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E o chão de fábrica?

Por Gabriel Ferreira Borges

31/03/2020 às 07h15 - Atualizada 30/03/2020 às 22h07

Diante da paralisação do calendário face à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) está no bico do anu, como dizem por essas bandas de cá. Não me interessa discutir neste momento se os campeonatos serão espremidos até dezembro ou alargados até maio de 2021. Tampouco se os clubes profissionais reduzirão os vencimentos dos jogadores ou deixarão de quitar os direitos de imagem. Ainda que estes impasses logicamente pautem as principais discussões em vigor, há de se cobrar da CBF e das federações filiadas quais medidas de contingência são planejadas para o Galvez (AC), o Moto Club (MA), o Frei Paulistano (SE), o São Luiz (RS) e, sim, o Tupynambás.

Aliás, poderíamos esticar a corda sem rodeios e chegar às divisões inferiores dos estaduais. Desde o Salles Oliveira ao Elias Arbex, do meu saudoso Atlético de Três Corações. O grosso do futebol brasileiro entra em campo de janeiro a abril. Sobrevive de bilheteria, patrocínios em permuta e salários longe do mínimo. Os contratos milionários de direitos televisivos, patrocínio e fornecimento de materiais esportivos são restritos à oligarquia futebolística. Afinal, como reprodução da sociedade cuspida e escarrada que é, no futebol os pobres cada vez ficam mais pobres. A retomada do futebol brasileiro passa diretamente por subsídios aos clubes pequenos e, consequentemente, seus jogadores.

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Ninguém tem dúvidas de que Everton Ribeiro colocará comida na mesa daqui a 20 dias. Também ninguém tem dúvidas de que César, do Santarritense, do terceiro escalão mineiro, não colocará comida na mesa daqui a 20 dias. A não ser que arrume um bico. Mas César, mesmo com “histórico de atleta”, precisa ficar em casa para garantir a saúde quando voltar à labuta diária. Não há mais partidas na várzea. Lá, pelo menos, ele tirava os seus R$ 50 por jogo. Ou, no pior dos casos, mantinha a forma física. Talvez César dê sorte ao trabalhar como servente de pedreiro na construção civil ou quebrar um galho fazendo serviços gerais domésticos. Apesar de César integrar um grupo que é maioria na desigual pirâmide do futebol brasileiro, tanto a CBF quanto a Federação Mineira de Futebol (FMF) não se interessam por ele.

Quando a CBF está inclinada a manter as datas dos estaduais por pressão das federações diretamente interessadas nas alíquotas ganhas por partida, os jogadores estão preocupados com os contratos cujo fim se avizinha. As agremiações não têm dinheiro para estendê-los por um, dois meses, para que os torneios sejam concluídos. Por outro lado, mal têm dinheiro para honrá-los até abril. Depois de 15 dias da paralisação do calendário, o chão de fábrica do futebol não tem acordo coletivo de trabalho algum. Não há esboço de proposta, muito menos esboço de esperança. A CBF está com as calças nas mãos, mas ela própria esqueceu de colocar o cinto. A quebradeira dos clubes pequenos entregará ao desalentado mercado um sem número de desempregados ou trabalhadores informais.

Gabriel Ferreira Borges

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