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“A chegada à maturidade suaviza um pouco essa preocupação permanente com o olhar do outro”, reflete Cláudia Gabriel

Por Marisa Loures

13/10/2020 às 11h38 - Atualizada 14/10/2020 às 18h37

A jornalista Cláudia Gabriel reflete sobre o amadurecimento em “Escrito na chuva”, cujas crônicas foram escritas ao logo dos 30 dias que antecediam seu aniversário de 50 anos – Foto Erick Araújo

21 de março de 2019. A jornalista juiz-forana Cláudia Gabriel, radicada há vários anos em Belo Horizonte, começa a escrever uma série de crônicas. Uma por dia. O tom é de conversa com o leitor. Simples assim. Sem pretensões. São reflexões nascidas às vésperas do aniversário dela de meio século de vida. Foram exatos 30 dias de publicação nas redes sociais. Era um desafio de escrita.

Cláudia dividia com os seguidores situações vividas naquele período, além de lembranças. Não faltou quem se identificasse com o que ela tinha para contar: sonhos, vida em Juiz de Fora, saudade, família, viagens, limites do corpo, pós-graduação, TCC e até o cansaço que gerou um dia sem texto. Depois, nasceu a ideia de um livro, intitulado “Escrito na chuva” (Pomar de Ideias, 128 páginas), lançado agora trazendo não só aqueles 30 textos produzidos quando os 50 anos estavam chegando, mas também frases, poemas e pequenos contos.

E não é que a vida tem destas coincidências? No dia em que comecei a ler “Escrito na chuva”, reli um texto do nosso cronista-mor, Rubem Braga. “As enchentes de minha infância”. Esse é o título. Ali, o narrador-personagem volta à época de meninice quando ficava deslumbrado com as cheias do Itapemirim. Ele invejava os que moravam nas casas que dão fundo para o rio. Suas recordações daquele tempo são a tônica do texto. Tanto a crônica do autor de Cachoeiro de Itapemirim quanto a nova obra de Cláudia fizeram-me pensar em como os cronistas conseguem, com maestria, provocar reflexões profundas a partir do novo olhar que lançam às coisas do cotidiano.

Assim como o velho Rubem Braga, Cláudia traz a lembrança de um rio no texto “Compra-se uma casa com alma”. Nele, ela confidencia a necessidade de mudar de apartamento. A nova morada, ela escreve, deveria ser acolhedora e ter um painel com fotos contando sua história. Algo que ela nunca valorizou. Ela confessa. Certamente, é a passagem do tempo que traz esse desejo de rever o já vivido. E, ao encerrar a crônica, suas recordações levam-nos para uma casa à beira do Tapajós, em Alter do Chão. Qual era o seu deslumbramento? A tal casa tem o quintal alagado no período das cheias.

“No meu caso, a passagem do tempo inspira essa vontade de olhar para trás, buscando a beleza e o aprendizado do que foi vivido. E acho que é uma forma de rever a história e valorizar afetos. A maturidade provoca isso. Esse texto que você cita é muito sobre o afeto que os objetos guardam porque nos falam de pessoas. Eu conto lá sobre essa casa à beira do Rio Tapajós que era cheia de passado. E foi um lugar que me impressionou muito pela energia do rio, tão ameaçador na porta da casa, e pelas fotos e fitas que eram guardadas como num altar de devoção”.

Cláudia Gabriel é pós-graduada em Comunicação e Gestão Empresarial e em Processos Criativos em Palavra e Imagem. Já foi repórter do SBT e da TV Globo. Atualmente, é servidora na Assembleia Legistativa de Minas. Ela também é autora de “Licor de cassis”, lançado em 2014. Garanto que, na leitura de “Escrito na chuva”, logo nos identificamos com as confidências da autora. A escrita é leve, simples, poética.

Marisa Loures – Queria que começasse essa conversa contando como foi o processo de produção dos textos de “Escrito na chuva”. Eles começaram a ser produzidos quando faltavam 30 dias para o seu aniversário de 50 anos. Como se deu essa escrita? Foi um momento gostoso de se viver? Como você decidia o que seria assunto a cada dia?

Cláudia Gabriel – A produção desses textos nasceu de um desafio de estímulo para a escrita. Eu estava terminando uma pós-graduação em processos criativos e resolvi propor a mim mesma a ideia de criar algo diariamente. Era uma tentativa de encontrar espaço na agenda para esses textos subjetivos, já que trabalho com a objetividade do jornalismo a maior parte do tempo. Foi um período de reflexão também. E os assuntos iam surgindo naturalmente. Tive que abrir meus cinco sentidos para a inspiração – apurar principalmente a audição e a visão – porque as ideias vêm muitas vezes do que ouço e das imagens que estão no meu caminho. Além disso, as próprias situações que eu ia vivendo, os sonhos que eu tinha à noite, os meus “sonhos diurnos” e até fatos jornalísticos, como a queda de um avião no meu bairro nesse período de 30 dias antes do aniversário. Algumas ideias vinham na véspera. Outras só surgiam já à noite, quando, geralmente, tinha tempo para escrever os textos. Então, quando digo que não havia pretensão, é pela própria forma como o projeto foi concebido. Eu só queria escrever algo e não dava tempo para me aprofundar nos conteúdos, mas acho que uma frase que seja pode gerar reflexão. Então, eu não me policiava nem me cobrava. Foi um momento agradável porque é como se todas aquelas pessoas que me acompanhavam diariamente pelas redes sociais estivessem caminhando comigo para o que eu chamo de portal da chegada ao meio século.

– E escrever um livro é uma boa terapia? Ajuda a tornar mais leve a passagem do tempo?

Acho que é terapêutico sim, porque escrever ajuda a pensar. E refletir é sempre uma forma de enxergar perdas e ganhos por vários ângulos. Então, sim, traz leveza nesse sentido. E acredito ainda que tudo que é compartilhado e cria um diálogo com o outro acaba aliviando o fardo de guardar anseios e questionamentos. A identificação desse outro, no caso, o leitor, com a minha vivência, é outra forma de amenizar o peso do tempo.

– Por falar nisso, como é ter 50 anos? Já aprendeu a lidar com a nova idade?

Estou aprendendo. Agora, já tenho 51 e ainda enxergo novidades e desafios nesta fase da vida. Neste ano, por exemplo, meu colesterol, que sempre foi baixo, começou a subir sem que houvesse qualquer mudança na minha rotina. Ando cada vez mais dependente de óculos e costumo me cansar mais facilmente em atividades que antes eram muito tranquilas para mim, mas são limitações ainda muito fáceis de lidar. Ter 50 ou 51 anos, para mim, é meio como pisar num território novo, que é um pouco assustador, mas também cheio de novidades vindas de um olhar mais condescendente para a vida.

– E ali, naquele momento em que os textos estavam sendo produzidos, o livro já era um projeto real? Ou essa ideia surgiu depois, quando viu que outras pessoas na mesma faixa etária estavam se identificando com as histórias que você publicava nas redes sociais? Teve algum receio da exposição? Pergunto isso porque você divide com o leitor sua intimidade e também porque, como você mesma escreve, alguns preferem esconder a idade.

Como no meu primeiro livro, “Licor de cassis”, a ideia da publicação só veio depois, a partir do retorno dos leitores. No caso do “Licor de cassis”, eu tinha um blog que era apenas um espaço para compartilhar meus textos. No caso do “Escrito na chuva”, comecei mesmo só por aventura e sem pensar em livro. Quando o desafio acabou, no dia do meu aniversário, 21 de abril, eu já havia recebido várias mensagens perguntando sobre um novo livro. Mesmo depois disso, ainda pensei, criei novos textos e fui amadurecendo a ideia até achar que, sim, havia um livro a ser publicado. Além dos 30 textos, há outras crônicas, poemas e pequenos contos que não foram criados nesse desafio, mas que conversam com os outros textos. A exposição é sempre algo difícil para mim, mas procuro vencer o medo, convencendo-me de que alguém pode se interessar pelo que parece pessoal, mas pode ser universal. Sobre revelar minha idade, nunca tive problemas com isso. Acho importante, inclusive, para minha identidade.

– Para muitos, as angústias com a chegada dos 50 anos pode parecer um exagero. Para nós, mulheres, não. Você ainda tem a questão de estar na TV, trabalha com sua imagem. Acha que isso pode ser um gatilho para essa sua reflexão sobre o tempo?

Acredito que sim. Trabalhar com a imagem gera sempre reflexão sobre o que está dentro e o que está fora. Sobre o privado e o público, sobre o que você mostra ao outro porque quer impressionar e sobre o que guarda para não se expor. Há todo um processo psicológico aí que não tenho muito argumentos para desenvolver, mas falo da minha experiência. A chegada à maturidade suaviza um pouco essa preocupação permanente com o olhar do outro. Quando, em tese, tem-se menos tempo pela frente, você começa a valorizar o que realmente importa na vida, e isso está muito mais dentro do que fora da gente.

– A crônica “Sonhos têm fome” é encerrada com um trecho da música “Coisas da vida”, de Rita Lee: “Eu não tenho muito o que perder, por isso jogo. Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonho”. Fiquei curiosa para saber se você tem “sonho de estimação”. E “sonhos-desejos”?

Meu sonho de estimação é algum dia ter mais tempo para me dedicar à literatura. Hoje, minha rotina ainda é muito consumida pelo jornalismo, que é minha atividade profissional e que adoro também, mas nem sempre sobra espaço para a criação. Adoraria poder viver como escritores que dedicam várias horas do seu dia à escrita literária. Ainda não consegui encontrar esse espaço na minha agenda corrida. Já meus sonhos-desejos seriam fazer uma tatuagem discreta e cheia de poesia e de sentido para mim, provar ainda muitas comidas lindas e saborosas, ser mais leve e minimalista, voltar a viajar muito e sem medo. Isso era algo tão comum e que se tornou tão extraordinário durante a pandemia.

– Juiz de Fora, sua terra natal, está presente em alguns textos. Como é sua relação com a cidade? O que ela representa para você? Em “Casos do acaso”, você escreve sobre um dia voltar a viver aqui. Pensa em como seria esse retorno?

Juiz de Fora é minha terra-mãe. É onde mora boa parte do meu afeto. Aqui em BH, as pessoas se cansam de ouvir elogios a minha cidade. Adoro as pessoas, as ruas e galerias, a pipoca com queijinho do calçadão, o bolo com sabor de infância da Casa Brasil. Toda vez que fico um tempo maior aí, como no inícioda pandemia, volto com dificuldade de adaptação a Belo Horizonte, mas também amo BH. Então, no futuro, quando me aposentar, penso em me dividir entre essas duas cidades tão significativas para mim.

– Em “Escrito na chuva”, você dialoga com seus leitores através de crônicas. Esse é um gênero textual que nasce no cotidiano. Como foi trabalhar com as coisas do cotidiano, escrever sobre assuntos, às vezes, banais, simples, mas que podem trazem algo de surpreendente, suscitar reflexões profundas, quando mudamos nosso ângulo de visão? Você exercitou esse olhar sob novos ângulos para encontrar as histórias que iria contar?

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Há uma frase da Adélia Prado que adoro e que diz muito sobre isso. Ela afirma que, de vez em quando, Deus lhe tira a poesia, que ela olha pedra e vê pedra mesmo. Eu acho que, para o escritor, isso é desesperador, porque a gente pode ver pedra e pensar em força, em dureza, em resistência e até num amor duradouro. O que venho buscando diariamente é exercitar esse olhar, e o desafio dos 50 anos me permitiu apurar essa visão mais subjetiva. Num dos textos, por exemplo, vejo cacos de um copo quebrado na minha cozinha e enxergo dores, medos, pedaços de histórias que vivi.

– “Escrito na chuva” integra um projeto maior. Você criou echarpes e lenços com fragmentos de seus textos. Essas echarpes e os lenços estão sendo vendidos? Onde? Por que colocar poesia nessas peças?

Essas echarpes foram concebidas durante o meu curso de processos criativos. Eu buscava um novo suporte para os meus textos, além do papel, e queria algo que pudesse sair para as ruas, levando essas palavras pelo caminho. Como me interesso muito pela área de moda e minha orientadora também, acabamos chegando a esse acessório. O interessante do lenço é que ele carrega a imagem da fluidez e da transparência. Quem usa a echarpe, pode escolher qual palavra quer mostrar, criando assim uma nova poesia. Quem passa na rua e lê o que está no lenço também passa a ter essa liberdade de interpretação e, por que não, de criação. Os lenços estão à venda na loja Bem Mineiro em Belo Horizonte, pelo instagram da loja (@lojabemmineiro).

– No texto “Bem na própria pele”, você fala sobre a vaidade. Diz que, para você, ela “está associada a nossa preocupação com o que o outro pensa, com a mensagem que se quer passar ao mundo.” E qual é a mensagem que quer passar ao mundo com o seu livro? O que espera despertar em quem o lê?

Acho que o leitor tem a autonomia do olhar, que é uma das coisas mais interessantes na literatura. Muitas vezes, ele lê o que o autor nunca escreveu. Mas, se eu puder passar algo, seria que o amadurecimento pede leveza e que espero que o peso dos anos seja como aquela areia fininha da ampulheta, que escorre suavemente e sem sobressaltos. Quero muito acreditar que a vida pode ser boa em qualquer idade.

“Escrito na chuva”

Autora: Cláudia Gabriel

Editora: (Pomar de Ideias, 128 páginas)

 

 

 

 

Crônica de “Escrito na chuva”

Por Cláudia Gabriel

Quantos anos eu tenho?
É como se estivesse com a água já na altura dos cotovelos, numa piscina funda… Que antes enchia lentamente… E que agora sobe em ritmo acelerado! Foi essa a imagem que me veio quando pensava numa pessoa que caminha para
os 50 anos. Daqui a exatos 30 dias, completo meio século sem saber como cheguei a esse portal. Como cabem tantos aniversários dentro de mim? Como eu pulei dos 20 aos 50? A menina aí da foto, em preto e branco, continua guardada com todas essas carinhas e sentimentos. Bem mais cansada, com algumas dores, precisando de
óculos não só para fazer pose.
Não quero festa, mas também não quero esconder a idade. Infelizmente, isso não me faria nem um dia mais nova. E digo “infelizmente” porque se há o que celebrar também há o que lamentar. Sempre há.
Neste último mês de 49 anos, espero escrever algo por aqui. Muita gente vai achar bobagem. Minha afilhada Clarinha, que acompanha todos os meus textos, com seus dez anos vai ler em outra língua. É pra ela que eu quero dizer: aproveita tudo porque a vida é como aquele passarinho que passou ali ainda agora. Quem quiser
me seguir neste passeio, meio cheio de pedras, seja bem-vindo. Que meu “inferno astral” venha fantasiado de paraíso…

21 de março de 2019

 

 

 

 

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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