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O vascaíno quer o Vasco

Por Gabriel Ferreira Borges

03/12/2019 às 07h10 - Atualizada 03/12/2019 às 14h06

Em 1920 e 1921, em meio à política de Estado de branqueamento da população, a Seleção Brasileira foi a campo na Copa América sem quaisquer atletas negros. Como bem atesta Eduardo Galeano, Epitácio Pessoa, presidente à época, baixara um “decreto de brancura”. Para Epitácio, “por razões de prestígio pátrio”, o Brasil não poderia ser representado por quem realmente o constitui. A política racista estendia-se também às ligas regionais. Ante o esporte oligárquico, o Vasco da Gama se insurgiu. Em 1924, recusou-se a disputar o campeonato local, então organizado pela Associação Metropolitana de Esportes Athleticos, depois de ser exigido a excluir 12 atletas negros de seu escrete. Pois 95 anos depois, o clube volta a peitar investidas elitistas no esporte agora consagrado como mais popular.

Desde a segunda-feira passada (25), cruz-maltinos aderem ao quadro de sócios-torcedores do Vasco em razão do desconto de 50% concedido em alguns planos. Se tinha 32 mil associados, o clube de São Januário soma 139 mil até esta terça-feira (3). Evidentemente, a adesão é uma reação de torcedores que reivindicam o direito à glória como os rivais rubro-negros. Mas tampouco se resume a isso. Ainda que despretensiosamente, a promoção assegura aos vascaínos mais pobres a oportunidade de garantir ingressos, e, por consequência, o acesso a São Januário. Carro-chefe da elitização do futebol, o programa de sócio-torcedor é, por natureza, excludente, pois limita a arquibancada a uns com condições de abrir mão de valores que, para outros, custeiam contas de água e luz. Combater a elitização, no Brasil, é, sobretudo, confrontar o racismo.

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Apesar de estimativas iniciais apontarem acréscimo de R$ 1,8 milhão nas receitas mensais, a preocupação do Vasco deve ser garantir os preços promocionais para além do período de seis meses. Em geral, os programas de sócios-torcedores são estruturados pelas agremiações apenas como receitas alternativas a patrocínios, por exemplo. Embora tais programas devessem cumprir a função de democratização dos clubes, isto é, garantir a pluralidade de torcedores nas arquibancadas, tais programas instrumentalizam o torcedor enquanto cliente. Em sua maioria, as “arenas” – outro sintoma do processo de elitização – são invariavelmente brancas, pálidas. A medida do Vasco da Gama deveria ser um ponto de inflexão em meio à iminente aprovação do projeto de clube-empresa, cujo objetivo é, sobretudo, regulamentar a mercantilização da relação entre clubes e torcedores.

Discutir o acesso aos estádios representa debater a democratização do futebol. Da “Resposta Histórica” aos descontos nos planos de sócio-torcedor, o Vasco compromete-se com as inclusões racial e social, ou seja, com a própria história. Com a quinta maior torcida do país, o clube ensina aos mais populares – Palmeiras, São Paulo, Corinthians e Flamengo – como honrar o compromisso com os torcedores que os amam, e, não apenas, os consomem. Por isso, não há estádio mais simbólico do que São Januário. O cruz-maltino, por fim, espera somente que a democratização estenda-se para as estruturas de poder da agremiação, marcada, como quaisquer outras, por diretorias majoritariamente brancas.

Gabriel Ferreira Borges

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