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O torcedor não é bandido

Por Gabriel Ferreira Borges

10/12/2019 às 07h13 - Atualizada 09/12/2019 às 20h27

Embora vítima de uma cruzada pela elitização, o futebol mantém o título de modalidade mais popular e, enquanto tal, é, arduamente, criminalizado. Reações como a de torcedores no Mineirão, no domingo (8), diante da iminência de rebaixamento do Cruzeiro para a Série B do Campeonato Brasileiro, retomam um discurso de criminalização comum à memória da crônica esportiva. Alijados da oligárquica estrutura societária dos clubes, os torcedores, sobretudo os organizados, são fichados como vagabundos; por vezes, animais. Como se incapazes de mero arroubo racional fossem diante de algo tão trivial como o futebol. No entanto, a criminalização é apenas um sintoma de uma cultura intrinsecamente punitivista, mas somente a infratores cuja identidade é anônima, mas, a classe, não.

Não se trata, aqui, de uma defesa a atos violentos protagonizados por torcedores. Trata-se, simplesmente, de refutar discursos rasos e, portanto, negligentes sobre algo tão caro ao futebol como a cultura de arquibancada. A criminalização, por si só, é alimentada por uma incompreensão estruturalmente elitista. De cronistas, por exemplo, que se recusam a atestar recortes de classe e raça; a compreender a violência cultural e simbólica às quais as torcidas organizadas são, historicamente, submetidas. Há quem os descaracterize, inclusive, enquanto sujeitos: “Não são torcedores, são vândalos”.

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Ao passo que os torcedores são criminalizados com garbo e esmero, cartolas, confederações e forças de segurança são tratados com a complacência destinada à aristocracia desde seu berço. Por terem rostos, talvez. Não bastasse os torcedores serem afastados de quaisquer meios de participação democrática em seus clubes, também são, há algum tempo, assolados por um ferrenho processo de elitização, cujo objetivo final é afastá-los das embranquecidas “arenas” e doutrinar seus corpos, suas manifestações e suas expressões.

A elitização visa a, exclusivamente, mercantilizar qualquer tipo de afeto criado entre torcedores e clubes. Desde o horário dos jogos em dias úteis, sem estrutura alguma de transporte público para suportá-lo, a ingressos a preços abusivos. Da transformação de estádios, outrora com setores democráticos – como as gerais -, a arenas sem identidade alguma, similares a franquias de fast food. Até instrumentos musicais e bandeiras são vedados, diga-se. Quando não são os torcedores violentados pelas polícias militares. Os tecnocratas, agora, clamam por torcida única nos estádios, por fim, apenas mais um mecanismo de repressão. Se o futebol é arena de manifestações agressivas em razão de sua natureza catártica, o avanço elitista deve, necessariamente, ser apontado como causa. O futebol está nas cordas.

Gabriel Ferreira Borges

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