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Qual vida negra importa?

Por Júlia Pessôa

07/06/2020 às 07h00 - Atualizada 05/06/2020 às 08h34

Toda pessoa branca (ou reconhecida como tal) nasce beneficiada pelo racismo, mesmo que jamais tenha uma atitude discriminatória em toda sua vida, porque é assim que estamos estruturados historicamente como sociedade. Daqui de onde falo, não sei o caminho ou a fórmula para que possamos quebrar tais estruturas preconceituosas, excludentes e discriminatórias. Mas não vejo outra possibilidade de que isso aconteça a não ser ouvindo quem está no lado oposto do sistema (e “cis”tema) racista que favorece a branquitude – e outros marcadores de privilégio. E é por isso que hoje eu me calo, atentíssima às palavras de quem escreve, minha amiga Dandara Felícia, 39 anos, preta e travesti.

Qual vida negra importa? A resposta pode parecer óbvia, mas saindo de minhas mãos é provocativa. No caldeirão de identidades que somos, algumas vezes percebemos que as vidas negras importam para fazer a luta para toda a sociedade, depois… depois elas são descartáveis. E por que eu levanto isso hoje e agora? Porque estamos na primeira semana de junho, mês do orgulho LGBTQIA+ e esse evento tem uma história muito profunda de descarte de corpos negros depois que são aproveitados.

“Stonewall” é talvez o grande exemplo de como os mais oprimidos são os que iniciam a revolta, rapidamente têm sua pauta capturada e depois são descartados. E eu escrevo isso hoje para que a gente não repita sua triste história.  A “Revolta de Stonewall” começou como um levante, um protesto contra a polícia, motivado pelo tratamento violento dispensado pela mesma contra as trans, gays, lésbicas e bissexuais que frequentavam o bar cujo nome mais tarde batizou o nome da data.

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A história conta que foi Marsha P. Johnson, uma travesti preta quem atirou a primeira garrafa e depois disso as coisas aconteceram. Durante dias, as pessoas apoiaram as manifestações LGBTQIA+, que foram crescendo, e hoje comemoramos o 28 de junho em menção a esta luta. Só que as duas travestis, uma preta e uma hispânica, já no segundo ano foram excluídas da participação no movimento hegemônico.  Já não prestavam mais.

Essa história que contei aí em cima pode ser vista no “Sylvia Rivera”, ou na Netflix no documentário “A morte e a vida de Marsha P. Johnson”. E por que é importante falar disso nesse momento? Porque para além do movimento LGBTQIA+ ser uma coisa que conheço, como travesti preta que sou, percebo nesse momento uma movimentação muito parecida acontecendo.

É muito difícil para uma pessoa possuidora de privilégios se reconhecer como tal.  Entendendo que o nosso país tem uma dívida brutal com pessoas pretas, principalmente porque a gente não discute o caso, acredito que agora, como nos EUA, seja a hora de não cometermos os mesmos erros que cometeram com Marsha e Sylvia. Debater e combater o racismo é urgente, não dá mais para se aproveitar da luta antirracista, repetindo a história da escravidão dos corpos negros somente para depois invisibilizá-los. O momento é de todos e todas nos unirmos, sim, em torno da causa preta,  mas não capturá-la, descartando depois essas pessoas. Só assim, somente nesse momento veremos todas as vidas pretas importando.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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