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Inspirado em Mafalda, o escritor carioca Virgilio Magalde lança “A Maria que não vai com as outras”

Por Marisa Loures

07/04/2020 às 08h58 - Atualizada 07/04/2020 às 09h10

Por meio de Maria, Virgilio procura revelar como a interpretação do público infantil sobre a vida adulta é peça importante para grandes transformações ao longo dos anos – Foto Divulgação

A história que trago, hoje, para você, é a da Maria, mas não é qualquer Maria. É a que não vai com as outras. Isso mesmo. Ela é uma garotinha que não aceita fácil as explicações que os adultos dão para ela, questiona mesmo. Sabe com quem ela se parece? Com a Mafalda, aquela personagem criada pelo cartunista Quino e que aborda temas, supostamente, distantes do universo dos pequenos. É claro que o criador da Maria, o professor e escritor carioca Virgilio Magalde, buscou inspirações na menina argentina para inventar a sua protagonista brasileira, e o resultado deu muito certo. As peripécias dessa personagem estão no livro “A Maria que não vai com as outras”, disponível em e-book, na Amazon.

E sabe de uma coisa? Virgilio nos faz acreditar que, realmente, estamos diante de um texto escrito por uma criança.  A maria é muito simpática. Ela é uma garotinha, mas o livro em que ela “brilha”, de tantos ensinamentos que nos traz, é voltado para os que já cresceram. A proposta da obra é atingir pessoas que “querem mudar o mundo”, “por meios dos olhos inocentes de uma menina questionadora”. Ela é tão esperta que, na tentativa de entender os mais crescidos, elabora um “dicionário de adultos”.

“Maria decide criar um dicionário para entender melhor sobre a vida e também por acreditar que as explicações dos adultos estavam bem furadas. Esse dicionário é a sua visão simples, e, ao mesmo tempo, fascinante sobre o que aprendeu sobre o amor, preconceito, conflitos, amizade, trabalho, dinheiro, felicidade e vida. Antes de cada definição, ela vai contando histórias que serviram de base para criar o significado de cada palavra, assim podemos entender melhor o mundo de Maria e ir descobrindo junto com ela sobre a vida”, conta Virgilio, que tem a proposta de direcionar toda a renda alcançada com a venda de “A Maria vai com as outras” a projetos sociais que envolvam crianças e educação.

Agora, vamos partir para o bate-papo com o autor, mas, antes, tenho que dar a palavra à protagonista dessa história: “Eu me chamo Maria, mas não vou com as outras. Eu vou é comigo mesma. Eu gosto muito de entender as coisas. Tanto que fico tentando entender os adultos, mas às vezes me parece uma tarefa impossível. A professora me disse que existe um livro que nos ajuda a entender o que significam as coisas. Fui procurar um na biblioteca, mas ele estava todo errado. Decidi então escrever o pequeno dicionário de adultos para que eu possa me inteirar sobre eles — o que me aguarda quando crescer — e para poder ajudar também meus amigos. Sou eu mesma, Maria. P.s. Isso eu aprendi com os adultos, a sempre assinar. Quando crescer, eu vou ter que ficar afirmando que sou eu mesma o tempo todo, aí já estou praticando.”

Marisa Loures – Não é muito comum encontrar alguém da área de exatas com uma afinidade tão grande com a literatura. Apresente-se. Quando e como você começou a flertar com as palavras?

Virgilio Magalde – Olá! Eu sou o Virgilio, sou autor de dois livros publicados (“A Maria que não vai com as outras” e “Estado de poesia”), professor, e minha formação é em engenharia elétrica. Realmente, isso, geralmente, gera um espanto nas pessoas, mas a literatura entrou na minha vida para balancear os inúmeros cálculos e pensamentos lógicos da área de exatas. Em me lembro com 21 anos, quando já não aguentava mais passar de uma aula de cálculo para física e depois geometria. Não havia espaço para a imaginação, pensamentos abstratos e para me divertir com histórias. Foi nessa época, tardiamente, que li o meu primeiro livro: “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. A partir dessa leitura, o flerte com a literatura brasileira e mundial começou. Foi uma forma, como um remédio, para conseguir passar por aquele período intenso.

“Mudar o mundo tem a ver com o nosso espírito jovem e engajado, que acredita em deixar a sua marca para reduzir os conflitos e desigualdades nessa vida. Mas essa é uma questão bem difícil, né? Mudamos o mundo, mudamos as pessoas ou mudamos a nós mesmos? O livro se baseia nessa última vertente. Acredito que o “erro” é que crescemos demais e nos tornamos muito sérios, complicados e preocupados.”

– Seu livro chegou para mim com a seguinte informação: “Para pessoas que querem mudar o mundo, o escritor Virgilio Magalde apresenta o ‘dicionário de adultos’ por meio dos olhos inocentes de uma menina questionadora”. Por que mudar o mundo? E como é esse mundo que essa menina questionadora (e você, autor) procura?

Mudar o mundo tem a ver com o nosso espírito jovem e engajado, que acredita em deixar a sua marca para reduzir os conflitos e desigualdades nessa vida. Mas essa é uma questão bem difícil, né? Mudamos o mundo, mudamos as pessoas ou mudamos a nós mesmos? O livro se baseia nessa última vertente. Acredito que o “erro” é que crescemos demais e nos tornamos muito sérios, complicados e preocupados. Com isso, criamos barreiras e nos isolamos das pessoas e também de uma parte importante nossa: a criança interior. Procuramos a felicidade num consumo desenfreado, escolhemos profissões muitas vezes baseadas apenas no retorno financeiro ou histórico familiar, vivemos crises de ansiedade por quereremos ter o controle das situações, e a depressão cada vez chega perto dos nossos lares.  No livro, a minha proposta é relembrar e resgatar a criança que fomos um dia. Aquela criança questionadora, inocente, que acreditava em si, solidária, livre, que se divertia, que nada parecia impossível, que não se importava tanto com o que os outros pensavam e que gostava mesmo é de estar com seus amigos e com a sua família. Maria vê o mundo dos adultos como um mundo confuso, sem brincadeiras, com poucos risos, com pouca autenticidade e quase sem liberdade para fazer o que realmente se gosta. Maria deseja um mundo onde os adultos não se esqueçam das suas crianças interiores e que seja mais harmonioso e, para isso, questiona conceitos sobre amor, trabalho, conflitos, amizade, felicidade, vida e muitos outros, e busca reescrevê-los com o seu olhar sobre a vida. Com isso, ela promove uma mudança em todos a sua volta – de amigos a vizinhos, professores e familiares.

“A gente precisa de movimentos grandes de mudança onde não importa a religião, classe social, partido político, gênero, sexualidade, etnia, raça e qualquer outra classificação. Esse é meu lado meio Maria.”

– Por falar nisso, na capa, temos a Maria, protagonista da história, segurando uma placa com os seguintes dizeres: “Procura-se adultos que queiram mudar o mundo”. Antes da leitura do livro, essa ilustração me passou a ideia de que a tarefa dessa menina não é lá muito fácil. Acha que, na vida real, está muito difícil encontrar pessoas que queiram abraçar essa causa?

Não acho difícil de encontrar essas pessoas, o difícil mesmo é agir, sair da inércia, sabe. Sei que algumas delas estão desacreditadas seja por falta de esperança ou por terem participado de algo que, no final, se perdia em agir de forma correta e ética. As pessoas, em geral, desejam um mundo melhor, possuem uma necessidade de contribuir e são solidárias em causas sociais. Acredito que até quem está desacreditado, vendo um resultado poderá agir em prol de uma causa. Entretanto, eu vejo que o difícil é ter uma unidade, uma união, um movimento amplo nisso. As pessoas estão acostumadas a realizarem ações isoladas ou em pequenos grupos. A gente precisa de movimentos grandes de mudança onde não importa a religião, classe social, partido político, gênero, sexualidade, etnia, raça e qualquer outra classificação. Esse é meu lado meio Maria (risos)

– E de onde veio essa ideia de criar uma personagem infantil que elabora um “dicionário de adultos”? Conte-nos como foi o contexto de criação dessa menina. Fiquei curiosa, porque ela nos diz que você a criou de tanto que ela falou na sua cabeça. 

Ela não é fácil, já me deixou de “saia justa” aqui. Faz tempo que eu queria escrever um livro com uma protagonista infantil, treinando um olhar meu mais inocente sobre o mundo, e, no final de 2019, comecei a ter ideias de como fazer. Posso dizer que esse momento chegou e, repentinamente, surgiu Maria na minha cabeça. A única saída que eu tinha era sentar e libertar esse lado meu que queria contar uma história e escrevê-la. Em uma semana, terminei o livro, e foi uma catarse de coisas que vivi na infância e de coisas que gostaria de ter vivido. Ah, e com um olhar, com um humor e personalidade bem mais interessantes que as minhas da época.

– Sei que a Mafalda é uma das suas inspirações para a criação da Maria. Quais são as outras?

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Mafalda é sim e, com certeza, seria a melhor amiga da Maria, as duas têm um humor maravilhoso. Outra inspiração é O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Quem não se encanta com a sua visão poética sobre a vida? Uma terceira é do livro “O paraíso são os outros”, de Valter Hugo Mãe. Sou fã dele e da sua escrita. Esse livro me permitiu ver que é possível escrever com a doçura de uma criança.

“Não poderia escrever um livro sobre esse tema sem que ele não gerasse também uma mudança em mim. Já que desejo uma mudança, que ela comece pelo próprio autor, não?”

– O lucro com a venda deste livro será todo revertido para projetos sociais que envolvam criança e educação. Por que essa decisão? Aproveite e conte-nos sobre o projeto social Literança.

Não poderia escrever um livro sobre esse tema sem que ele não gerasse também uma mudança em mim. Já que desejo uma mudança, que ela comece pelo próprio autor, não? Dessa perspectiva, nasceu o Literança, um projeto social que incentiva ações educativas com crianças. Todo lucro do livro será revertido para projetos sociais promovendo a educação por meio da literatura, seja na doação de livros, criação de bibliotecas, contação de histórias, oficinas, etc. É a forma de a Maria “sair” do papel e alcançar novos lugares. É uma proposta minha também de saber até aonde um livro ou uma história vai.

– No final do livro, a Maria apresenta-nos você, o autor. Ela diz que, com este livro, é a primeira vez que ela aparece. Também promete nos contar sobre a “vida” no próximo livro. A intenção é que essa personagem continue em outros projetos?

Com certeza, eu tenho a intuição de que a Maria está apenas começando e que esse foi só o seu primeiro livro. Eu gostaria de rir mais com ela e contar novas histórias. Eu, particularmente, sinto falta de uma imagem dela. Acho que seria maravilhoso Maria em tirinhas, quadrinho ou gibi. Será que o Mauricio de Souza também está lendo a gente? Quem sabe…

– No livro “Estado de poesia”, você traz 78 poemas que falam sobre o amor, assunto que também aborda em “A Maria que não vai com as outras”. É um tema que o inquieta?

Com certeza, é um tema universal e acredito que não haveria poesia se não houvesse o amor. O amor é esse combustível que permite isso tudo acontecer. Embora eu tente, a todo momento, descrevê-lo em meus livros, publicados e não publicados, ainda estou longe de uma síntese perfeita. Mas, graças a isso, que escrevo!

– Muita gente está usando os dias de isolamento para colocar a leitura em dia. Além do seu livro, quais outras obras você indica para esse momento?

“Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Foi o livro que me permitiu ter gosto por literatura, e acho um livro maravilhoso para começar nesses dias. De qualquer forma, Capitu traiu ou não traiu? “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Márquez. Nada mais e nada menos que o principal livro de um dos mais renomados escritores do mundo, além de ser um livro completo para o nosso imaginário e uma história maravilhosa. “Atenção plena: Mindfulness”, de Mark Williams e Danny Penman. Nesse tempo de isolamento, é importante a gente reconhecer e entender as nossas emoções, processar o que está acontecendo fora e dentro da gente e a reestabelecer a nossa serenidade, por isso indico também um livro sobre atenção plena e meditação. Espero que gostem das dicas e foi um prazer estar aqui!

Sala de Leitura – Segunda-feira, às 9h40, na Rádio CBNJF (FM 91,3)

“A Maria que não vai com as outras”

Autor: Virgilio Magalde

Disponível em e-book na Amazon.

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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