Tópicos em alta: novembro azul / enem / Mercedes-Benz / bolsonaro / polícia

Plano de voo

Por Júlia Pessôa

06/10/2019 às 07h00 - Atualizada 04/10/2019 às 16h16

É bom ter os pés no chão, mas melhor ainda é ter a certeza de que eles não são de chumbo, não nos prendem ou estacionam. É bom estar em movimento, e é bom poder ver as coisas em perspectiva também. Essa semana tive a experiência de fazer um voo panorâmico sobre a Juiz de Fora que meus pés tocam diariamente há 16 anos. Da pequena janelinha do avião, vi as pessoas diminuindo, as casas, os carros, as árvores, a cidade, tudo. Ao longe, a vida tão gigante e corrida que levamos aqui no térreo parecia um conjunto de brinquedos, pecinhas que a gente pode movimentar a nosso bel prazer e não obstáculos de que a gente desvia enquanto os ponteiros vão girando acelerados. Do alto até o tempo se apequena, assim como as certezas: é uma casa ou uma escolinha? Aqueles pontinhos são pessoas mesmo? Aquela é a Rio Branco? Tudo que a gente vê com clareza e tão grande se torna minúsculo, difícil de distinguir, desfocado.

O conteúdo continua após o anúncio

No enfileirar das horas, acabamos nos esquecendo de fazer planos de voo metafóricos e enxergar a vida do alto, com outro olhar, outra perspectiva. É claro que quando voamos – literal e metaforicamente – carregamos os problemas na bagagem, não raramente pagando excesso por ela (ainda mais no Brasil atual). As atribulações da vida não desaparecem quando nos afastamos dela, mas isso não significa que não podemos olhar para elas de outo ângulo, um talvez menos ameaçador do que quando estamos exatamente diante delas, que se tornam gigantes. Talvez a decolagem faça a gente ver que nem tudo é grande como parece à primeira vista, e na melhor das hipóteses, a gente chega quase a não ver.

Pessimistas mencionarão desastres aéreos, dirão que voos caem e que “avião não foi feito para ficar no ar”. Eu me atenho a fatos e é muito mais raro se acidentar voando do que no trânsito que enfrentamos todos os dias, bem aqui no chão. Gosto de ter essa suspeita de que a gente sempre pode ver as coisas de um jeito diferente quando voa. Não quero certezas e pés fincados no chão. Não saber é também movimento. Que a gente sempre possa decolar, sabendo que tem onde pousar. Na aviação da vida cotidiana, ao contrário da regida pela Anac, hão há intempérie ou imprevisto verdadeiramente ameaçador. Basta ter um bom plano de voo.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia