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1888: o ano que não terminou

Por Júlia Pessôa

08/09/2019 às 07h00 - Atualizada 06/09/2019 às 16h26

Que me perdoe Zuenir Ventura, pela audácia em contradizê-lo. Em uma de suas mais célebres obras, “1968: o ano que não terminou”, o jornalista fala sobre fatos, sobretudo os que se passaram no Brasil, que remontam ao ano que, é verdade ecoa até hoje ( para bem e – sobretudo hoje em dia – para mal). Felizmente ainda ouvimos os filhos da então cultura pop da época: Beatles, Rolling Stones e no Brasil, artistas que se tornaram referência para muitas gerações como a trica Caetano&Gil&Chico). Também como na época, que remonta à promulgação do AI-5, vivemos, guardadas as devidas proporções, com a constante ameaça do fantasma do autoritarismo cheirando nosso cangote, com palavras como censura voltando à boca das pessoas, e à mídia ao a decisões de governos. Por outro lado, naquela época e hoje, as ruas protestam, ainda que tenham sua voz abafada e seus direitos ameaçados. Em 1968, protestou-se contra a morte do estudante Edson Luís. Hoje, exatamente 543 dias depois, quem matou Marielle e Anderson? Quem mandou matar?

Realmente, em muitos aspectos, quando se pensa em 1968, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Mas como Baco se desculpa a Jay-Z na hypada música, retomo meu pedido de perdão a Zuenir, porque não foi 1968 que se manteve infindável. Pelo menos não no Brasil. Desculpa, Ventura, estamos agarrados a um passado muito mais longínquo.

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Uma vez, conversando com a Paula, uma mulher negra que admiro muito, ela me contou que entendeu sua negritude aos poucos, mas um fato, que nem se passou com ela, teve um peso muito emblemático. “Uma das primeiras coisas que meu pai ensinou a meu irmão foi: ‘não corra. Não importa o quanto você estiver com pressa, não corra. Homem e moleque preto correndo é sempre bandido. E nunca ande sem documento”. Eu nunca me esqueci desse relato da Paulinha, que me marcou e mudou para sempre meu olhar sobre como o racismo é tão naturalizado a ponto de crianças negras terem que aprender como se manterem vivas ou, no mínimo seguras.

Na última semana, um jovem negro foi amordaçado, despido e golpeado a chicotadas pelo segurança de um supermercado, por ter furtado um chocolate. Não se trata de coibir o crime, trata-se de um sadismo e uma obsessão por tortura. Traços que mostram a falácia da abolição da escravatura em um país em que casos como este não são exceção. Não vale nos esquecermos do adolescente amarrado nu em um poste e espancado por vários agressores, chegando a ter a orelha arrancada , no Rio. Meses depois, um outro jovem negro foi linchado até a morte no Maranhão, diante de uma população que filmava e fotografava enquanto seus últimos sinais de vida iam sumindo. O menino uniformizado morto a balas na favela da Maré, “por engano”, ainda que trajando uniforme da sua escola. Não é sobre querer que alguém pague pelo que fez (quando de fato fez, o que seria justo, e a lei deve cumprir sua função nestes casos). O que se vê, na chibata que estala nas costas e nos comentários de internet que dizem “tem que chicotear vagabundo mesmo”, é um fetiche – quase sexual – pelo poder de torturar alguém. É racismo, é genocídio. É a cultura escravagista a plenos vapores, legitimando todo dia a descartabilidade- literalmente – do corpo negro.

E mesmo do alto da minha branquitude heterossexual de classe média, que me impede na maioria esmagadora das vezes de enxergar nuances do racismo explícitas para quem o vive, é impossível não enxergar o óbvio: é 1888 o ano que não terminou.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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