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Uma nova era

Por Júlia Pessôa

06/01/2019 às 07h00 - Atualizada 05/01/2019 às 15h48

É claro que não vai haver uma polícia fashionista inspecionando o que meninos e meninas estão usando, rosa ou azul. Também óbvia é a constatação de que aberrações discursivas como esta, de fácil compreensão e igualmente fácil percepção de seu absurdo servem para que a gente se indigne com o “menor dos males”, enquanto bombas muito piores são detonadas diante de nossas fuças.

Em algumas dezenas de horas, canetadas “invisíveis” foram construindo, de fato, uma “nova era” para o Brasil. Fizeram com que o salário mínimo se tornasse menor do que o previsto; está morto o menino Ministério da Cultura (e o do Trabalho, e o das Cidades e o da Integração Racial); as pautas LGBTTI+ foram excluídas das políticas de direitos humanos; o MEC foi sucateado (claro, para se tornar mais excludente); o armamento está cafungando nossos cangotes; demissões sumárias de servidores que se manifesta(ra)m contra o Governo foram anunciadas; o fedor de Reforma da Previdência contaminou o ar e muitos outros massacres aceleraram nossa caminhada em marcha-ré. Enquanto isso, a gente se revoltava com a infeliz fala da ministra: “meninos vestem azul, meninas vestem rosa”.

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Não que a declaração seja risível por si só (mas dá vontade, eu sei) ou que não tenha um peso real no que diz respeito às concepções de gênero. Por trás do que há de estapafúrdio no discurso, existe o reforço de estereótipos que contribuem para um abismo de desigualdade. Que faz com que sejamos o quinto país em feminicídio no mundo. O país que mais mata pessoas LGBTTI+. O país em que nada acontece com um homem que espanca uma mulher em um vídeo: “não há provas contundentes”. Atrás da fachada de se dizer que rosa e azul são atribuídos a gêneros específicos, há a violação e desvalorização de tudo que é feminino como frágil, menor, menos importante, atacável. E a qualquer uma ou um que fuja ao que é socialmente aceito pelo “cidadão de bem” como sendo “de homem” ou “de mulher”, é porrada. A ministra não está falando bobagem. Está dando um preview de anos de desigualdade de gênero institucionalizada.

Mais uma vez, repito o refrão sobre a necessidade de estarmos atentas, atentos e fortes. Há meninos e meninas que ficarão sem ter o que vestir, independentemente da cor. Sem ter o que comer, sem chance de estudar. Sem qualquer possibilidade de acessibilidade, caso tenham alguma deficiência. Há outros e outras que, pelo simples fato de existirem como existem, correm o risco de sofrer violência – ou de deixar de existir. Há muito que se lamentar, se preocupar e resistir com os prognósticos para o Brasil. E quando estiver dando tudo errado, nem poderemos devolver o país aos índios, que, sem terras demarcadas, estão cada vez mais com os dias contados. Welcome à nova era (com aval previsível de Donald Trump).

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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