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Sobre inbound marketing e videogames

Por Júlia Pessôa

08/12/2019 às 07h00 - Atualizada 06/12/2019 às 15h53

Ela estava ali, ouvindo termos como “inbound marketing”, “funil de vendas”, “buyer persona” , e outros tantos dos quais alguns eu mesma, como orientadora do trabalho da filha, tive que pesquisar, já que marketing não é lá minha praia acadêmica, profissional ou em qualquer modalidade da vida. Mas ela, a mãe, estava ali, atenta a cada palavra. Não sei se ela é profissional da área, mas aquele momento me remeteu à minha própria mãe, sentada em uma sala de aula ouvindo, sem qualquer familiaridade, minha defesa de um trabalho que, entre outros muitos, tratava do conceito coautoria de narrativas interativas aplicado a quem joga videogames de objetivos abertos. Eu duvido que ela estava por lá para ampliar seu conhecimento sobre games ou qualquer dispositivo estudado por um viés da Comunicação, em seu amplo escopo. Mas balançava a cabeça afirmativamente a cada frase minha, como se estivesse em uma palestra muito boa de um congresso de sua própria área.

Como a mãe que me trouxe a sua lembrança, a minha estava ali porque era importante estar, fazer parte daquele pequeno grande momento. “Filha, entendo nada disso, mas vi que gostaram”, ela me disse, assim que saí para que a banca avaliasse minha pesquisa. Quando voltamos, fez caretas quando questionaram alguns argumentos – natural em qualquer banca de avaliação – sorriu quando fui elogiada, torceu pra ouvir logo a sentença que ambas queríamos: “aprovada”. Batido o martelo, ela me olhou como se eu pudesse conquistar o mundo, e foi exatamente assim que me senti, com o respaldo de outros olhares amadores, tanto em relação aos videogames quanto à literalidade que o termo sugere, de amor e não como, podem argumentar, “obrigação de mãe”.

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Desde que tive esse flashback, fiquei pensando no quanto é isso que realmente importa, “estar” para quem a gente ama, e ter quem “esteja” para a gente. Não por obrigação ou pela lógica burra que culmina numa cobrança irracional de presença física. Falo de uma presença “fantasma”, o clichê de saber que a gente não anda só, mesmo nos momentos em que está completamente sem companhia – até porque é fundamental que saibamos viver apenas conosco. Em primeira e última instância, quem deve estar por nós somos nós mesmas, nós mesmos.

Essa semana mesmo brinquei com a Dida, minha amiga, que não apareci entre as fotos mais curtidas dela do Instagram nesse longo 2019- e foi piada mesmo, porque tenho horror de amizade com nota fiscal. “Mas você sempre está do lado de dentro, Juju”, ela me disse. E eu realmente me lembro de cada uma destas fotos em que não apareci, sei o contexto em que foram tiradas, se foram em dias felizes ou não. Eu estava ali. Contra fotos, há argumentos sim. Detesto “O Pequeno Príncipe” e a máxima de que a gente se torna eternamente responsável por aquilo que cativa, que pressupõe um afeto com amarras. Se há Deus, ele que me livre disso. Mas o diminuto herdeiro do trono está certo em uma coisa: “o essencial é invisível aos olhos”. O verdadeiro estar é intangível, mas a gente infalivelmente sente. E vez ou outra, quando a vida permite, ele se manifesta quando alguém se senta para nos ouvir falar sobre coisas como inbound marketing e videogames.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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