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Nova presidente da Academia Juiz-forana de Letras, Cecy Barbosa Campos faz planos para sua gestão

Por Marisa Loures

31/03/2020 às 17h05 - Atualizada 01/04/2020 às 08h34

Professora e escritora, Cecy Barbosa Campos tomou posse na Academia Juiz-forana de Letras no dia 1º de março – Foto Divulgação

Desde o dia 1º de março, a escritora Cecy Barbosa Campos é a nova presidente da Academia Juiz-forana de Letras, instituição fundada em 22 de dezembro de 1982. Por conta do isolamento dos últimos dias, uma reunião extraordinária que ocorreria neste mês foi suspensa, mas Cecy já faz planos para o ano. Muitos, inclusive eu, têm curiosidade de saber o que fazem os imortais quando se reúnem. Quais são as atividades desenvolvidas pela Academia? Como é o processo de escolha dos acadêmicos? Esse é o assunto central desta nossa conversa.

Falaremos, ainda, sobre livros, retrocesso nas artes, literatura de autoria feminina e, claro, sobre a formação literária de Cecy. Descobri que ela sempre foi incentivada pelos pais a ter amor pelos livros, o que justifica sua vocação literária e seu engajamento (Chega a 28 o número de instituições culturais e academias às quais ela é vinculada). Desinibida, ainda garotinha, estudante do 3º primário, foi apresentada aos leitores do antigo Diário Mercantil como Uma poetisa de Oito Anos. Aos 17, entrou para a faculdade de Direito. Depois, fez um curso de inglês e foi fisgada pelo magistério, decidindo formar-se em Letras. Atuou na docência por mais de 40 anos, tendo passado pelos cursos de graduação e pós-graduação do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora e da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Hoje, dedica-se a ministrar palestras e cursos livres não só aqui, mas em outras cidades, e a escrever. Publica poesias, aldravias, contos, crônicas, ensaios e por aí vai. Já participou de mais de uma centena de antologias, e livros de sua autoria são vários, entre eles, “Versos perplexos” (poesias, 2019), (2019), “Respingos poéticos” (aldravias em Braille, 2019), “Visões do cotidiano” (contos e crônicas, 2016) e “Redoma de aldravias” (2017). “Não vivemos em um país com grande tradição de leitores, basta verificar o número de bibliotecas e livrarias. Apesar desse contexto, me sinto reconhecida, o que se confirma pelos diversos prêmios. É claro que uma obra literária para fazer sentido precisa ser reativada pelo leitor, caso contrário seria apenas um amontoado de signos e malabarismos linguísticos. Por outro lado, o autor, no momento da criação, pelo menos no meu caso, não tem essa questão como foco central.”

Marisa Loures – Você escreve contos, crônicas, poesias, aldravias, etc. Em qual gênero sente-se mais à vontade? Acredita que tenha escrito sua melhor obra?

Cecy Barbosa Campos – Gosto de escrever prosa e poesia. Também textos críticos, ensaios. Tenho várias premiações em concursos literários da União Brasileira de Escritores e da Associação Brasileira de Médicos Escritores na categoria Ensaio. Quanto às aldravias, o que mais me agrada nesta modalidade é sua capacidade de atrair crianças e adolescentes que, usualmente, encaram a poesia com receio, achando-a difícil, mas têm a sensibilidade desperta pela aparente simplicidade dessa forma poética. A Aldravia foi criada por poetas de Mariana-MG : José Benedito Donadon-Leal, Deia Leal, Gabriel Bicalho e J. S. Ferreira. O primeiro livro de aldravias infantis publicado no Brasil é o meu “Animais encantados na Poesia” e o primeiro livro de aldravias com transcrição em Braille é o meu “Respingos Poéticos”, publicado em 2019 especialmente para doação a instituições que se dedicam a deficientes visuais. Se eu acredito que eu tenha escrito a minha melhor obra? Felizmente não! Isto seria um entrave ao meu aprimoramento.

– Enquanto dava aulas na UFJF e no CES, suas publicações eram apenas acadêmicas. Depois que deixou as duas instituições, começou a publicar literatura. A academia, de certa forma, é cerceadora, isto é, dificulta a criação literária?

Não acho que seja cerceadora. Gosto muito da pesquisa literária, esse viés vinha ao encontro ao meu desempenho profissional e me concentrei nele. Mas sempre gostei de escrever, sobretudo, poesia. O que aconteceu foi que essas produções ficavam engavetadas ou iam para o lixo. Em 2004, li sobre um concurso literário da Academia Chapecoense de Letras. Enviei uma crônica que tirou o 4º lugar. Depois comecei a participar de outros concursos e me entusiasmei com os resultados e com os convites que começaram a surgir.

“Considero o termo (literatura feminina) equivocado, a literatura lida com o humano, não representa um gênero. Podemos pensar em literatura de autoria feminina. O que é bem diferente. Clarice Lispector dizia: ‘Quando escrevo, não sou homem nem mulher. Sou homem e mulher'”.

– Além de escritora, também atua fazendo palestras. Nessas suas andanças, refletiu sobre a poesia de Conceição Evaristo, vozes femininas da Literatura-afro-brasileira e Literatura de autoria feminina. Há quem discorde do termo literatura feminina. Como vê esse termo? É certo falar em literatura feminina?

Considero o termo equivocado, a literatura lida com o humano, não representa um gênero. Podemos pensar em literatura de autoria feminina. O que é bem diferente. Clarice Lispector dizia: “Quando escrevo, não sou homem nem mulher. Sou homem e mulher”.  Vale lembrar os títulos de algumas de minhas palestras que você mencionou: “Vozes femininas na Literatura Afro-brasileira” ou “A literatura de autoria feminina”, ou seja, literatura feminina não é uma categoria que considero pertinente.

“Considero, entretanto, que toda censura é absurda e que, infelizmente, o que ocorreu em Rondônia não é um fato isolado, mas faz parte de um projeto de cerceamento não apenas da literatura, mas das artes em geral, como aconteceu, por exemplo, com o desmonte da exposição Queermuseu em Porto Alegre no ano passado. É bastante triste acompanhar esses retrocessos impostos por discursos de falsos moralistas.”

– Recentemente vimos circular uma lista de livros que seriam proibidos em Rondônia, incluindo os clássicos. Esse ato foi visto como um reflexo do avanço do conservadorismo no Brasil. Como professora e escritora, o que sentiu quando soube dessa notícia? Sentiu medo dos prejuízos que isso poderia causar à nossa literatura?

Lamento pelo retrocesso que vivemos. Há um grande ataque à liberdade de expressão em geral.  O que aconteceu em Rondônia chamou a atenção por dizer respeito a clássicos como “O castelo”, de Kafka, “Contos de Terror, de Mistério e de Morte”, de Edgar Allan Poe,  ou ainda o nosso “Macunaíma”, dentre muitos outros, a lista é longa. Considero, entretanto, que toda censura é absurda e que, infelizmente, o que ocorreu em Rondônia não é um fato isolado, mas faz parte de um projeto de cerceamento não apenas da literatura, mas das artes em geral, como aconteceu, por exemplo, com o desmonte da exposição Queermuseu em Porto Alegre no ano passado. É bastante triste acompanhar esses retrocessos impostos por discursos de falsos moralistas.

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“Cada um de nós desempenha papel importante na vida cultural da cidade, de diferentes maneiras, seja ministrando oficinas literárias em escolas da cidade e região e com palestras sobre assuntos de interesse da comunidade.”

– Como é presidir a Academia juiz-forana de Letras? E qual é o papel dessa instituição e sua contribuição para a cena cultural da cidade?

Nas circunstâncias da pandemia, reclusa em casa, ainda não pude ir além de fazer planos. Mas, há 30 anos como acadêmica da Academia Juiz-forana de Letras, tomei posse em 13 de dezembro de 1991, e sempre participando ativamente da diretoria, acredito que terei condições de desempenhar bem o meu papel. Justifico a minha confiança pelo ambiente amistoso que existe entre os membros da AJL, além da indiscutível competência dos meus confrades e confreiras. Cada um de nós desempenha papel importante na vida cultural da cidade, de diferentes maneiras, seja ministrando oficinas literárias em escolas da cidade e região e com palestras sobre assuntos de interesse da comunidade. Em 2019, tivemos uma Oficina de Trovas, oferecida gratuitamente aos interessados na nossa sede e ficou comprovada a nossa integração cultural porque, entre os participantes, contamos com a honrosa presença de pessoas ligadas à Academia de Letras Manchester Mineira, da UBT/JF, do Grupo Cultural Café com Poesia e Arte, da Leia-JF, etc.

– O que fazem os acadêmicos enquanto estão na Academia?

Em nossas reuniões ordinárias, no primeiro domingo de cada mês, fazemos um breve relatório das atividades desenvolvidas no período, comunicamos as previstas para o período seguinte, informamos a respeito de atividades socioculturais nas quais colaboramos e apresentamos os trabalhos e projetos literários realizados naquele ínterim.

– E quais são os critérios para a escolha de um acadêmico?

O candidato a membro da AJL é indicado por algum membro titular, com apresentação de Curriculum Vitae e exemplar de livro e/ou outras publicações. A Diretoria analisa o material, aprovando ou não e encaminhando, em seguida, para ciência e posicionamento da Assembleia, conforme o que é previsto no Capítulo III, artigo 4º do Estatuto da AJL.

– É possível adiantar os projetos para a sua gestão?

Havia uma reunião extraordinária marcada para o mês de março, de modo que se definissem as atividades a serem desenvolvidas este ano e distribuídas entre os acadêmicos, além de estabelecer o cronograma. O primeiro projeto provavelmente seria a realização de um ciclo de palestras quinzenais na sala da AJL. Definiríamos os Acadêmicos envolvidos no projeto e os temas das palestras. Devido aos motivos óbvios, a reunião foi suspensa. Essa é uma das atividades previstas tão logo o momento se torne favorável. Também pretendemos estudar a possibilidade de visitas a escolas, com o objetivo de difundir a literatura e as artes em geral.

Alguns dos livros de Cecy Barbosa Campos:

           

 

 

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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