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Denise Schittine: “Somos todos iguais, todos cegos ao destino que um livro vai apontar”

Por Marisa Loures

27/11/2018 às 07h00 - Atualizada 26/11/2018 às 22h37

A escritora e editora Denise Schittine passa por Juiz de Fora para lançar “Ler e escrever no escuro” e ministrar o workshop “Como transformar seus escritos em um livro” – Crédito Amanda Nakao

Todos os trabalhos acadêmicos da doutora em literatura brasileira Denise Schittine partiram de experiências pessoais. Não seria diferente com “Ler e escrever no escuro: a literatura através da cegueira” (Paz & Terra, 462 páginas), obra que será lançada em Juiz de Fora  dia 30 novembro, das 19h  às 20h30, no Espaço Excalibur, com entrada gratuita. Denise vem de uma família de amantes de livros que sofreram com problemas de visão e inspirou-se na novela “Mondo di carta”, de Pirandello, “para buscar na vida real como os homens que ficam cegos reconstroem sua relação com o texto.”

Folheando as páginas da publicação, encontramos a história de vida de dois grandes nomes do universo literário. O argentino Jorge Luis Borges ficou cego. Depois disso, voltou-se inteiramente para a tradição oral e para a poesia clássica. O brasileiro João Cabral de Melo Neto também sofreu com a perda de visão. Dizia não ter paciência nem ouvido para a escuta. Ressentia-se por não poder olhar mais as palavras.

“Quando escolhi escrever sobre literatura e cegueira foi porque era um dos medos ancestrais que eu tinha: perder meus autores, meus livros, minha paixão. A ideia era entender como amantes da leitura e escritores tinham atravessado essa terrível zona escura, longe das palavras impressas no papel. Como toda trajetória, essa também foi repleta de suspense, alegria e descobertas. A principal delas foi a de que os cegos tinham muito a ensinar para mim: uma pesquisadora que enxergava, mas para qual talvez faltasse o dom da vidência”, conta a também jornalista, professora e editora que, no livro, fundamenta-se na perspectiva de estudiosos como Roland Bathes e estabelece um diálogo entre autores e leitores para abordar as diversas formas de enxergar os textos, os desafios de leitores e autores cegos e a importância do ledor, aquele em quem o autor/leitor cego vai precisar se apoiar para “estruturar suas composições.”

“Embrenhei-me pelos labirintos da cidade de Buenos Aires, pelas paisagens de Pernambuco e pelas bibliotecas reais e imaginárias desses escritores, poetas e amantes da leitura e, muitas vezes, me perdi. Qual não foi minha surpresa quando encontrei as saídas orientada por esses homens (escritores e leitores) tão corajosos que se transformaram nos meus guias, mesmo sendo cegos”, confidencia.

“Blog: comunicação e escrita íntima na internet”, (Civilização Brasileira, 2001) e “Veredas argentinas: ensaios à margem da literatura” (7Letras, 2009) estão entre os livros escritos por Denise. Ela foi coordenadora do selo Letras Tropicais da editora Palavra (Portugal), trabalhou no departamento adulto e infantojuvenil da editora Rocco e como editora de ficção e não ficção nacional na editora LeYa Brasil. Hoje, atua como tradutora do espanhol para Editora Globo, editora convidada de literatura nacional na Editora Rocco e preparadora de originais e revisora nas editoras Planeta, Record e Darkside. Também é professora na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro.

Durante o lançamento de “Ler e escrever no escuro”, no Espaço Excalibur, Denise fará uma roda de conversa com o tema “Palavra que acolhe, olhar que atrai: ler ou contar histórias?”. No dia 1º de dezembro, das 9h às 17h, no Museu de Crédito Real, ela ainda ministra o workshop “Como transformar seus escritos em um livro”, com organização da editora Paratexto. Os interessados em participar do curso devem fazer a inscrição até a próxima sexta-feira através dos sites www.editoraparatexto.com.br e www.sympla.com.br.

“Começamos qualquer história ou leitura cegos: ao final da narrativa (se é que existe um final), aos objetivos do autor, à nossa trajetória como leitores. Mas, passando pelo texto, os lampiões vão se acendendo, pouco a pouco, e nossos olhos se acostumam ao caminho incerto e especial da literatura. E nessa aventura da descoberta e do desvelamento somos todos iguais, todos cegos ao destino que um livro vai apontar.”

 Marisa Loures – Na introdução, você diz que, antes de começar a escrever o livro, achava que existiam diferenças entre os leitores cegos e não cegos. O que mudou sua maneira de pensar no assunto?

Denise Schittine – Descobri que somos ainda crianças diante dessas caixas mágicas que são os livros. Que não sabemos ou supomos o final da história até que o texto a revele para nós, que tateamos no escuro em busca de nossos autores prediletos: eles são nossas tábuas de salvação em mares revoltos. Começamos qualquer história ou leitura cegos: ao final da narrativa (se é que existe um final), aos objetivos do autor, à nossa trajetória como leitores. Mas, passando pelo texto, os lampiões vão se acendendo, pouco a pouco, e nossos olhos se acostumam ao caminho incerto e especial da literatura. E nessa aventura da descoberta e do desvelamento somos todos iguais, todos cegos ao destino que um livro vai apontar.

“Gostamos de colocar nossas marcas e depois lembrarmos o leitor que um dia fomos. Delegar a tarefa da leitura para outro é um ato de generosidade: não estamos mais guiando o barco, somos passageiros. A responsabilidade deste “condutor”, o “ledor”, também é enorme: apresentar uma vez mais um mundo que estaria morto para o leitor, não fosse sua voz trazendo as palavras de volta. Mas o fundamental dessa relação está em algo que só a voz humana é capaz de passar: amor.”

– Entre o autor/leitor que ficou cego e o livro, surge o “ledor”, aquele em quem o autor/leitor vai precisar se apoiar para “estruturar suas composições”. Na obra, você se vale da história do escritor João Cabral de Melo Neto, que evitou a presença do “ledor” afirmando que não tinha paciência nem ouvido para a escuta. Como se constrói a relação entre autor/leitor cego e o “ledor”? É uma relação fácil?

Nunca é fácil. No livro trato de leitores e autores que amavam as palavras, as páginas e os livros. Deixar de ter a relação física com o objeto-livro é a maior perda para um leitor apaixonado. Somos viciados no cheiro das páginas, no formato, em escrever nas folhas de rosto e margens. Gostamos de colocar nossas marcas e depois lembrarmos o leitor que um dia fomos. Delegar a tarefa da leitura para outro é um ato de generosidade: não estamos mais guiando o barco, somos passageiros. A responsabilidade deste “condutor”, o “ledor”, também é enorme: apresentar uma vez mais um mundo que estaria morto para o leitor, não fosse sua voz trazendo as palavras de volta. Mas o fundamental dessa relação está em algo que só a voz humana é capaz de passar: amor. Ser um ledor, um bom ledor, é ter amor pelo texto. Tanto amor que aquele que escuta é capaz de relacionar a voz de quem lê com aquela primeira voz que o apresentou ao prazer da leitura.

– Muitos leitores nem imaginam que Jorge Luis Borges e João Cabral ficaram cegos. Poderia citar outros célebres autores que perderam a visão? A cegueira exerceu influência direta em suas obras?

James Joyce teve problemas sérios de visão, não é à toa que o seu monumental “Ulisses” é uma ode a Homero, poeta cego. Dante Alighieri quase perdeu a visão, e isso o tornou um devoto de Santa Luzia. Mas sua maior homenagem é, sem dúvida, em sua obra maestra “Divina comédia”, na qual descreve de uma forma completamente visual sua ideia literária de inferno, purgatório e paraíso. John Milton ditou grande parte do poema épico “Paraíso perdido” inteiramente cego. Para falar de alguém mais contemporâneo, Glauco Matoso desenvolveu parte de sua obra homenageando a própria perda de visão. São tantos homens imensos que perderam a luz dos olhos, mas nunca perderam a luz do saber, que é até difícil de não compará-los ao adivinho Tirésias: um cego com o poder profecia.

– Na passagem por Juiz de Fora, você ministra um workshop. Vou te devolver a pergunta que dá nome ao curso: “Como transformar seus escritos em um livro?”.

É um caminho que, ao contrário do que parece, não é tão tortuoso. Todo autor quer ser lido. O princípio básico de escrever bem é ser um grande leitor e, mais do que isso, um leitor crítico. O livro tem pontas soltas? Os personagens são convincentes? Os capítulos estão na ordem que melhor vai aguçar a curiosidade do leitor? Qual é o público ao qual se destina um livro? Quando respondemos cada uma dessas perguntas e as colocamos no papel, já conseguimos ter um rascunho do que queremos para o nosso livro. A outra porta de acesso é a troca. O trabalho autoral é muito solitário. Ter primeiros leitores, ter a opinião de outros autores, amigos, amantes é a maneira de conseguir uma mostra de como o público poderá reagir ao escrito e, mais do que isso, ajuda a ajustar o texto.

– Talvez o maior desafio seja fazer com que esse livro conquiste leitores. Qual é o caminho para que o autor encontre seu lugar no mercado?

– O autor hoje tem muito mais caminhos do que já teve. As redes sociais, os blogs, os grupos de leitura, as oficinas de criação de texto foram apoios que surgiram nos últimos anos e que são extremamente preciosos. Quando antes um autor sabia, em tempo real, o que os leitores pensavam sobre o seu texto? Há autores desapegados e corajosos que oferecem seus escritos direto ao público: sem medo da crítica ou da incompreensão. Querem acertar, conquistar e entender. O leitor ainda é o maior enigma do mercado editorial, mesmo para os editores mais experimentados.

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– Você trabalhou em grandes editoras, como a Leya e a Rocco. Atualmente, é tradutora do espanhol para a editora Globo. Como é a receptividade de escritores iniciantes pelas grandes editoras? O que elas buscam quando resolvem apostar neles?

Sabemos que a nossa literatura não garante uma venda estrondosa em livrarias. Mas ela pode gerar prêmios, prestígio e encanto. Há muitas editoras que possuem selos dedicados à alta literatura brasileira. Mas há também uma literatura jovem, descolada, intuitiva, divertida e realista que vem ganhando um público imenso e que, na verdade, são as editoras que precisam “correr atrás” para absorverem estes autores. São autores escolhidos (eleitos) pelo público: fenômenos que aparecem por saberem falar diretamente ao coração do leitor. Eles estão irrompendo por todas as mídias, todas as formas de comunicação, e as editoras querem e precisam colocá-los também nos livros.

– É interesse seu passar uma lição com “Ler e escrever no escuro”?

Na verdade, é meu interesse passar o meu aprendizado com este livro. A cada vez que estudamos, lemos, nos apaixonamos e nos aprofundamos num assunto, aprendemos muito mais que ensinamos. Tenho ficado impressionada com a quantidade de leituras diferentes e encantadas que outros pesquisadores vêm fazendo de “Ler e escrever no escuro”. E isso me deixa de fato feliz. Feliz por despertar outras vozes e olhares. Esse é o verdadeiro aprendizado, a lição mais preciosa.

 

“Ler e escrever no escuro: a literatura através da cegueira”

Autora: Denise Schittine

Editora: Paz & Terra, 462 páginas

Lançamento em Juiz de Fora e roda de conversa com o tema “Palavra que acolhe, olhar que atrai: ler ou contar histórias?”

30 de novembro, das 19h  às 20h30, no Espaço Excalibur (Rua São Mateus 265 – São Mateus.

Workshop: “Como transformar seus escritos em um livro”

 1º de dezembro, das 9h às 17h, no Museu de Crédito Real (Av. Getúlio Vargas 455 – Centro)

Inscrições devem ser feitas até 30 de novembro, através dos sites www.editoraparatexto.com.br e www.sympla.com.br.

 

Trecho do livro “Ler e escrever no escuro: a literatura através da cegueira”

Por Denise Schittine

“Antes de começar a escrever este livro, cheguei a pensar que
existiam diferenças entre leitores cegos e não cegos. Os leitores, na
verdade, diferenciam-se em relação à postura que tomam diante
do texto. Todo leitor é cego quando vai iniciar um texto. Cego
aos objetivos do autor. Aos caminhos que vai percorrer. Ao que irá
descobrir sobre si mesmo e sobre a escrita. A leitura é um ato de
prazer, como afirmou Roland Barthes, mas é também um ato
de coragem. É entregar-se de olhos fechados a um caminho que
não é traçado nem pelo leitor, nem pelo autor, nem pelo texto, mas
por uma quarta via que se articula a partir dos três. É um labirinto
de imagens e sons, que, mesmo não sendo vistos ou ouvidos,
precisam ser percorridos. Ao se entregar ao texto, nada garante que
o leitor não vai se perder. Nem quando o autor já é conhecido, nem
quando o assunto já foi lido. Cada texto é um, e cada leitor procura
se localizar e ser guiado de forma diferente, de acordo com sua
própria subjetividade, mesmo que o texto lido seja o mesmo que
tantos outros leitores já leram.
Sobre o texto, ninguém tem poder. Nem o autor, nem o leitor
que tem um texto conhecido nas mãos. Cada leitura do mesmo
escrito é uma nova leitura, um novo labirinto que se estende sem
respostas iguais ou pelos mesmos caminhos.”

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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