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João Paiva: “Quero fazer com que as pessoas problematizem a vida, o sistema, o mundo, e quero conseguir viver da arte que faço”

Por Marisa Loures

03/03/2020 às 07h00 - Atualizada 05/03/2020 às 14h23

MC, slammer e professor da rede pública de Minas Gerais, João Paiva faz uma poesia de guerra, direcionando suas palavras para o que o incomoda – Foto de Airton Jesus

João Paiva é MC. Faz poesia de guerra. Suas palavras estão sempre direcionadas para o que o incomoda e para o que oprime o homem. Não se conforma com a maneira do ser humano de não respeitar outros modelos, outras formas de vida. “Minha poesia, metaforicamente mesmo, é uma arma. É como eu vejo. No momento, o que me incomoda é a mesma coisa que sempre me incomodou: o jeito de o ser humano conduzir a sociedade, só que, no momento, eu tenho uma compreensão um pouco melhor do que é que leva o ser humano a conduzir as coisas dessa forma e que, no meu entendimento, é o sistema que a gente vive há 200 anos mais ou menos e que nunca deu certo. A gente tenta dominá-lo, mas, no final das contas, é ele que domina o ser humano. Minha poesia é uma arma direcionada não a pessoas, mas a ideologias que levam pessoas a serem quem são. O Criolo fala que as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Então acho que é por aí. Ninguém nasce ruim, as pessoas são levadas a serem do jeito que são e acho que mais de 90% da culpa disso é do capitalismo”, dispara o slammer de Belo Horizonte, morador da região do Barreiro, poeta marginal e professor da Rede Pública de Minas Gerais.

Autor do livro “Velho Barreiro” (84 páginas) que integra a coleção “Vozes coletivas”, organizada pela editora independente Venas Abiertas, ele passou por Juiz de Fora no dia 25 de janeiro, na primeira edição do Mais Um Slam, onde apresentou o show do seu primeiro álbum oficial, intitulado “A balada do guerrilheiro”. Nele, assim como no livro, o poeta traz fortes críticas ao sistema. “Mais uma dose de paz/ para esse povo sofrido/ que odeia satanás, mas/ não enxerga o real inimigo/ Ao lado/ Na forma de um fardado/ Ou engravatado…/ Então mais uma dose/ de amor e paz/ Embriaga esse povo que tá sóbrio demais/ vem aqui só para contar/ Conta os corpos,/ conta os mortos/ Conta histórias de progresso/ pro meu povo acreditar/ Que trabalho sem regresso/ é o ingresso para um lar/ Superior…/ Que certamente/ vão ganhar um lugar/ Ao lado do senhor/ Assim mais um Rei/ ergue seu trono/ sobre a nossa fome/ A hipocrisia da ONU/ já começa pelo nome/ Nações unidas o caralho?”, vocifera o MC em “Casa grande e senzala”, um dos 14 textos de “Velho barreiro”.

João Paiva foi campeão do SlamBR (Campeonato Brasileiro de Poesia Falada) em 2014 e também representou o Brasil na Copa do Mundo de Slam, em Paris, no ano de 2015. É na capital mineira que ele organizou, até 2017, com o Coletivo “Cabeçativa”, o Sarau Cabeçativa, projeto que circulava por praças da cidade. Ainda é um dos criadores da banda de rap/reggae IP420, atuante entre 2013 e 2017, tendo lançado o álbum “Intervenção doidin” em 2016.

“Se a gente pensar em lutar contra pessoas, estamos sendo tão fascistas como qualquer outra pessoa, que é o que levou o nazismo e outras ideologias a crescerem. É uma guerra que luta contra ideologias opressoras, violentas. Só que, às vezes, essas ideologias são tão violentas com a gente que a gente acaba devolvendo de uma forma violenta também, que é uma questão de ser humano.”

Marisa Loures – Você diz que faz uma poesia de guerra. Como é essa poesia?  Consegue se imaginar fazendo uma poesia que seja desvinculada da “luta de agora”, usando as mesmas palavras que você usa em um poema do livro “Velho barreiro”, lançado em 2019?

João Paiva – Não é uma poesia de guerra a esta ou aquela pessoa. Já achei que fosse a pessoas, mas hoje sei que é uma poesia de guerra contra ideologias, ideias, não lutamos contra pessoas, mas contra ideias. Se você mata uma pessoa que age movida de determinada maneira por uma ideologia, levanta outra no lugar movida pela mesma ideologia. Então, temos que matar ideologia e não pessoas. Se a gente pensar que tem que lutar contra pessoas, não somos diferentes de quem a gente critica, que são pessoas que, por exemplo, às vezes, querem colocar arma nas mãos das famílias e das crianças para elas se defenderem dos riscos da sociedade. Se a gente pensar em lutar contra pessoas, estamos sendo tão fascistas como qualquer outra pessoa, que é o que levou o nazismo e outras ideologias a crescerem. É uma guerra que luta contra ideologias opressoras, violentas. Só que, às vezes, essas ideologias são tão violentas com a gente que a gente acaba devolvendo de uma forma violenta também, que é uma questão de ser humano.

– Você fez questão de dizer: “na verdade, sou MC, né? Lancei um Cd em 2018 que se chama “A balada do guerrilheiro”. Qual a diferença entre o MC e o poeta?

O MC é um poeta. Só que nem todo poeta é um MC, levando para o lado dos conceitos mesmo. Todo MC é um poeta, porque a letra de rap é um poema. E toda letra de música é uma poesia. Independentemente de ideologia, de formas que se escreve, de gramática, toda letra, seja musicada ou não, é poesia. Então, todo compositor é um poeta. O MC é um mestre de cerimônia dento da cultura hip-hop, ele é uma pessoa que escreve uma poesia, coloca música nessa poesia, que é o rap, aí ele coloca essa música aliada a outro elemento do hip-hop, que é o DJ. São quatro os elementos do hip-hop: DJ, MC, grafiteiro e B-boy ou B-girl. Acho que não tem diferença, mas a questão é essa: todo MC é um poeta. Às vezes, o poeta só escreve e recita. Às vezes, nem recita. Ou pode ser um poeta e não ser um MC, mas é músico de outra vertente. O MC é um músico da vertente do hip-hop ou do funk.

– Em um dos poemas do livro, você faz duras críticas à escola. Diz que ela usa métodos arcaicos, “que nunca vão convencer”. De que forma o Slam vem ajudando a mudar a relação entre o estudante e a escola? Qual é o impacto do Slam na vida dos nossos estudantes?

Não sei se o slam ajuda a mudar a relação entre o estudante e a escola. Acho que o slam ou o sarau, a poesia marginal em geral, que não se resume só ao slam, ainda estão engatinhando para isso. A gente não pode se perder, é um espaço informal de educação. Agora, ajudar a relação entre o estudante e a escola ainda é um pouco difícil. Acredito que esses espaços de poesia marginal, de poesia política e crítica, que ensinam história, geografia, política atual e tudo o mais, são espaços alternativos à escola, são espaços de educação não formal, que usam uma linguagem mais apropriada, mais próxima do jovem para ensinar coisas que a escola está ensinando, só que com uma linguagem que já não cabe no contexto, porque a juventude muda muito, as gírias e o contexto dos jovens mudam muito e muito rápido. Então o slam, o sarau, o rap e o hip-hop são alternativas para isso. Cabe à escola trazer isso para dentro dela, se apropriar disso, para tentar passar os conteúdos que fazem parte de um sistema educacional e tal, para tornar o processo educacional mais agradável. Essa é a contribuição que o slam pode dar,  só que eu acho que a gente ainda está dando 1% do que pode dar. Está muito longe do ideal ainda.

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“Não faz sentido só a gente bater palmas e concordar com o outro, a gente tem que discutir nossas questões para conseguir evoluir. Está popularizando, mas tem que dar alguns passos para isso, não deixar a competição tornar o slam, simplesmente, um espetáculo, porque o sarau, o slam, a poesia marginal, são ações políticas que a gente tem que usar para mudar a realidade, mudar o que gente acha que está ruim.”

– Como professor, acredita que o Slam esteja popularizando a poesia?

Acredito que o slam está popularizando a poesia sim. O sarau é a forma que eu gosto mais de recitar. Não gosto muito de slam não. Apesar de participar, não gosto muito. O sarau é onde eu participo mais, acho que é mais livre, mais tranquilo. No slam, por ser uma competição, cria um clima meio tenso, cria uma rivalidade. Acho que, ao mesmo tempo em que deixa o processo um pouco mais atrativo, dinâmico, às vezes, deixa o processo um pouco mais tenso. Por isso, a gente tem que encontrar um equilíbrio e não se perder na questão de querer competir, porque o slam não é para se competir. A competição tem que ser um atrativo para a gente sentar e colocar nossas questões, que são as poesias políticas e tal e discutir essas questões. Não faz sentido só a gente bater palmas e concordar com o outro, a gente tem que discutir nossas questões para conseguir evoluir. Está popularizando, mas tem que dar alguns passos para isso, não deixar a competição tornar o slam, simplesmente, um espetáculo, porque o sarau, o slam, a poesia marginal, são ações políticas que a gente tem que usar para mudar a realidade, mudar o que gente acha que está ruim. A competição tem que ser um meio para chegarmos ao fim e não ser o fim. Se a gente forçar só em ganhar, todo mundo perde, porque a gente está digladiando, e, enquanto isso, o sistema continua oprimindo a gente.

– Você esteve em Juiz de Fora recentemente, na edição de estreia do Mais Um Slam. Deu para sentir como está o cenário da poesia falada aqui em Juiz de Fora?

– Foi a terceira vez que fui a Juiz de Fora participar de eventos de poesia. Fui no final de  2018, comecinho de 2019 e agora em 2020. Sinto que é um cenário promissor, digamos assim, mas que ainda tem muito a aprender também, porque, aqui em BH, a gente começou o slam em 2014, e acredito que a gente ainda tem muito o que aprender. Em juiz de Fora, acho que o slam chegou em 2017, se não me engano, ou 2018. É promissor, mas tem questões ainda a se discutir mesmo, questões ideológicas, de estrutura, tudo o mais, mas que todo mundo tem. Tem muito o que aprender também, tanto na questão do conteúdo das poesias, na questão da forma como se constrói a poesia. Em níveis de compreensão e de tempo de vivência, é isso que percebo.

– Aonde sonha chegar com a arte que faz?

Primeiramente, acho que sonho em chegar à mente das pessoas, fazer minimamente as pessoas pararem para pensar, refletir e problematizar coisas que elas acham que são normais. “Ah, é normal a minha rua não ter asfalto”. Atrás da minha casa, por exemplo, corre um esgoto a céu aberto. “Ah, é normal aqui onde a gente mora. A gente é pobre”.  Mas não é normal, não tem que ser. Quero fazer as pessoas problematizarem coisas que elas acham que é normal, mas que não são. Simultaneamente, quero tentar viver do que  faço, da arte, do que eu gosto, que é dar aula, ser professor e ser MC, que são as duas coisas de que mais gosto de fazer na minha vida. Quero viver dessas duas coisas, quero que elas paguem minhas contas para que eu possa me dedicar suficientemente a isso sem ter que me preocupar com meus boletos a pagar e tudo o mais. Mas acho que eu não preciso focar em ganhar dinheiro, preciso focar em passar uma boa mensagem dentro de um formato musical que as pessoas estão gostando mesmo, atualmente, para que cada vez mais pessoas possam querer ouvir minha música, e, através disso, a mensagem que eu quero passar chegue à casa delas. Então é isso: Quero fazer com que as pessoas problematizem a vida, o sistema, o mundo e, simultaneamente, conseguir viver da arte que faço, e a consequência é de fazer uma arte bem feita, com respeito e com responsabilidade.

“Velho Barreiro”

Autor: João Paiva

Editora: Venas Abiertas (84 páginas)

Sala de  Leitura: todo sábado, às 10h15, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,3).

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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