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Marcelo Moutinho escreve sobre as vidas das ruas de dentro

Por Marisa Loures

18/08/2020 às 10h44 - Atualizada 18/08/2020 às 17h53

Marcelo Moutinho esquiva-se dos clichês de Cidade Maravilhosa e aborda o cotidiano de pessoas comuns que povoam a cidade do Rio de Janeiro no livro “Rua de dentro” – Foto Leo Aversa

O pai festejou o nascimento do filho. Usou o dinheiro reservado para um imprevisto ou para a tão sonhada viagem aos Estados Unidos e comprou uma caixa de charutos para comemorar. Gustavo era o nome do garoto. Mas o pai não aceitou quando descobriu que Gustavo transformou-se em Camile. A intolerância atropelou o amor. “Mulherzinha. Não vou ter um filho mulherzinha”, disparou raivoso após deixar, no rosto de Camile, a marca de um soco. “Purpurina”, conto comovente que abre “Rua de dentro” (Record, 128 páginas), novo livro do escritor carioca Marcelo Moutinho, escancara a realidade enfrentada por pessoas trans empurradas à prostituição por sobrevivência. Mostra o processo de transformação de Camile, a saída de casa, os programas, a conquista do diploma universitário, o retorno para perto do pai.

Os personagens que por ele transitam frequentam, diariamente, as ruas do subúrbio do Rio de Janeiro. Movimentam-se à margem. Dificilmente, estariam no centro de uma reportagem especial cujo tema são as belezas da Cidade Maravilhosa. Também quase não aparecem como protagonistas de grandes obras da nossa literatura. E é sobre o cotidiano dessas pessoas que vivem em espaços nada glamourizados, ambientes de uma realidade dura, mas também de deliciosas histórias, que Moutinho mais gosta de escrever.

“Clichês são, em geral, imagens reiterativas. No caso do Rio de Janeiro, podemos evocar as praias da Zona Sul, com o desenho sinuoso da orla, os braços abertos do Cristo Redentor sobre a paisagem e tantas outras que formam os cartões-postais. Só que uma cidade – e o Rio não é diferente – se define também nas imagens, nos costumes, no cotidiano de quem não costuma estar sob os holofotes. A expressão ‘rua de dentro’, que dá título ao livro, aponta justamente para isso. Não quero falar das grandes avenidas, de personagens cheios de glamour, e, sim, da vida que se desenrola quase que à margem desses lugares e para além desses tipos humanos. O foco está no universo da baixa classe média suburbana – e também, em parte, no ambiente da favela. Acredito que a cor local, no livro, não é um elemento limitador. Pelo contrário: os personagens que povoam os 13 contos – uma mulher trans, a senhora que frequenta o restaurante a quilo, o taxista, a menina que sonha ser dentista – não são marcadamente cariocas. Poderiam estar em qualquer cidade brasileira”, explica Moutinho, nascido e criado em Madureira, subúrbio carioca.

Entre seus títulos publicados estão, “Ferrrugem” (Record, 2017), livro vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional, “Na dobra do dia” (Rocco, 2015), indicado ao Prêmio Oceanos, e “A palavra ausente” (Rocco, 2011), indicado ao Prêmio Portugal Telecom. Nossa conversa é sobre “Rua de dentro”, processo de escrita, escolha narrativa, invisibilidade, é sobre Brasil.

Marisa Loures – Ao escolher falar sobre o cotidiano dessas pessoas invisíveis, que se movimentam à margem e que, no dia a dia, lutam para sobreviver, acaba levando para seus textos histórias com finais nada felizes, como a do conto “Vanessa”. Sei que se trata de ficção, mas é uma ficção inspirada na dura realidade de quem mora em comunidades onde, diariamente, há trocas de tiros. De onde tirar forças para continuar escrevendo?

Marcelo Moutinho – Essa dura realidade está presente, mas as histórias iluminam também outros aspectos da vida nas chamadas comunidades. No conto “Memória da chuva”, por exemplo, é descrito um animado churrasco de aniversário. Isso porque penso ser importante quebrar a perspectiva de que a existência de um morador da favela se resume a sofrimento, tragédia e infelicidade. Quando a gente aproxima a lente, percebe que não. Mais que isso: percebe que a lógica segundo a qual o cotidiano de um indivíduo pobre que mora na favela se limita a conviver com a violência e a falta de recursos é, na verdade, um estereótipo. Há prazer, há potência, há alegria, há alumbramento ali. Essa lente em primeiro plano serve também, como no conto que você cita, para trazer um olhar além da estatística. Uma coisa é ver na TV que houve mais uma vítima de bala perdida, da violência policial. Outra é conhecer de perto a vida, os projetos, os sonhos que foram abatidos.

– Quando conversamos em 2017 sobre “Ferrugem”, você já havia comentado que gosta de escrever sobre pessoas comuns e que a literatura, às vezes, está muito ensimesmada. Os personagens, normalmente, são escritores e cientistas sociais. Se a imprensa, de maneira geral, não dá espaço para os invisíveis, será que a literatura tem começado a dar sinais de que ampliou a escuta deles?

Acredito que sim. Nos últimos anos, houve uma maior democratização no que se refere ao espaço no mercado editorial. Existe, hoje, mais lugar para escritores que não sejam oriundos das áreas mais elitizadas ou não se vinculem obrigatoriamente a temas e personagens com recorte intelectualizado ou acadêmico. É claro que não se muda de uma hora para outra um cenário construído ao longo da história. Mas penso que melhorou.

– Tenho a impressão de que, para escrever “Purpurina”, você percorreu as ruas da Lapa e da Glória e conversou com cada  pessoa que aparece nele. Conte um pouco sobre o processo de escrita desse conto.    

“Purpurina” demandou bastante pesquisa. Li vários trabalhos de antropologia urbana sobre esse universo e entrevistei algumas mulheres trans sobre suas trajetórias, a pessoal e a profissional. Duas delas, a quem nomeio e agradeço no fim do livro, ajudaram também na questão do vocabulário. Eu queria que, nessa perspectiva de aproximar a lente dos personagens, o conto tivesse verossimilhança e assumisse com naturalidade os códigos daquele grupo social. Sua rotina, sua linguagem, seu cotidiano, as barras que enfrentam, o preconceito, os ritos de passagem da transformação. Daí o relativo estranhamento dos leitores ao se deparar, por exemplo, como termos como “equê”, que significa “caô”. Essa é uma das histórias do livro que mais têm emocionado as pessoas.

“A preocupação em lustrar o próprio perfil tem sido maior do que a de tentar compreender o que tem levado grande parte da população a subscrever um projeto corrupto, misógino, homofóbico, racista e autoritário. É preciso tentar estabelecer um diálogo com essas pessoas. No mais, como costuma afirmar o historiador Luiz Antonio Simas, o Brasil deu certo. O plano era mesmo ser excludente, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua própria gente, intolerante, boçal, castrador, famélico e grosseiro. Nossa tarefa, diz ele e eu concordo, é fazer o Brasil dar errado.”

– Em relação ao conto “Militante”, temos uma cabo eleitoral. Pessoa simples, sem convicção ideológica, trabalha para um candidato ou outro apenas para receber o pagamento pelos serviços prestados. “O seu Botelho repete sempre que o nosso candidato é um homem de Deus, que até na bandeira está escrito Deus acima de todos. A verdade é que não costumo olhar para a bandeira, muito menos ler o que está escrito nela. Já agitei bandeira vermelha, amarela, azul, a de hoje é verde.” Apesar de ter consciência de que as promessas são sempre as mesmas, essa mulher não faz nada para mudar sua situação. Pelo contrário. Quer mantê-la. Somos culpados pelo Brasil que temos hoje?

Ela não faz nada porque tem uma necessidade mais urgente: pagar as contas. Ou seja, a sobrevivência. Esse conto toca numa questão crucial do país hoje. Ficam os setores progressistas trocando tapas nas redes sociais, numa disputa sobre quem seria mais ou menos vanguarda, enquanto a caravana do retrocesso passa em velocidade acelerada. Infelizmente, as chamadas bolhas estão com suas superfícies cada vez mais grossas, cada vez mais intransponíveis. A preocupação em lustrar o próprio perfil tem sido maior do que a de tentar compreender o que tem levado grande parte da população a subscrever um projeto corrupto, misógino, homofóbico, racista e autoritário. É preciso tentar estabelecer um diálogo com essas pessoas. No mais, como costuma afirmar o historiador Luiz Antonio Simas, o Brasil deu certo. O plano era mesmo ser excludente, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua própria gente, intolerante, boçal, castrador, famélico e grosseiro. Nossa tarefa, diz ele e eu concordo, é fazer o Brasil dar errado.

– No conto “Comida a quilo”, não há parágrafos. Apenas um bloco de texto. Quase nenhum outro sinal de pontuação além da vírgula. As falas dos personagens estão misturadas com a do narrador e com a do locutor que, no rádio, dá notícia dos preços de produtos do supermercado Guanabara. É preciso fôlego para ler. Aquela “confusão” de vozes, gente comendo, garçonete mal-humorada, leva-nos para o ambiente de um restaurante muito movimentado de uma grande cidade. O que o leva a fazer determinadas construções textuais na hora de produzir?

A narrativa, em “Comida a quilo”, emula o ambiente de um desses restaurantes. Busquei traduzir, no campo da linguagem, aquele universo recortado, fragmentário, caótico. Para que o texto ressoasse o cenário onde a trama se desenrola. É uma barafunda de palavras e sons, uma algaravia comparável – caso queiramos e quisermos evocar uma combinação gastronômica típica desses estabelecimentos – a um prato de feijão com sushi.

– E, segundo você, “Ferrugem” era seu livro mais autoral. Com ele, deixou “o texto um pouco mais solto”, “menos preso ao retrabalho”, que era quase uma obsessão sua. O que pode dizer a respeito disso com este novo livro? A obsessão voltou ou não?

Sob a perspectiva da linguagem, acho que “Rua de dentro” dialoga com “Ferrugem”. Isso embora haja alguns contos nos quais o trabalho da narrativa é mais ousado. É o caso do já mencionado “Comida a quilo” e também o de “Retrós e linhas”, protagonizado por uma costureira e que reproduz, no âmbito textual, o movimento da própria costura. Frases longas, como a agulha que conduz a linha, alternadas com frases curtas, como o nó que a retém antes do retorno ao outro lado do tecido.

– E desde que estreou na literatura, tem publicado contos. Também escreveu um livro de crônicas, além de um infantil. Por que o interesse pelas narrativas curtas? Por que “Rua de dentro” nasceu em forma de contos?

No meu caso, o que define a extensão de uma história é seu enredo. Até hoje, os enredos que imaginei suscitaram uma narrativa mais curta. Mas a lógica da montagem dos meus livros têm obedecido à premissa da organicidade. Não se trata de mera junção de contos, mas de uma composição que considera questões como temática e ambiência. Há um fio que enovela as histórias ali reunidas. Nesse sentido, chamaria “Rua de dentro” de “quase romance”. Como a própria capa sugere, é um mosaico montado com os cacos de nossa experiência individual no espaço urbano, seja sob o âmbito das relações coletivas, seja a partir da cartografia íntima que guardamos dentro de nós, a nossa memória da cidade. E é, também, um recorte. Não à toa, o primeiro conto começa com um conectivo (“e”), que sugere a continuidade de algo preliminar e não expresso, e o último conto simplesmente não termina. É como se o livro representasse um excerto de uma miríade de histórias, considerando que antes e depois daquelas 13 há muitas outras a se contar.

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Sala de Leitura – Toda sexta-feira, às 11h35, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,30)

 

“Rua de dentro”

Autor: Marcelo Moutinho

Editora: Record, 128 páginas

 

 

 

 

Trecho de “Purpurina”

Por Marcelo Moutinho

“E MAIS UMA VEZ o batom percorrera os lábios sem resultar no contorno perfeito. Pequenos borrões vermelhos escapavam do desenho que eu tinha imaginado, invadiam a pele do entorno.

Que se dane, pensei.

Não restava tempo para a precisão. Meus pais voltariam em duas horas e ali, em frente ao espelho do quarto, a primeira já se fora. Passa o batom, molha a toalha, tira o batom. Nova tentativa.

Ainda era preciso achar o vestido em meio ao armário da minha mãe. Uma típica acumuladora. Entulhava os cômodos da casa com caixas cheias de canecas, lençóis velhos, eletrodomésticos já sem uso, brinquedos da infância de três gerações. Eu queria o vestido rosa-bebê, de alcinha, que deixava as pernas à mostra. Estava guardado há tempos, como resquício da juventude freada pelo noivado com o pai, e pela posterior gravidez.”

 

 

                          

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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