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Um suspense de fantasia sem personagens aventureiros e predestinados

Por Marisa Loures

15/05/2018 às 07h00 - Atualizada 15/05/2018 às 07h42

O jornalista e Historiador paulista Guss de Lucca estreia na literatura fantástica com “O monstro”, obra que se propõe a fugir de alguns clichês do gênero – Foto Divulgação

Jornalista e historiador, o paulista Guss de Lucca, de 38 anos, apostou em um suspense de fantasia, voltado ao público Young adult, para lançar-se na literatura. Contudo, “O monstro” distancia-se de outras publicações do mesmo gênero por ousar passar longe de alguns clichês. Quem é leitor voraz de histórias fantásticas sabe bem o que eu estou falando: guerreiros, magos ou predestinados e criaturas fantásticas, como elfos, anões e demônios, costumam encher as páginas desse tipo de publicação.

“Quis contar uma história onde os personagens principais fugissem dos dois tipos mais comuns: o aventureiro, aquele cara experiente que já possui uma coleção de jornadas realizadas, e o predestinado, que é o João Ninguém que, de repente, descobre que precisa salvar o mundo das garras de um vilão”, comenta o autor, que criou três “jovens agricultores, pessoas pobres, sem grandes habilidades e cujos sonhos são seus maiores bens.” O que é sobrenatural sai das mentes e crenças das pessoas que vivem ali. Também não é um livro que nasceu como parte de uma trilogia. É uma história fechada com início, meio e fim.

“Não sou um especialista no gênero, mas sinto que muitos autores se baseiam em convenções encontradas nos trabalhos de J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, tido como o pai da fantasia. Por isso, não é difícil encontrar semelhanças em histórias e, dentro desse contexto, acredito que exista uma saturação. Porém, acho que momentos como esse são ótimos estímulos para autores buscarem por algo mais. Ao menos foi o que fiz”, conta ele.

Guss de Lucca lançou “O monstro” através de uma campanha no Catarse. Atualmente, debruça-se sobre “Cor-de-rosa”, um romance de vingança adolescente. A versão digital de sua obra de estreia pode ser adquirida em www.amazon.com.br . Já o livro impresso deve ser encomendado com o próprio autor em gussdelucca.com.br.

Marisa Loures – Apresente o trio de protagonistas de “O Monstro”.

Guss de Lucca – Augustus, o primeiro dos três protagonistas, é filho de um agricultor e desde pequeno demonstrou talento para escultura. Autodidata, passou a praticar escondido em pedaços de madeira e, posteriormente, em árvores da floresta local. Seu maior desejo é abandonar a vida no campo e graduar-se na Academia de Artes Real, um universo restrito aos nobres.

Milenna é prima de Augustus e filha de um criador de porcos e javalis. Apesar do gênio forte e da predisposição por usar facas e espadas, ela é constantemente maltratada pelo pai, que preferia ter tido um filho homem. Na ânsia em fugir dessa relação abusiva, ela sonha em entrar para o exército iuriano e nunca mais voltar. Porém, mulheres não são aceitas entre os militares.

A terceira protagonista é Fabia, filha caçula do nobre responsável por administrar a região onde a trama se desenrola. Inteligente e determinada, ela luta para assumir o vácuo deixado pelo irmão, morto na atual guerra que o rei promove. Para isso, precisará se provar não apenas ao pai, mas a todos que de alguma forma influenciam as decisão da Palma Oeste.

– Em que contexto esse livro nasceu e como foi seu processo de escrita?

– Não sei dizer quando a ideia surgiu, mas ela foi tomando forma no momento em que decidi fazer dela meu primeiro livro publicado. O processo de escrita foi caótico. Nos meses em que trabalhei nele estava desempregado e dividindo meu tempo entre serviços temporários. Por isso, acabava escrevendo bastante por alguns dias e, depois, passava uma semana sem avançar a história – algo que não recomendo. Mas no fim, apesar de todos os percalços, o livro saiu como eu queria.

– Quando decidiu lançar um livro, você tinha oito histórias, mas escolheu publicar “O monstro”. O que faz essa história ser mais atraente do que suas outras e, consequentemente, mais interessante para ser publicada?

– Não eram oito histórias prontas, mas oito ideias para histórias bem definidas. Delas, escolhi “O Monstro” por alguns fatores: o gênero fantasia nunca esteve tão em alta, a proposta narrativa quebrava com algumas convenções – ou clichês – comuns em publicações do segmento e era uma forma de entrar em contato com o meu passado nerd, agregando uma nova trama como forma de agradecimento ao gênero.

–  “O Monstro” está enquadrado em um gênero que vive um paradoxo: é um dos mais vendidos e, ao mesmo tempo, às vezes, não é reconhecido pela crítica literária. Por que a literatura fantástica foi, durante muito tempo, não reconhecida pela crítica? Isso te incomoda?

– Não sei dizer o motivo. E não me incomoda. O bacana foi acompanhar o desabrochar do gênero, que na minha época era restrito a um nicho de leitores e hoje, graças as adaptações de livros como “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R.R. Martin, com o título de “Game of Thrones” (HBO), ganharam o mundo.

– De maneira geral, parece-me que a literatura de fantasia que é produzida aqui no país ainda é muito colonizada pelo imaginário europeu. Pode-se dizer que, para ela se consolidar, ela precisa estar mais voltada para o que é nosso?

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– Acho que é um dos caminhos. E existe gente fazendo isso, usando lendas indígenas e personagens do folclore brasileiro em tramas de fantasia. Acho importante.

– Uma crítica de alguns escritores é a de que o mercado editorial brasileiro não sabe trabalhar com fantasia nacional. Há um pensamento de que fantasia nacional não vende.  Esse cenário está mudando?

– Acho que sim. As ótimas vendagens da trilogia “Dragões de Éter” (LeYa), do Eduardo Spohr, e mais recentemente de “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação” (Intrínseca), de Felipe Castilho, são provas de que o público está aberto a consumir fantasia feita por autores nacionais e publicada no país.

– Para lançar este livro, você optou pela autopublicação, através de uma campanha no Catarse. Foi uma opção sua? Qual foi o caminho percorrido até tomar essa decisão?

– Foi a única opção. E eu demorei anos para aceitar isso. Antes de “O Monstro”, eu havia escrito outros dois livros que submeti a editoras e inscrevi em concursos literários. Mas nada deu resultado. Devo à insistência de alguns amigos a realização da campanha no Catarse. Eu já havia desistido de conseguir publicar algo quando fui convencido a apostar na autopublicação por meio de financiamento coletivo.

– Você tem planos de desbravar novos mundos fantásticos?

– Estou preparando quatro contos curtos que se passam no universo de “O Monstro” e que serão publicados nas plataformas gratuitas de livros digitais Wattpad e Sweek. Mas encerro minha escrita no gênero por aí. Meu próximo livro, “Cor-de-Rosa”, é uma romance de vingança adolescente e as demais ideias daquela lista inicial não incluem universos fantásticos. Quem sabe depois que ela se esgotar?

Sala de Leitura

Quinta-feira, às 9h40, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1010).

 

“O monstro”

 

Autor: Guss de Lucca

265 páginas

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.



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