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Uma prece canalha

Por Gabriel Ferreira Borges

26/11/2019 às 07h04 - Atualizada 26/11/2019 às 07h05

São Judas Tadeu é o santo das causas perdidas. Quando criança, ganhei um livreto, capa brochura, rosa, mas, por alguma razão, encadernado. Tinha orações de todos os santos. Um por um. Presente de minha avó paterna, Dona Magda, lembrei dele no sábado. Pela primeira vez, arrependi-me por não ter lhe trazido de Três Corações para Juiz de Fora. De supetão, resolvi que, de um jeito ou outro, deveria rezar para São Judas Tadeu. Sem argumento algum, concentrei-me, de olhos fechados, em uma prece bem canalha. O desejo era único, pois não havia muito crédito na praça. Que, em Lima, Peru, São Judas Tadeu iluminasse qualquer sujeito trajado de rubro-negro. Em campo, mas, também, fora dele. Sem contrapartida alguma, a princípio. Aos desavisados, o santo é padroeiro, não por acaso, do Clube de Regatas do Flamengo.

Não alimento qualquer fé, ainda que seja crismado e tenha me compromissado em bons anos de catequese. Cismado, temporariamente, meu pai, Alexandre, reclama de minha heresia. Não havia momento melhor, pois. Passados poucos segundos – não havia muito o que elaborar, por certo -, fiz o clássico “sinal da cruz” por três vezes e dei a primeira bicada no copo americano de cerveja. Logicamente, estava sozinho. Não teria a desfaçatez para este ritual sem-vergonha junto à companhia de amigos. Acendi a primeira palha e, tremendo, aguardei o início da peleja entre Flamengo e River Plate. Digo que todo o otimismo até ali alimentado esvaiu-se nos dez primeiros minutos.

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Apesar de resguardar todo o favoritismo aos comandados de Marcelo “Muñeco” Gallardo, estava confiante. Foge ao meu espírito o perfil rubro-negro caricato; cresci longe do Rio de Janeiro acostumado às brigas contra o descenso para o segundo escalão do futebol brasileiro. Quaisquer boas campanhas eram arrancadas cruelmente desesperadas. Em outros termos, cativei um ceticismo típico aos botafoguenses. A irritante euforia característica à torcida do Flamengo foi reprimida por elencos desesperadores. Os torturantes 45 minutos iniciais, mais um fundo de garrafa já quente, levaram-me além. Apenas suplicar alguma ajuda a São Judas Tadeu seria insuficiente. Algo em troca certamente deveria ser prometido. Pois bem, se, de alguma maneira, àquela altura improvável em razão de como o time fora subjugado, o Flamengo deixasse o Monumental de Lima campeão, iria à missa.

Tive a ideia no banheiro, bem da verdade. Mas a contrapartida era extremamente plausível. Afinal, à missa não vou desde a tradicional celebração para findar o ensino médio. Assisti aos 45 minutos finais em pé. Naquela altura, duas outras palhas já haviam sido queimadas. Havia duas ainda para queimar. Sentava, levantava. Sentava. Levantava. Dez minutos por faltar, colei uma cadeira em frente à televisão. Sem camisa já estava há um bom tempo. De três anos atrás, estava demasiadamente apertada para um sujeito tomado pela ansiedade. Mas, no último suspiro de Maria Goretti, cansado de tanta prece mambembe como a por mim feita, São Judas Tadeu, enervado, intercedeu, por um bando de infiéis, em Gabriel Barbosa. E, aparentemente, faltará hóstia na Igreja do santo, no Bairro Furtado de Menezes.

Gabriel Ferreira Borges

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