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A juiz-forana Michele Valle participa da Bienal do Livro do Rio com lançamento de contos em cinco antologias diferentes

Por Marisa Loures

03/09/2019 às 11h24 - Atualizada 03/09/2019 às 11h12

 

Michele Valle é membro da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora (LeiaJF) e é uma das responsáveis do projeto “UTI literário”, realizado no CTI cirúrgico da Santa Casa – Foto Divulgação

É a primeira vez que Michele Valle participa da Bienal do Livro do Rio de Janeiro como autora. E sua estreia nessa, que é uma das maiores feiras literárias do Brasil, se dá de maneira inesquecível para essa juiz-forana de 33 anos. Isso porque ela participa com o lançamento de contos em cinco antologias de gêneros diferentes. Lançada no último sábado, “O mal nunca morre” (Editora Rico) aposta no terror e no suspense. Por isso, Michele preparou, para ela, uma narrativa sobre assassinos da ficção, e outra sobre assassinos da vida real. No mesmo dia, o público conheceu a obra “Se toca” (Editora Rico). Como o gênero, desta vez, é o drama, a escritora, escreveu sobre fé e esperança.

Já, no domingo, foi a vez de lançar “Cicatrizes da alma” (Editora Rico) e “Mascotes: amor para a vida toda” (The Books). Na primeira, ela participa com um texto sobre suicídio; enquanto, na segunda, escreve sobre o seu amor por animais. E, finalizando sua maratona literária, “O baile” (Editora Rico) está sendo aguardada para o dia 7 de setembro. Nessa obra, o texto de Michele aborda conflito, amizades e amores impossíveis durante a Segunda Guerra Mundial.

“São antologias pensadas e produzidas com muito carinho. Cada uma com sua particularidade, mas todas com um único objetivo: encantar, entreter, orientar, refletir e, acima de tudo, incentivar o amor à leitura. Cada conto merece ser lido, seja ele para emocionar, amedrontar, suspirar. Além de contar com um time incrível de autores”, destaca a escritora, que seguiu viagem, na última sexta, repleta de expectativas. “Novas experiências, amizades, contatos, trocas de ideias. É sempre bom estar cercada por livros e lindas histórias. O ambiente respira sonhos e isso me inspira. Estou muito feliz por estar pela primeira vez em uma Bienal de tamanha magnitude, e a felicidade ainda é maior por estar como autora. Serão dias maravilhosos.”

 Michele Valle é fisioterapeuta. Ao lado do amigo, escritor e médico Artur Laizo, está à frente do projeto “UTI literário”, realizado no CTI cirúrgico da Santa Casa desde dezembro de 2018. Tem contos publicados em antologias no Brasil e na Europa. Também é membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance, Suspense e Terror (Aberst) e da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora (LeiaJF).  Além dela, a LeiaJF enviou para a bienal Artur Laizo, Emanuelle Ferrugini, Maga San e Marisélia Souza.

Marisa Loures – Um dos contos que você escreveu fala sobre suicídio. Na sua página no Facebook, você diz que está em nossas mãos a solução para que o suicídio acabe. Você acredita que seja dever da literatura e da arte em geral atuar para ajudar a sociedade com questões delicadas como essa?

Michele Valle – Está em nossas mãos termos mais responsabilidades sobre os outros. Deixarmos alguém com palavras de carinho, incentivar, amar, respeitar e ser gentil fazem com que o “outro” se torne um ser único. Em alguns momentos, as pessoas precisam apenas de um “vai ficar tudo bem!”, “Tô aqui por você!” e “Eu te amo!”. Claro que isso tudo é uma somatização,  mas, se tivermos atitudes como essas, tenho certeza de que já estamos a meio caminho andado. A arte tem papel fundamental na orientação, aproximação e acolhimento. Falar sobre o tema sempre será importante!

– Esse conto e outros textos seus trazem algo das suas vivências?

Há sempre um pouco de nós em cada conto. Desde o processo de criação até a finalização do conto. Na antologia “Se toca”, (tema que aborda o câncer de mama) consegui passar um pouco de minha experiência pessoal e foi, sem dúvidas, uma experiência sobre a qual tive o prazer de escrever.

– Escrever um conto cujo objetivo seja aterrorizar o leitor não parece ser nada fácil. O escritor corre o risco de não alcançar tal objetivo. O que esse texto tem que ter para ser amedrontador? E você apostou em qual ser mal-assombrado?

Sim! Escrever sobre o gênero terror é aguçar o leitor. Todos nós somos movidos por medos, e é este medo que nos permite sempre estar em alerta. Procuro sempre entender o que causa mais medo nas pessoas, e me baseio nessas respostas para a construção de um personagem e ou uma história. Existem personagens icônicos no “mundo do mal”. Confesso que tenho os meus preferidos como Drácula, Frankenstein, Jason e Michael Myers. Personagens que ainda, em pleno século XXI, aterrorizam nossas noites. É preciso reinventar sempre! Personagens velhos com histórias novas ainda nos fazem perder noites de sono, e é nessa premissa que busco reinventar esses personagens e reescrever essas histórias.

“Meus personagens se parecem com todos nós, eles têm medos, sentem raiva, amam, choram, sorriem. Então procuro construir minhas histórias baseadas nas experiências que tenho com os seres humanos. Por que não olhar para o escuro e pensar que tem alguém nos observando? É a imaginação que nos mantém vivos.”

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– E você se identifica com seus personagens e acredita nas histórias que cria?

Alguns personagens são muito macabros, mas dizem que devemos tirar o lado bom de tudo. Então, sim. Procuro sempre fazer com que meus personagens aprendam algo, isso é importante para a construção de qualquer um. Aprender sempre é necessário, seja para um vampiro ou para o príncipe. Meus personagens se parecem com todos nós, eles têm medos, sentem raiva, amam, choram, sorriem. Então procuro construir minhas histórias baseadas nas experiências que tenho com os seres humanos. Por que não olhar para o escuro e pensar que tem alguém nos observando? É a imaginação que nos mantém vivos.

– Você é fisioterapeuta. Quando e como você decidiu se aventurar no universo literário? Quais são suas referências?

Sou fisioterapeuta há exatos 5 anos, mas sempre gostei de ler e escrever. Escrever, talvez, com um pouco mais de timidez. Mas a escrita sempre fez parte da minha vida. No colégio, adorava trocar aqueles papéis de carta com lindas mensagens para minhas amigas. E, reescrever as matérias de sala de aula da forma como eu entendia, também contribuiu para minha visão crítica. Meu maior incentivo para me aventurar com a escrita profissional foi acreditar em mim, além, é claro, do incentivo do meu esposo Fabiano Galvão. Sempre gostei de ler histórias com mulheres fortes, terror e poesia. Tenho grandes referências no mundo literário, como Jane Austen, Agatha Christie, Mery Shelley, Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes entre tantos outros que somaram para minha construção literária.

– Seu trabalho como fisioterapeuta, de certa forma, dá a você matéria-prima para seus textos…

Sempre. Cuidar e se doar aos outros é a maior fonte de inspiração que alguém pode ter. A cada atendimento, novas histórias e experiências. Os pacientes relatam suas vivências, seus medos e suas incertezas, e isso sempre é uma excelente forma de ver a vida e de reescrevê-las. Umas com finais felizes, e outras, nem tanto, mas sempre com uma lição.

“É extremamente gratificante ouvir um “obrigado” do fundo do coração e saber que você faz ou fez a diferença na vida de alguém. Seja pela literatura, seja pelo simples atendimento humanizado. Ajudar significa ser ajudado e não existe melhor sentimento que a gratidão.”

– A propósito, sua literatura ajuda a humanizar o CTI de um hospital. Mas você também acaba sendo “ajudada”. É uma via de mão dupla. Estou certa?

Criamos recentemente o projeto “CTI Literário”. Ele conta com a participação de uma equipe multidisciplinar: técnicos em enfermagem, fisioterapeutas, enfermeiras, psicólogos e médicos que contribuem e incentivam a iniciativa. Tudo de bom que você faz há alguém, o retorno é sempre gratificante. Nós doamos, mas também recebemos amor e carinho, e muitas vezes em dobro. É extremamente gratificante ouvir um “obrigado” do fundo do coração e saber que você faz ou fez a diferença na vida de alguém. Seja pela literatura, seja pelo simples atendimento humanizado. Ajudar significa ser ajudado e não existe melhor sentimento que a gratidão.

– Você e outros escritores da LeiaJF estão indo para a bienal. Essas iniciativas têm trazido bastante retorno para a literatura aqui da cidade?

Sinto-me extremamente honrada e feliz por fazer parte da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de JF. E acredito que, juntamente com todos os membros, nossas iniciativas só têm a agregar para nossa cidade. Hoje a Liga realiza um trabalho incrível com escolas, o Museu Mariano Procópio, hotéis, shoppings e feiras literárias. O maior retorno que um escritor pode ter é o de propagar a literatura e incentivar crianças e adultos a lerem e a sonharem.

Sala de Leitura – Sábado, às 10h15, na rádio CBN Juiz de Fora.

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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