
Fui ao cinema assistir ao filme sobre Michael Jackson, mas saí da sala pensando menos na obra e mais no comportamento de quem estava ao meu redor. Assim que o filme começou, alguém na poltrona ao lado da minha fez uma chamada de vídeo e virou o celular para o lado da tela onde a história se desenrolava. A pessoa queria mostrar a quem recebia sua ligação que ela realmente estava ali. E não parou por aí: ao longo do tempo, o brilho do celular foi insistente. O mesmo se repetia nas outras fileiras, assim como as conversas em tom alto, os gritos e as interrupções constantes.
Em algumas cenas, a maioria do público aplaudia como se fosse o encerramento de um espetáculo, o que dificultava a audição do desenrolar da história que ainda não tinha chegado ao fim. Entendo que seja um filme que mexe com a emoção dos fãs, mas uma sala de exibição não foi feita para esse tipo de reação. Ir ao cinema, hoje, já não é apenas sentar diante do filme e apreciá-lo, é, antes, enfrentar uma espécie de disputa por atenção, respeito e limites.
Não é um caso isolado. Li na imprensa que esse tipo de comportamento é frequente nas salas onde “Michael” tem sido exibido. Porém, isso não tem nada a ver com o longa-metragem que conta a história do Rei do Pop, mas com um sintoma de algo maior: a dificuldade crescente, em nossa sociedade, de reconhecer o outro como presença legítima no espaço público. Não é apenas falta de educação, mas uma espécie de rompimento do pacto coletivo que torna possível a convivência.
Existe uma confusão perigosa entre o que é público e o que é privado. O cinema, como o teatro, a sala de aula, o transporte coletivo ou a fila de um banco, exige um mínimo de autocontenção. Exige que o indivíduo suspenda, pelo menos por duas horas, a lógica do “eu faço o que quero” em nome de uma experiência compartilhada. Quando isso
se perde, o que desaparece não é apenas o silêncio, mas a própria ideia de comunidade.
Em seu livro de ensaios “A casa e a rua”, o antropólogo Roberto DaMatta trata de como os brasileiros encaram essa questão: a oposição entre o espaço público e o privado. Para o privado, a casa, guardamos o afeto, a limpeza e a ordem. Já para a rua, o público, reservamos a indiferença, o lixo e a desorganização. Essa contradição, infelizmente,
tem como consequência a sabotagem do conceito de civilidade. Quem paga o preço por isso é a sociedade como um todo, que sofre pela falta de entendimento de uma regra básica de convivência: “O meu direito termina onde começa o do outro”.
O que é mais preocupante talvez seja justamente a naturalização desse tipo de comportamento. É uma forma lamentável de perceber que a exceção virou regra, e que a civilidade, que preza pela harmonia social, parece estar em declínio. Vivemos em uma época marcada pelo individualismo e pela carência de empatia, e a consequência disso é o desrespeito às regras. Esse cenário acende o sinal de alerta não apenas pelo impacto que tem no presente, mas também pelo que pode representar no futuro. O temor é constatar que, quando a incivilidade se torna habitual, ela deixa de ser percebida como problema e passa a ser parte da paisagem. Nesse ponto, não estamos apenas diante de pessoas mal-educadas, mas de uma cultura que desaprendeu a importância dos limites.
A sala escura do cinema, que deveria ser um espaço de imersão, acaba revelando, de forma quase involuntária, o retrato de uma sociedade dispersa, ansiosa e cada vez menos disposta a considerar o outro. O espanto que mais incomoda é perceber que o desconforto vivido ali, na poltrona do cinema, não é um acidente, mas um reflexo do mundo lá fora.
