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Marília Garcia: “Acho difícil me colocar em algum lugar neste vasto campo da literatura; gosto do deslocamento”

Por Marisa Loures

18/12/2018 às 12h40 - Atualizada 18/12/2018 às 12h49

Poeta e tradutora, Marília Garcia é a primeira mulher brasileira vencedora do prêmio Oceanos de literatura – Foto de Renato Parada

Marília Garcia. Mãe da Rosa. Leitora. Tradutora. Editora. Agora, primeira mulher brasileira vencedora do prêmio Oceanos de literatura, anunciado no último dia 7 de dezembro. No ano passado, a portuguesa Ana Teresa Pereira foi a primeira mulher a obter esse lugar na história da premiação. “É preciso haver o mesmo espaço para a literatura feita por autoras mulheres, é preciso se dizer autora mulher até o dia em que os espaços sejam igualitários e talvez não seja mais preciso fazer essa marcação”, salienta a escritora, que levou R$ 100 mil com o livro de poesia “Câmera lenta” (Companhia das Letras, 2017, 104 páginas).

Aliás, a poesia mostrou sua força na edição de 2018. O português Luís Quintais ficou com a terceira colocação, com a obra poética “A noite imóvel”. A quarta posição foi ocupada pelo moçambicano Luis Carlos Patraquim, e o seu livro, também de poesia, “O Deus restante”. O segundo lugar é do português Bruno Vieira Amaral, com o romance “Hoje estarás comigo no paraíso”.

A poeta de 39 anos, nascida no Rio de Janeiro, é considerada “uma das vozes mais autênticas da poesia contemporânea”, como destaca a Companhia das Letras. No seu “Câmera lenta”, ela reflete sobre a pesquisa do processo poético, exercitando o fluxo do pensamento e testando novos procedimentos para o texto. Ela “traz uma alternância entre catástrofes e coisas mínimas do dia a dia”, conforme ela conta na entrevista de hoje para o Sala de Leitura. Trata-se de uma “poética desbravadora, sofisticada, antenada”, afirma o poeta Italo Moriconi na orelha da obra.

“Acho que o fato de a premiação ter privilegiado a poesia mostra que estamos vivendo um momento alto da poesia em língua portuguesa, com muitas dicções diferentes, com várias pequenas editoras voltadas para poesia e com muita tradução de poesia estrangeira (o que também mostra que é um momento forte na produção nacional)”, frisa a autora de “20 poemas para o seu walkman” (Cosac Naify, 2007), “Engano geográfico (7Letras, 2012), “Um teste de resistores (7Letras, 2014), “Paris não tem centro” (7Letras, 2015) e o novíssimo “Parque das ruínas” (Luna Parque, 2018). Este último é composto por dois poemas longos, à maneira de ensaios, e aborda a crise no Rio de Janeiro, relacionando-a ao pensamento sobre a imagem de alguns artistas, como Jean-Baptiste Debret e David Perlov.

 Marisa Loures – Em uma entrevista para o suplemento “Pernambuco”, publicada há pouco mais de um ano, você disse que, sempre que vai falar sobre poesia, te vem a sensação de não conseguir falar. Naquele momento, era a primeira vez que você daria uma entrevista sobre o “Câmera lenta”, o que tornaria a tarefa mais difícil ainda. Hoje, falar sobre ele e sobre a poesia ficou mais fácil?

Marília Garcia – Depois de um tempo falando de um livro, vamos aos poucos construindo um discurso sobre ele, então, teoricamente, seria mais fácil hoje falar sobre esses poemas, sim. Mas, por outro lado, sempre que falo de poesia, tenho a sensação de que estou apenas fazendo uma paráfrase, isto é, os poemas falam por si só e, quando eu preciso falar por eles, não posso alcançar os que eles dizem naquele formato, daquela maneira, com aquelas ferramentas. Uma das definições de poesia de que mais gosto, do francês Jacques Roubaud: “o poema diz o que ele diz dizendo”. Então, se preciso dizer o que ele diz só posso dizer com ele mesmo, ou então será uma paráfrase, uma explicação, mas não a coisa em si.

– Quais foram as circunstâncias de escrita do “Câmera lenta”?

“Câmera lenta” levou nove anos sendo escrito, então as circunstâncias são variadas, e o livro passou por muitos formatos antes de chegar à versão final. Os primeiros poemas dele foram escritos para serem lidos em voz alta em eventos (como livrarias, festivais de poesia, espaços acadêmicos), então eles tinham recursos como repetição e refrão. Além disso, editava algumas cenas de filmes para poder projetar enquanto lia, então muitos poemas foram escritos em diálogo direto com o cinema. Além disso, enquanto escrevia esses poemas, publiquei outros livros que eram “formalmente” diferentes entre si. Por exemplo, “Engano geográfico”, de 2012, é composto por um único poema longo mais narrativo, enquanto que “Um teste de resistores”, de 2014, é composto por poemas mais ensaísticos, que tentam pensar a linguagem e as ferramentas usadas na escrita dos poemas. Assim, o “Câmera lenta” foi também incorporando estes outros tons e formas de dizer presentes nos meus outros livros. Houve também uma circunstância que foi importante para a escrita dele. Em 2016, me mudei para uma região em SP próxima à Av. Paulista e passei a conviver com muitos helicópteros diariamente. Assim que cheguei, eles me assustavam, não conseguia tratar aquele som como algo do cotidiano, era como se houvesse uma catástrofe iminente se aproximando. Mas, pouco a pouco, percebi que já quase não ouvia o som, ele começou a ser incorporado pela vida, então me obriguei a parar para ouvi-lo outra vez. A partir daí, comecei a prestar muita atenção nas coisas, em coisas mínimas, como o ruído da geladeira e o som dos dedos sobre o teclado, e não só barulhos, mas os gestos pequenos que não vemos nem nomeamos. Acho que o livro traz uma alternância entre catástrofes e coisas mínimas, do dia a dia, a cor do rio, a geometria da cidade etc. Por fim, foi na montagem final do livro que compus a unidade do conjunto, cortando o que destoava e aproximando o que poderia dialogar.

– A heterogeneidade é uma das principais marcas da literatura brasileira contemporânea. Como você se vê e se coloca nesse vasto campo da nossa literatura?

Acho difícil indicar onde me coloco. Minhas referências também são bastante heterogêneas, vão desde a poesia dos anos 70 (Chico Alvim, Ana Cristina Cesar, Sebastião Uchoa Leite) até os irmãos Campos, chegam à poesia contemporânea e passam pelo cinema, pelas artes visuais e música, e tudo o que consigo ler de poesia estrangeira. Acho difícil me colocar em algum lugar neste vasto campo; gosto do deslocamento.

 – Além de poeta, você também é tradutora. É mais difícil fazer uma boa tradução ou um bom poema?

Acho que sempre é difícil fazer um bom texto, seja tradução ou poema. Considero que a tradução também é uma forma de escrita que exige tanto quanto qualquer outra, pois aquele texto entra na língua de chegada no momento da tradução, então precisa dos mesmos recursos que temos disponíveis para um poema, por exemplo.

 – Acho que uma das maiores angústias de um escritor é se ver sem inspiração. O que a poeta Marília Garcia faz quando os versos não vêm?

Leio outros poetas, traduzo poemas de outras línguas, ouço música, vejo filmes selecionando e copiando falas, leio romances… Tento me “alimentar” para escrever.

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– Em um texto para o blog da Companhia, datado de 22 de novembro de 2018, você cita uma fala do poeta Henri Michaux, que diz que “a verdadeira poesia se faz contra a poesia”. Você segue dizendo que, “para ele, era preciso se contrapor à poesia da época anterior, não exatamente ‘por ódio’, mas para poder dar lugar a outras formas de percepção; como se o novo momento exigisse limpar a couraça do poema para poder construir novas formas de dizer.” “Câmera lenta” é seu quinto livro publicado, e ele se diferencia em alguns pontos de livros seus anteriores. Segundo a crítica Juliana Bratfisch, “o gesto de referenciar e localizar experiências” presente em ‘Um teste de resistores’ foi deixado de lado. Ela completa dizendo que “trata-se de um novo olhar para sua própria escrita.” Pode-se dizer que o momento de “Câmera lenta” exigiu que você “limpasse a couraça para poder construir novas formas de dizer”?

– Sim, também tento fazer isso dentro da minha própria escrita, buscando outras formas de dizer. Além dessa diferença que você citou do “Câmera lenta” para “Um teste de resistores” em relação aos referentes que busquei apagar no último livro (com exceção do epílogo que traz todos os referentes), há outras diferenças. Por exemplo, na época em que publiquei meu primeiro livro, em 2007, percebi que, embora ele se chamasse “20 poemas para o seu walkman” e apontasse para certa sonoridade, os poemas simplesmente não funcionavam se lidos em voz alta, pois tinham uma sintaxe estranha, não eram feitos para serem lidos em voz alta, mas para uma leitura silenciosa. Depois disso, comecei a escrever alguns poemas tentando aproximá-los da fala, mexendo na sintaxe, incorporando repetições etc.

Outro exemplo disso está no meu livro “Paris não tem centro”, de 2015, que usou um procedimento: escrevi o poema em francês e pedi a uma amiga para traduzi-lo para o português. Eu sei francês, mas não a ponto de escrever, então foi uma experiência de escrita interessante, pois eu não tinha controle completo do que estava fazendo. Acho que foi um modo de escrever “contra a poesia”, de “limpar a couraça do poema” e encontrar outras maneiras de dizer, pois precisava escrever sem muitos recursos linguísticos.

“Câmera lenta”

Autora: Marília Garcia

Editora:  Companhia das Letras, 104 páginas

  pelos grandes bulevares

Por Marília Garcia


[do lado de dentro]

o que ela vê quando fecha
os olhos? linhas sinuosas, um mapa
feito à mão, parece uma pista vista de cima —
os campos cortados ou poderia ser
uma sombra riscando o verde quando passa
lá no alto.
o que ela vê quando
olha em linha reta tentando
descrever
a garota que conheceu no café?
a transformada de
wavelets ou um peixe-lua-
-circular em uma região abissal.
não é nada abissal
estar nesta superfície,
você quis dizer de vidro? esférico?
ou um animal marinho em miniatura:
um polvo de 1 mm?
o cinema é 24 vezes
a verdade por segundo. este segundo
poderia ser 24 vezes a cara dela
quando fecha os olhos e vê.

[de fora]

não é por falta de repetição, mas não
encontrava a palavra exata.
o que ela vê não sabe e tudo fica tremido
se fast forward.
agora fecha os olhos para
entender, para ir mais
devagar.
não se perde alguém por duas
vezes, era o que achava
mas a essa altura chego no mesmo terminal
duas semanas depois e a cena se
repete.
— você está tendo um problema
de realidade, ele cochichou.
— qual é o desastre desta vez?
o que ela vê ao abrir a
claraboia? ao bater aquela foto da
ponte ou quando lê
a legenda:
“nos abismos a vida é submetida
ao frio, escuridão, pressão.
oito mil metros de profundidade”
uma montanha
ao contrário.

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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