sem ter para onde ir, algo desesperador. Mas talvez pela mineiridade adquirida e por grilhões que vim, não sem luta, rompendo, tenho aprendido a acreditar cada vez mais na possibilidade de ser livre, cada vez mais.

Não é que eu defenda a liberdade absoluta e impune. Liberdade de expressão, por exemplo, ao contrário dos verborrágicos da internet acreditam, tem limite. Tanto limite que cruzá-lo pode até dar, olha só, cadeia! Na verdade, é aquela máxima, a liberdade de alguém acaba quando limita a de outra pessoa, como nossas avós diziam. No mais, quem não deve, não teme. E quem deve, de fato comprovado por a mais b, que pague sim, pelas consequências. Quanto a mim, venho derrubando cada vez mais os muros que me cercam e prendem, por mais enclausurantes que eles sejam. Estou livre, e mais importante ainda: sem duvidar de que a liberdade, quando é de direito, vem. Ainda que tardia. Ainda que à tardinha.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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