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Restará apenas a ressaca

Por Gabriel Ferreira Borges

17/03/2020 às 07h14 - Atualizada 16/03/2020 às 21h48

De antemão, lhe adianto, caro leitor: se buscou esta seção belchioriana em meio a tantas colunas a fim de fugir de quaisquer repercussões do coronavírus (Covid-19) certamente terminará esta leitura desgostoso. Se é que a termine, diga-se. Mas saiba que compartilho desta amargura. Assisti ao jogo do Clube de Regatas do Flamengo neste fim de semana pesaroso. Apesar da situação de pandemia, não serei hipócrita: é angustiante a ausência de qualquer mísero jogo no meu televisor. Mas veja, caro leitor, sem precipitações, por favor. Em momento algum discuto a suspensão dos campeonatos. É só que a vida já está suficientemente agoniante para suportá-la sem diurético algum. Do Palácio do Planalto ao das Laranjeiras, a gente cerra os dentes.

O presidente da República, com toda a desfaçatez que lhe é característica, defendeu, neste domingo (15) o acesso parcial a jogos de futebol, porque, no seu limitado entender, “não vai conter a expansão (do coronavírus) desta forma muito rígida”. Por isso, talvez, o presidente, após conviver alguns dias, nos Estados Unidos, com membros da sua alta cúpula que testaram positivo para Covid-19 – dos 234 casos no Brasil, 14 são da comitiva -, tenha mantido contato com mais de 200 fiéis eleitores às portas do Planalto. Só uma moelinha e uma cervejinha para me benzer das lorotas palacianas. Mas o que assistir, caro leitor? Como será a noite de quarta? Ou a noite de sábado? Embora esteja mais do que acostumado ao azar que a vida lhe impôs, o alvinegro pouco viu de Honda. E como voltará Nenê, amigo tricolor? Sorte apenas a do vascaíno ao deixar de ver Abel Braga na casamata de São Januário.

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Como bem sabe, caro leitor, o governador do Rio de Janeiro tem uma inveja inexplicável do presidente da República. Aliás, não nega a ninguém, é candidato ao Planalto desde quanto tomara posse no estado. Ao ser questionado sobre a realização de jogos do Carioca neste fim de semana, Witzel foi sucinto. “O entendimento é que com portões fechados não tem aglomeração. O contato entre os jogadores, aí o risco é deles.” Bem da verdade, empatia não é o forte destes homens de meia-idade. O beque Leandro Castán, preciso, apenas o ironizou. Só uma língua de boi e uma cervejinha para me alienar deste universo paralelo mambembe em que nos encontramos. Mas o que assistir, caro leitor?

Restará apenas a ressaca. E, como alerta o indescritível Xico Sá, “a beleza das grandes ressacas é que seus espasmos podem coincidir com os sintomas de todas as doenças e dores do mundo, d’onde se conclui que um grande bebedor já sobreviveu a todas as pestes do universo”. Sem futebol, restará apenas a ressaca como remédio para o desgoverno e para a pandemia. Se sóbrios todos já estão angustiados, por que não embriagados? Em quarentena, caro amigo, claro. Mas, importante: sem estoque em casa e fiel às etiquetas de higienização.

Gabriel Ferreira Borges

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