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Altair e o Mal de Alzheimer

Por Gabriel Ferreira Borges

13/08/2019 às 07h00 - Atualizada 13/08/2019 às 07h02

Por fim, os últimos anos de Altair, 81, deram-lhe apenas a crença de que haveria de marcar Mané Garrincha a qualquer momento. Mais os cuidados de Eluana e a amizade de Jair Marinho. Por sorte, José, 79, a algumas montanhas de distância, tinha Magda, Alexandre, Alda Isa e Andrea ao lado. Na memória deste, no entanto, restaram as obrigações como alveneiro e narrações de Jorge Curi. Ambos sempre souberam quem foram. Porém, esqueceram quem são e perderam o rumo a seguir, pois buscavam, somente, o passado.

Altair Gomes de Figueiredo foi-se, na última sexta-feira (9), em São Gonçalo (RJ), como o quarto jogador com o maior número de partidas disputadas pelo Fluminense, com 551 – entre os vivos, era o primeiro. Somente Castilho, Pinheiro e Telê Santana envergaram mais vezes a camisa tricolor. Há quem diga que Fiapo fora o melhor lateral-esquerdo já visto nas Laranjeiras; perguntaria certamente a José Borges, embora só o rádio pudesse escutar – corre a estória de que, a cada derrota do Flamengo, um novo rádio era comprado, pois o anterior sempre era arremessado contra a parede mais próxima. Aliás, Altair e José não partilhavam da mesma paixão; enquanto o lateral-esquerdo era tricolor, o pedreiro era rubro-negro.

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Em 1962, entretanto, José, aos 29, torceu por Altair no Mundial do Chile. Fiapo então compunha o escrete canarinho como opção a Nilton Santos. Altair, por fim, seria campeão do mundo, ao lado do amigo Jair Marinho – também reserva, mas de Djalma Santos. Pois Jair Marinho, como contou Sérgio Rangel, foi o único amigo e companheiro de 1962 a comparecer no velório de Altair, em Niterói (RJ), além de 17 outras pessoas. Antes da evolução do Mal de Alzheimer, Fiapo perdera a esposa e a única filha. As lembranças limitadas às glórias acabaram por calhar como fuga menos dolorosa à realidade, afinal.

Entretanto, o caráter solitário da doença denuncia a sua própria perversão. Ao passo que Altair viveu consigo mesmo os últimos anos como campeão do mundo em vias de concentrar para o confronto mais próximo no Maracanã, o futebol o esqueceu nos tempos em que a torcida tricolor orgulhava-se do pó de arroz. Altair, já desfalecido pela própria memória, teve, ainda, a biografia preterida ao fim da vida. Não conheci Fiapo pessoalmente, tampouco o vi jogar. Mas, como de meu avô, José, de Altair foi tirado o presente. O velório de José, ao menos, teve mais de 18 pessoas.

Gabriel Ferreira Borges

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