
Luiz Carlos Barreto foi um homem de muitas faces para o cinema brasileiro. Com maestria, atuou como fotógrafo, roteirista, diretor, documentarista, produtor, distribuidor e articulador de políticas de fomento ao cinema.
Não consigo lembrar exatamente quando me dei conta de sua existência, mas certamente eu era um adolescente, nos anos 1990, apaixonado pelas produções nacionais. Naquela época, para alguém de 14 ou 15 anos, o acesso aos filmes brasileiros acontecia, sobretudo, por meio da televisão aberta, especialmente nos festivais criados para valorizar a produção nacional.
O nome de Luiz Carlos Barreto aparecia nas chamadas, narradas pelo locutor, informando que o filme tinha sua produção. Isso funcionava como um selo de qualidade, um aviso ao público de que aquela obra merecia ser vista. Com o passar do tempo, aprendi quem era aquele homem e compreendi a importância de seu trabalho para o cinema brasileiro. Percebi que sua assinatura, ao lado da de grandes diretores, estava em muitas das minhas obras favoritas, como “Vidas Secas”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Bye Bye Brasil” e “O Que É Isso, Companheiro?”.
Barretão, como era conhecido, mergulhou de cabeça na sétima arte. Conhecia suas profundezas e, mesmo depois dos 90 anos, não se permitiu parar. À medida que novas tecnologias surgiam, o cearense, nascido em 1928, nunca deixou de adaptar suas obras aos novos tempos, buscando levar seus títulos mais consagrados à alta definição que caracteriza a produção contemporânea.
Sua entrada no cinema aconteceu pela porta do jornalismo. Na revista “O Cruzeiro”, uma das mais prestigiadas de sua época, trabalhou como repórter fotográfico e aprendeu a enxergar o Brasil por meio de suas lentes. Ao cobrir, para a publicação, as filmagens de “Barravento”, de Glauber Rocha, foi enfeitiçado pela magia do cinema e jamais se libertou desse encanto, que acabaria se estendendo também à esposa e aos filhos.
Foi roteirista, ao lado de Roberto Farias, de “O Assalto ao Trem Pagador” (1962). Em seguida, assinou a fotografia de “Vidas Secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos, ajudando a consolidar a estética que marcaria o Cinema Novo, movimento que propunha retratar o Brasil de maneira mais autêntica, dando destaque às questões sociais.
Empreendedor, fundou a Difilm, reunindo diversos cineastas do Cinema Novo e conferindo uma estrutura mais organizada a uma atividade que ainda se desenvolvia de maneira bastante fragmentada. Mais tarde, ao lado da esposa e sócia Lucy Barreto, criou a L.C. Barreto Produções Cinematográficas, que se transformou em uma das mais importantes produtoras do país, com seu nome ligado a dezenas de obras fundamentais da filmografia brasileira.
Em cerca de seis décadas, Barreto acumulou quase 150 trabalhos. Seus filmes contribuíram para que os brasileiros se reconhecessem na tela grande e ajudaram a construir uma representação da identidade nacional.
O Cinema Novo lhe permitiu experimentar novas linguagens e desenvolver um tipo de iluminação até então inédito no cinema brasileiro. Sem filtros, mostrou o céu estourado do sertão nordestino em “Vidas Secas”. Já no cinema com viés mais comercial, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dirigido pelo filho Bruno Barreto, levou mais de dez milhões de espectadores às salas de exibição, marca que só seria superada mais de três décadas depois por “Tropa de Elite 2”.
Barreto ainda levou o Brasil ao Oscar em duas ocasiões com produções dirigidas pelos filhos: “O Quatrilho” (1995), de Fábio Barreto, e “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto. Ambos foram indicados ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Poucos produtores brasileiros conseguiram reunir, ao longo da carreira, sucesso de público e reconhecimento da crítica em festivais nacionais e internacionais.
Além de artista e empreendedor, Luiz Carlos Barreto deixou sua marca entre aqueles que pensavam os caminhos da produção cinematográfica brasileira. Buscou formas de tornar mais viável a realização de filmes e sua chegada ao circuito exibidor. Não esteve imune às críticas, mas tornou-se figura decisiva na formulação de políticas de incentivo ao audiovisual e defendeu, durante toda a vida, um cinema brasileiro forte e autossuficiente.
Aos 98 anos, Barreto morreu na última quarta-feira, dia 22. Sua partida acontece em um momento em que o cinema brasileiro volta a apresentar desafios estruturais e busca caminhos para superá-lo. Sua ausência será sentida nesse processo. Fica a esperança de que os atores políticos envolvidos nesta empreitada se inspirem nos feitos desse grande brasileiro em prol da nossa sétima arte. É certo que não perdemos Luiz Carlos Barreto, ao contrário, ganhamos tudo que ele significou e continuará significando para cultura do Brasil.
