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Mesmo que nenhuma câmera esteja ligada

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Talvez o que o livro queira nos dizer é que fazer o mal é muito fácil, principalmente se não houver vigilância. O difícil é fazer o bem, porque, para fazê-lo, é preciso algum tipo de preocupação genuína com a vida alheia, algo que se faz sem esperar recompensa (Foto: Reprodução)
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Praticar o bem quando ninguém estiver olhando talvez seja um dos maiores desafios do nosso tempo. Se quase tudo, hoje, pode ser transformado em conteúdo para ser capitalizado nas redes, fazer uma boa ação sem registrá-la parece contrariar a lógica desta época regida por atos performáticos. Afinal, de que serviria um gesto de bondade que não rendesse engajamento? Ainda assim, são justamente os gestos praticados longe das câmeras os que melhor revelam aquilo que ainda preservamos de nossa humanidade. São eles que nos impedem de ter uma visão completamente pessimista da condição humana. Estou trazendo este tema à discussão porque acabei de reler o livro “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, que continua muito atual após mais de três décadas do seu lançamento. No romance, uma epidemia faz com que praticamente toda a população perca a visão. Apenas uma mulher permanece enxergando.

Em vez de revelar sua condição, ela escolhe fingir-se cega para continuar ao lado dos demais e ajudá-los. Entre tantas camadas de reflexão que a obra é capaz de suscitar, a postura dessa personagem, que considero a verdadeira protagonista, merece especial atenção. Em meio à “treva branca”, como Saramago denomina a cegueira, ela procura alimentos, organiza sua distribuição, cuida da higiene, protege os mais vulneráveis e toma decisões pensando no coletivo. Tudo isso sem esperar qualquer possibilidade de aplauso. Ela se torna uma luz de esperança em uma sociedade que, ao perder a visão, parece também perder a capacidade de sentir empatia. 

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A cegueira que atinge aquelas pessoas não é apenas física, uma vez que traz à tona o egoísmo, a indiferença, a violência e a erosão dos valores morais. Cientes da falta do olhar alheio, as pessoas deixaram de ter vergonha de suas maldades e baixezas, algo que nos lembra demais o ambiente das redes sociais em 2026, onde a sensação de impunidade favorece a incivilidade. Em um primeiro momento, isso leva o leitor a pensar que o ser humano só permanece bom porque tem sua conduta vigiada. Saramago constrói, assim, um cenário próximo da distopia, em que a dignidade humana parece chegar ao limite de sua degradação. A frase extraída do romance, “É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”, parece querer demonstrar esse lado sombrio do ser humano. Talvez o que o livro queira nos dizer é que fazer o mal é muito fácil, principalmente se não houver vigilância. O difícil é fazer o bem, porque, para fazê-lo, é preciso algum tipo de preocupação genuína com a vida alheia, algo que se faz sem esperar recompensa.

Diante dessas questões, é impossível não lembrar do período da pandemia de Covid-19. Naquela época, muita gente optou pela cegueira, preferindo não enxergar as fragilidades das outras pessoas. A cada rolagem de tela surgiam novas demonstrações de desprezo pela dor alheia em várias partes do país, inclusive sendo cometidas por autoridades, cuja responsabilidade era adotar medidas para frear as mazelas provocadas pelo vírus. Mas é claro que a pandemia também revelou inúmeras manifestações de solidariedade: profissionais de saúde, voluntários, campanhas de doação, pessoas cuidando de vizinhos e desconhecidos. 

Essa realidade também se aproxima da história do romance e fica mais evidente ao longo da narrativa. No livro de Saramago, a mulher que ainda mantém a visão, junto do grupo que a acompanha, mostra que, apesar de todo o caos ao redor, é possível manter a dignidade humana, mesmo que ninguém esteja olhando. Dessa forma, ler essa obra de Saramago é como usar uma lente para enxergar os dias de hoje, em que, apesar do colapso moral e da perda de modelos de empatia, ainda existem pessoas que escolhem cuidar umas das outras, mesmo que nenhuma câmera esteja ligada.

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