Fui convidado para falar a respeito do meu processo de escrita e sobre como ela ocupa espaço na minha vida. Confesso que, primeiramente, senti um frio na barriga, porque não sou uma pessoa da fala. Considero-me tímido e, apesar de fazer teatro e dar aulas, costumo dizer que sou mais das letras. Passado o susto inicial, sofrido como consequência do convite, resolvi aceitar. Compromisso firmado, surgiu outra questão: como fazer da minha intervenção uma fala que não fosse maçante e não se parecesse com a leitura de um manual de redação?
Lembrei-me de que, já há algum tempo, a gentileza tem sido um tema que sempre volta aos meus textos. Às vezes, de forma direta, outras, nem tanto. Sempre à espreita, deixando-se aparecer nas entrelinhas.
Imagino que todas as pessoas que lidam com a escrita precisem se preocupar com o peso das palavras. Ainda mais num tempo em que, na internet, os textos costumam aparecer sem filtros. O espaço para comentários nas redes sociais transformou-se no lugar preferido daqueles que gostam de proferir grosserias, preconceitos e ofensas. Dessa forma, é preciso ter responsabilidade para com a escrita, porque escrever também é pensar no impacto que as palavras provocam nos outros. Quando se tem essa consciência, o que escrevemos também se transforma em um ato de gentileza.
Porque a escrita é algo que precisa da leitura para se concretizar. Ela não existe plenamente sem o encontro entre quem escreve e quem lê. Se o propósito, ao redigir, é buscar compreensão ou despertar uma reflexão, as palavras deixam de ser apenas um meio de comunicação e podem se tornar um gesto de gentileza. Mais do que informar, escrever é oferecer ao outro uma nova maneira de enxergar a vida, as pessoas e o cotidiano. Claro que é preciso ressaltar que ter esse cuidado não significa apenas escrever coisas agradáveis, mas saber que o outro pode ser provocado sem ser desrespeitado.
Quando pensava sobre a escrita como ato de gentileza, lembrei-me da fabulosa jornalista Eliane Brum que, ao revelar a vida invisível, no seu livro “A vida que ninguém vê”, explorou silêncios, dores e grandezas cotidianas que costumam ser ignoradas pelo jornalismo dos grandes veículos de comunicação. A repórter, por meio de seu olhar sensível, escreve de forma gentil, até quando se refere às mazelas sociais, para mostrar-nos a significância dos pequenos gestos. Como podem ser transformadores um olhar atento ou uma palavra de afago em dia nebuloso na vida de alguém. São gestos banais, à primeira vista, mas que podem salvar o nosso dia. “O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis”, afirma Eliane na frase que abre o livro mencionado acima.
Assim, penso que a escrita também pode se aproximar desse gesto de atenção, sendo usada para ressaltar a importância de olhar para o cotidiano com novas lentes, reconhecendo nos pequenos detalhes possibilidades de, se não salvar o mundo, pelo menos salvar o nosso dia ou o de quem está ao nosso lado.
Foi pensando na escrita e na sua relação com o outro que consegui refletir sobre a gentileza como um dos fios condutores dos meus textos. Talvez seja justamente aí que a escrita encontre uma de suas possibilidades mais bonitas: não apenas dizer algo ao outro, mas oferecer-lhe um modo diferente de olhar.
Foi falando sobre essas reflexões que fiz a palestra, realizada na última terça-feira, a convite do Centro de Ação Cultural (CAC). Espero que, de alguma maneira, a conversa tenha provocado nos presentes o mesmo movimento que a escrita provoca em mim: olhar para o que parece banal e descobrir, nas coisas aparentemente insignificantes, algo que mereça atenção.
