Ícone do site Tribuna de Minas

Dedos de fogo

livro pexels Ahmet Polat
A palavra, dita ou escrita, tem um preço; sem isso, é apenas discurso vazio. (Foto: Pexels/Ahmet Polat)
PUBLICIDADE

“Você tem dedos de fogo e escreve além da conta. Tem que entrar outros textos na página. Hoje, seu limite é de três mil toques.” Foi dessa maneira, recebendo um puxão de orelha da diagramação do jornal, que nasceu o nome desta coluna, que, neste mês, completa sete anos de existência. Ao longo desse período, são 301 textos – contando com este. Bem lá no início das publicações, o texto da coluna era medido com precisão, pois o número de caracteres permitidos havia se tornado uma questão de honra para mim.

Porém, com o passar do tempo, tanto eu quanto a querida Simone Chiconeli, um doce de diagramadora e de pessoa, fomos afrouxando as amarras. Não havia por que manter exatidão no número de letras, porque os temas abordados pela coluna, como a vida, por exemplo, não têm precisão. Assim, ora os textos passaram a ter três mil e quinhentos toques, ora dois mil, quatrocentos e trinta. Mandamos às favas, eu e ela, o rigor do cumprimento estrito de regras e medidas. Todavia, o nome permaneceu como símbolo afetivo daquele momento em que contar caracteres não era preciosismo, mas, sim, uma necessidade técnica sem a qual a página de um jornal impresso não fecha.

PUBLICIDADE

De 2019 até aqui, escrevi sobre vários temas: política, educação, cultura e coisas da vida. Acho que, sem sombra de dúvida, o período da pandemia de Covid-19 foi o mais duro, porque eu estava confinado em casa, e isso impactou minha maneira de escrever. A inspiração para os temas da coluna sempre vinha da rua, das andanças que fazia, das pessoas com quem conversava e das entrevistas que realizava como repórter. De repente, não havia mais isso, e nosso contato com o mundo passou a acontecer por meio da televisão e do celular. Foi difícil escrever sobre esperança enquanto o Brasil atravessava uma de suas fases mais tenebrosas: negacionismo, desorganização de políticas públicas, impactos socioeconômicos profundos, mortes diárias e a perda de cerca de 700 mil pessoas ao final da crise sanitária.

O saldo que fica depois de sete anos é a crença no poder da palavra. Apesar de todo o poderio da imagem, nesta era digital, que insiste em nos fazer acreditar no esvaziamento das palavras, a palavra é ferramenta, é voz, é corpo. Para a jornalista Eliane Brum, a quem admiro e já citei inúmeras vezes neste espaço, a palavra tem a capacidade de dar protagonismo àqueles que foram historicamente jogados à margem. Em um texto de 2017, no qual reflete sobre o Brasil desassombrado por palavras-fantasmas, ela argumenta que, se as palavras ficaram vazias, é preciso voltar a encarná-las. Ao longo desses anos, termos como “democracia”, “empatia”, “violência” e “pobreza” foram repetidos à exaustão, muitas vezes por gente que não vive nem se aproxima do que diz.

Assim, concordo com Eliane Brum: encarnar a palavra é devolver a ela densidade, realidade, consequência. Em ano eleitoral, as palavras têm grande poder, e é preciso lembrar que quem as diz precisa se comprometer com o que elas significam. Nesta coluna de aniversário, a reflexão que fica é a de que a palavra, dita ou escrita, tem um preço; sem isso, é apenas discurso vazio. Para terminar, registro que este texto somou 3.203 toques e deixo um abraço carinhoso para a Simone! 

 

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile