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“Acho que a internet está mudando o jeito de fazer literatura”, diz Marianna Leão

Por Marisa Loures

28/07/2020 às 10h37 - Atualizada 28/07/2020 às 11h02

Marianna Leão é autora vencedora do Prêmio Wattys (celebração anual que premia obras publicadas na rede social Wattpad), e seu mais recente título é “Feitiço de carnaval”, disponível na Amazon – Foto Arquivo pessoal

Na vida desta autora de hoje tudo mudou quando ela leu “Harry Potter e a pedra filosofal”. Ela ainda era uma menina e morava no Rio de Janeiro. Tinha por volta de 8 anos. Até, então, nada a tirava da frente da TV. “Um novo mundo se abriu diante de mim e foi impossível parar”, conta ela que, anos mais tarde, passou a criar histórias e levá-las para o papel. “Eram coisas bobas como aventuras com meus amigos e fanfics de Power Rangers, mas era uma atividade que me fazia muito feliz”, confessa Marianna Leão, que encarou a sério o ofício de escritora e passou a compartilhar seus trabalhos com os leitores quando já estava em Juiz de Fora cursando a faculdade de Comunicação Social na UFJF.

Lançou o primeiro título, “Clube da meia-noite”, pela Chiado Books. Participou de três antologias (“Doze por doze”, “Contos astrais” e “24 Horas com meu ídolo”) e está entre os autores e autoras que publicam livros no Wattpad, uma rede social onde os leitores acompanham o trabalho de um autor capítulo a capítulo, podendo comentar e enviar mensagens privadas. Aliás, vale informar que muitos dos nomes que hoje têm uma grande editora por trás saíram dessa plataforma, a qual acaba funcionando como um termômetro que avalia a popularidade de um escritor. Nela, ela já postou as obras “Caindo na real” e “Conexão Seul”. Além disso, Marianna disponibiliza títulos na Amazon, como “A viagem que mudou nossas vidas” (303 páginas) e o mais recente, “Feitiço de carnaval” (72 páginas), um conto que dialoga com os Contos de Fadas.

“Acho que a internet está mudando o jeito de fazer literatura. Antes do Wattpad, muitos colegas meus postavam suas histórias em comunidades do Orkut. Também não podemos nos esquecer das possibilidades que a internet nos oferece. Seja criar e compartilhar uma playlist de trilha sonora ou criar um podcast ‘feito por um personagem’, a narrativa transmidiática abre um leque com possibilidades infinitas e muito divertidas de serem exploradas”, diz Marianna.

Este nosso bate-papo começa com “Feitiço de carnaval, passa por sua experiência no Wattpad e termina com dicas de leitura para estes dias de isolamento. Já adianto que a quarentena de Marianna têm sido regada a narrativas asiáticas, seja em forma de livro ou de filmes coreanos da Netflix, o que justifica a primeira de suas indicações.

Marisa Loures – Sophia, personagem do conto “Feitiço de carnaval”, só quer ficar quietinha em casa, lendo, durante os quatro dias de folia, mas sua mãe não permite. Obriga a adolescente a ir para o Tijuca Tênis Clube, onde ela revê Rodrigo, um ex-peguete que ela queria que estivesse bem longe dela. E aí os dois vivem uma aventura e tanto. Sua história faz um diálogo com os contos de fadas. Como surgiu essa história? Os contos de fadas ainda têm muito apelo entre os adolescentes?

Marianna Leão – A história surgiu de um exercício de escrita. Em novembro do ano passado, eu viajei para Londres e lá comprei um joguinho de dados que funciona da seguinte forma: Cada dado traz uma ilustração diferente em cada face. Você os joga em uma superfície e precisa montar uma história com todos aqueles elementos. Com os que apareceram para mim, eu pensei no plot de “Feitiço de carnaval”. Acho que contos de fadas conseguem mexer com todos nós independentemente da faixa etária. O que muda é a mensagem que absorvemos deles. Qualquer leitor, independentemente da sua idade, quer encontrar uma história com motivações com as quais consiga se identificar. Seja uma narrativa de superação ou uma jornada que leve ao autoconhecimento e à autoconfiança.

– Seus livros geram identificação com o público adolescente. Esse é, realmente, o público que quer atingir? Existe algum segredo de escrita para fisgá-lo?

No Wattpad, nós temos acesso a um gráfico com dados como gênero e idade dos leitores. A maioria dos meus tem entre 13 e 21 anos. Mas, para ser honesta, eu não penso muito na idade dos meus leitores enquanto estou escrevendo. Só me esforço para fazer um bom trabalho e escrever algo que eu gostaria de ler. Alguma coisa que me divirta ou que me ajude a refletir sobre questões internas. O segredo para fisgar um leitor é escrever histórias honestas, com temas que importem para você. Porque, se você não consegue se envolver emocionalmente com as tramas e personagens que está criando, por que outra pessoa se envolveria?

– Qual de seus livros diz mais sobre você?

No fim, todos eles têm um pedacinho de mim. Seja uma curiosidade, um medo ou uma questão interna sobre a qual quero refletir. Mas se for para escolher um, eu diria que o “Clube da meia-noite”. Um dos personagens se questiona muito sobre as coisas que fazem ele ser quem é. Se a personalidade dele é fruto de suas escolhas, ações ou se já estava tudo traçado para ele, a partir do momento em que ele nasceu. E até que ponto a família e a criação dele interferiram. Desde que estudei o tema em antropologia, eu me interessei muito sobre. Então foi divertido dissecá-lo através de um personagem.

– Como você avalia a experiência no Wattpad? O que a levou a publicar lá? Dá para ter algum retorno financeiro?

O Wattpad te oferece a oportunidade de mostrar o seu trabalho para mais leitores. Mas a minha parte favorita é a interatividade. Leitores podem comentar em trechos específicos, mandar mensagens para os autores e compartilhar citações nas redes sociais. É um ótimo lugar para expor o seu trabalho, criar uma base de leitores e receber feedbacks, que foi o que eu busquei quando criei a minha conta lá. Infelizmente, a plataforma ainda não oferece retorno financeiro para os criadores, apesar de ter inserido anúncios e oferecer assinaturas premium.

– Nessa rede social, a ideia é que os leitores acompanhem seu trabalho capítulo a capítulo, podendo comentar e enviar mensagens privadas. A gente sabe que muitos dos comentários podem ser maldosos. Recebe muitos comentários? Como lida com as críticas? Elas chegaram a alterar o rumo das suas histórias ou seu estilo de escrita?

Ainda não cheguei a receber um comentário maldoso. No máximo alguns leitores nervosos com as escolhas dos personagens. O que me faz rir bastante e me deixa feliz, porque consegui fazer com que eles se importassem o suficiente para sentir alguma coisa. Seja tristeza, emoção ou vontade de dar uns cascudos. Até porque, personagens interessantes são falhos, cometem erros e precisam deles para evoluir na narrativa, atingindo (ou não) o objetivo que tinham inicialmente. Não costumo mudar o rumo da história porque, no caso do Wattpad, a pessoa comenta antes de ter todas as informações em mãos. Como escritora, eu tenho a visão geral da trama e sei por que estruturei as coisas daquele jeito. Mas acho que críticas construtivas são importantes e são sempre um bom meio de evoluir. Então, sempre que um colega ou leitor me dá um toque, fico feliz em poder aprender algo.

– Temos visto autores saltando das redes sociais literárias para as grandes editoras, que veem as plataformas como uma maneira de medir a popularidade dos escritores. O livro físico ainda é um sonho de todo escritor?

É muito difícil se desprender do sonho do livro físico. Mas acredito que, mais que isso, os escritores (mesmo aqueles com milhões de leituras no Wattpad) sonham com a projeção que grandes editoras dão. As plataformas de leitura ainda são nichadas. E ter o seu nome no catálogo de grandes editoras dá um peso extra ao nome do escritor, porque, junto do seu trabalho, está o histórico de uma empresa que já tem muito tempo de mercado.

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– Há mais livros vindo por aí? Pode adiantar a história?

No momento, estou em busca de leitores sensíveis e me preparando para contratar um serviço de copidesque para o meu livro “A ilha dos sonhos perdidos”. Em paralelo, estou estruturando meu próximo trabalho “Eric não pode voltar para casa”. Um romance LGBT que conta a história de Eric; pintor frustrado que, por causa de algumas dívidas e problemas com falsificações, foge para uma cidade pequena. Ele sofre porque não consegue encontrar a sua identidade como artista, nem como indivíduo. Nessa nova cidade, além do desafio de salvar um museu arruinado, ele vai ter a chance de se redescobrir e rever o significado de palavras como sucesso, felicidade e talento. Como ainda estou muito no início, ainda não sei se será lançado apenas na Amazon ou se também publicarei no Wattpad.

– Muitos têm usado estes dias de isolamento para colocar a leitura em dia. Quais leituras de quarentena você indicaria para quem acompanha esta coluna?

Nesses últimos dias, consegui ler um pouco de tudo. O mais recente foi a HQ “Grama”, que conta a história das mulheres de conforto (Durante a segunda guerra e o período colonial, o Japão escravizou sexualmente muitas mulheres sul-coreanas. O termo que eles usam para isso foi traduzido para português como mulheres de conforto) sul-coreanas durante a Segunda Guerra Mundial. Recomendo, porque não estudamos a história da Ásia na escola, nem conhecemos o período da expansão colonial japonesa e seu o custo para outras nações. Outro livro que me impactou muito foi “Flores para Algernon”, um romance sci-fi que fala sobre Charlie. Um adulto com déficit de inteligência que participa de um experimento científico capaz de aumentar seu QI. Nele, acompanhamos a evolução intelectual do protagonista, além das descobertas que ele faz ao finalmente entender as coisas que viveu no passado. “Lobo por lobo” foi um livro impossível de largar. É um YA distópico que nos leva a imaginar como seriam os anos 50 se Hitler tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Yael, a heroína, tem como missão ganhar uma corrida de motocicletas para se aproximar do Fhürer e matá-lo.

Sala de Leitura – toda sexta-feira, às 11h35, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,30)

“Feitiço de carnaval”

Autora: Marianna Leão

Disponível na Amazon (72 páginas)

 

 

 

 

Trecho de “Feitiço de carnaval”

Sexta-feira, véspera de Carnaval

Acho engraçado a minha mãe ter me dado o nome de Sophia por significar “sabedoria
divina”, mas não me deixar aproveitar o dom que meu nome me empresta. Quer dizer, por que
eu não posso simplesmente passar o Carnaval intercalando minhas leituras sobre mitologia
grega e séries sobre a realeza britânica?
Existe alguma lei que me obrigue a colocar uma roupa super curta ou uma fantasia
improvisada cafona para andar no calor de um milhão de graus Celsius do Rio de Janeiro?
Tudo o que eu queria era aproveitar o feriadão para colocar a minha leitura em dia e
fortalecer o meu relacionamento com o ar condicionado aqui de casa. Mas infelizmente a dona
Denise tinha outros planos para o meu Carnaval.
— Mas vai ser divertido, filha! As meninas não param de ligar pra cá pra casa pedindo
pra você mudar de ideia — minha mãe argumentou pela vigésima vez.
O tal evento imperdível era a festa à fantasia do Tijuca Tênis Clube. Comemoração
anual que eu aprendi ser melhor evitar só para não ter que encontrar com certos garotos
desagradáveis da escola.
Já basta ter que ver eles de segunda à sexta de fevereiro à dezembro, né?
— Ixi, mãe, agora tá muito tarde pra eu arrumar uma fantasia — argumentei, fingindo
pesar. — Mas tudo bem, amanhã ainda é sábado de Carnaval. Então você vai ter muitas
oportunidades para me enxotar de casa.
Voltei a minha atenção ao livro de mitologia que eu tinha alugado na biblioteca da
escola, alheia à movimentação da minha mãe no meu quarto. Isso até ela desligar o ar
condicionado e escancarar a cortina sem dó, me fazendo recuar para a sombra como se fosse
o Conde Drácula.
Para coroar a sua jogada de mestre, a Dona Denise jogou em cima de mim a fantasia
de anjinha que eu usei na apresentação de fim de semestre no nono ano. Era um collant
branco acompanhado de uma sainha de tutu branca mequetrefe, uma auréola enferrujada e um
par de asas arrepiadas.
As asas pareciam mais os restos de um anjo atropelado. Já o collant… Bom, como diria
a mamãe, eu cresci e “amadureci” muito nos últimos dois anos. Então podemos dizer que eu
seria uma anja atropelada super sexy.
— Ai mãe, olha o mico! Todo mundo da escola que me ver com essa roupa vai saber
que é da apresentação. E isso nem cabe mais em mim!
— Bom, você tem a opção de ir e tentar se divertir com as suas amigas ou de ficar em
casa, no seu quarto, com calor, sem internet, ventilador, ar condicionado, TV e sem nenhum
livro — Dona Denise disse com um sorrisinho maléfico. — Ah vai, se hoje for tão ruim assim eu
nunca mais insisto pra você sair no Carnaval!
“É só que antes você adorava! Aí de uns anos pra cá parece que criou alergia à
qualquer tipo de vida social…”
Minha mãe sempre pontuava seus interrogatórios com reticências. Terminando cada
sentença com um espaço em branco que ela implorava para eu preencher.”
— Se eu for você me dá um aumento de 10% na minha mesada?
— Vai sonhando Sophia! — Minha mãe revirou os olhos enquanto recolhia qualquer
conforto ou distração capazes de me manter na minha caminha. — Ai filha, não sei o que eu
faço com você…
— Que tal me deixar ficar em casa?
Dona Denise nem se deu ao trabalho de usar palavras para me responder. Ela apenas
me deu as costas e foi cuidar da vida.

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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