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Um poeta de livros e canções

Por Marisa Loures

30/07/2019 às 16h11 - Atualizada 01/08/2019 às 11h35

Novo integrante do time de compositores da Império Serrano, Rogério Batalha lança “Hérnia”, livro em que reflete sobre a dor

De tempos em tempos, Rogério Batalha quase deixa para trás a vontade de fazer poesia escrita. O letrista – agora, integrante do time de compositores da Escola de Samba carioca Império Serrano – vai ganhando mais espaço. No entanto, ainda bem, o “ciclo, com a poesia de livro”, não se findou. Ele lançou recentemente “Hérnia” (TextoTerritório, 60 páginas), obra em que reflete sobre a dor. “Dores são sempre arquitetadas em silêncio. uma porrada na pasmaceira. a vida é um enxame no final da tarde. à porta dos desnatados a vida parece um embarque castanho-azul. praieiras canções Caymmi? coisa rara é estar vivo, meu nego. coisa rara é não estar vivo. Haja vista que é viagem e passagem”.

Embora acredite não saber falar sobre seus livros e canções, o autor apresenta-nos “Hérnia”. “Fala sobre os percalços da vida, da invenção, sobre se refazer dos cacos, resistir apesar dos revés, ir para além das unhas arrancadas, reinventar-se sobretudo”, destaca o poeta de Miguel Couto/Rio de Janeiro, confidenciando que, de certa forma, a nova obra nasceu de uma dor real vivida por ele. “Partiu de uma experiência assombrosa que tive com a dor. Há uns dois anos, tive um problema muito sério de hérnia de disco’, uns seis meses de hospitais, de crise intensa, morfina e tudo. Então, foi o princípio, a pedra-de-toque”.

Também autor de “Inventário”, “Cidade fundida”, “Exercícios de nuvens” e “Azul”, publicados pela TextoTerritório, Batalha estreou na literatura em 1998, há pouco mais de 20 anos. “Malícia”, o primeiro livro, teve as bênçãos de Waly Salomão. “Este poeta eu queria que vocês tomassem cuidado!/ Ele é bom e por isso é perigoso!”, sentenciou o escritor, morto no ano de 2003. Contudo, pode-se dizer que a história de Rogério Batalha com as palavras começou bem antes, por volta de seus 15 anos. E a Música Popular Brasileira foi a responsável pelo seu deslumbramento com a escrita. Ouvia Chico Buarque, Caetano Veloso, Cartola, Noel Rosa, entre tantos outros grandes nomes, o que justifica o fato de ele ter se enveredado para a carreira de compositor. Neste bate-papo de hoje, o assunto é a poesia, a que ele escreve para ser lida em seus livros e a que ele escreve para ser cantada.

Marisa Loures – “A vida é um desvio vertebral localizada na região do sonho. uma ruptura exagerada na curvatura dos dissabores (…) dor que é pedra no rim dói muito mas é menos”. A dor física indica que algo está errado dentro do nosso corpo. Nesse trecho, entendo que algo está errado na nossa vida, ela é a própria dor, como você mesmo escreveu, uma dor que é “metáfora de tudo”… Portanto, impossível viver sem ela…

Rogério Batalha – É esse o nosso estranho fardo e baobá, raízes profundas provêm daí…

– Se não há como fugir da dor, se é “desumano não senti-la”, já que entendo que a vida é a própria dor, o que o poeta propõe em “Hérnia”? Como “o leitor, partícipe desta dor, deve percorrer as vértebras todas da invenção e recolher seus cacos até o limite das possibilidades abertas sobre o mundo, para que aprenda a resistir”?

Desejo/meta: Sagacidade é saber farejar delícias.

– Qual é a função social do escritor hoje e da poesia? Qual é a principal dificuldade do poeta atual?

Acho que a função é a de sempre, desde sempre, enfim, de antena mesmo, de roubar o fogo para si e para pólis. A dificuldade é a ausência total do mercado e a precariedade que provém disso.

– Quando conversamos em 2014, você disse que era muito tímido e que isso não facilitava a vendagem do seu “peixe”. Falávamos sobre o fato de sua poesia ser reconhecida por nomes de peso da cultura brasileira e, no entanto, seu trabalho, à época, estar em relativo ostracismo. Houve mudanças?

Quase nada aconteceu para a minha poesia de lá para cá. Na música, algumas alegrias, conquistas, honras, contudo, ainda continuo pouco conhecido, para o grande público.

– Quem era o Rogério Batalha de “Malícia”, seu primeiro livro. E quem é, hoje, o poeta Rogério Batalha, de “Hérnia”? E como você avalia esse novo livro?

Quero crer que melhor poeta, mais esperto, mais sagaz, porém, ainda em busca de farejar delícias. Sobre o livro, eu prefiro que vocês avaliem, me sinto incapaz disso.

– Você se tornou compositor da Império Serrano e lançou o CD “Hoje o dia raiou mais cedo”, em parceria com Agenor de Oliveira e Mauro Sta Cecília, com participações de Ney Matogrosso, Frejat, Nelson Sargento e Moacyr Luz.  Também está gravando um CD de músicas inéditas, em parceria com Moacyr Luz, com participações de Moyseis Marques, João Cavalcante e Humberto Effe, entre outros. O que, hoje, ocupa mais espaço em sua vida, mais te satisfaz e te faz fazer planos? O trabalho com a música ou como escritor? 

Olha, vez por outra acho que meu ciclo, com a poesia de livro, se deu por encerrado. Tenho enveredado cada vez mais para o lance das canções, o que tem me dado mais prazer e ânimo. Tenho feito muitas músicas, lançado CDs, estou disputando o Samba-enredo de 2020, do Império Serrano, entrei para a ala de compositores da escola, acabei de lançar com os meus parceiros “Hoje o dia raiou mais cedo”, prestes a lançar novo CD de inéditas com Moacyr Luz, enfim, navegado mais nas águas das canções.

Sala de Leitura

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Sábado, às 10h15, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1010).

 

“Hérnia”

Autor: Rogério Batalha

Editora: TextoTerritório (60 páginas)

 

 

 

 

 

Trecho do livro “Hérnia”

Por Rogério Batalha

“A propósito, em tudo há um palco, na dor, todo o teatro. ela é um atlas. articula-se na base do crânio. não é uma poltrona vazia ou tampouco ausência de álcool moeda ou afeto. de modo que ela é um labirinto aceso. ela quando chega dilacera tudo. não é coisa de bicho nem planta. é um rasgo entre as vísceras o parto o salto e a esperança.

é quando uma hérnia se projeta de forma aguda, acentuada. espécie de objeto saído através de uma fissura ou orifício, de uma estrutura antes contida. ela é uma lesão no canto. um vazamento que pressiona o sonho o tempo todo. um incômodo permanente sobre a tinta sobre o mais vulnerável. é estar fora de si por uma unha um cisco encravado na alma. não pode ser mensurada senão pela própria dor. foi isso que ela me disse: sou uma espécie de osteoporose no seu peito.

levo escombros nos olhos. beijos carnívoros. aqui não tem verniz.”

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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