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José Renato Amorim faz reflexões filosóficas sobre o sentido da vida no livro infantil “A escola dos cereais”

Por Marisa Loures

01/10/2019 às 11h18 - Atualizada 01/10/2019 às 11h19

Em “A escola dos cereais”, que tem lançamento previsto para o próximo sábado, José Renato usa metáforas para conversar com as crianças sobre questões, como “Qual o sentido da minha existência?” “Que papel eu desempenho nela?” – Foto Divulgação

“A escola dos cereais – O sentido da vida” (Paratexto, 32 páginas) é o novo livro infantil do escritor sandumonense José Renato Amorim. Através do personagem Juninho, o autor conversa com as crianças, de maneira leve e abusando de metáforas, sobre questões, como “Qual o sentido da minha existência?” “Que papel eu desempenho nela?” “Está cada vez mais comum vermos jovens e adultos, uma parcela com idade avançada, procurando especialistas, como médicos, psicólogos, terapeutas, coaches e até líderes espirituais para buscarem o sentido da vida. Eles querem descobrir sua vocação, sua missão e um significado para sua existência. Nesse cenário, fiz as perguntas: por que não começar a tratar esse assunto mais cedo? Por que não colaborar com pais e professores nessa abordagem com as crianças? Por que não começar de forma lúdica e leve a colocar esse tema para que seja absorvido de forma natural e progressiva?”, indaga o escritor que, para trabalhar um conteúdo tão filosófico como esse com os pequenos, conversou com educadores, pedagogos, psicólogos, escritores e, é claro, com seu próprio público-alvo. “Teve também a participação de leitores infantis para que pudesse sentir a reação e a percepção desse público especial”.

Com lançamento previsto para o próximo sábado (05/10), a partir das 17h, no Espaço Excalibur,  o livro, ilustrado por Alberto Pinto, é o segundo trabalho de José Renato voltado para as crianças. Em 2017, o autor já havia experimentado como é escrever para a garotada ao lançar “Um, dois, feijão com arroz”, inspirado nas peripécias dos filhos Guilherme e Vinicius. Na entrevista de hoje, ele conta que a primeira obra era para ter ficado restrita a ele e seus familiares, mas ela acabou percorrendo outros caminhos.

José Renato é membro da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora (LeiaJF). Tem formação em direito e pós-graduação em Gestão de Serviço Bancário. Além de dedicar-se à literatura, faz palestras e atua como Coach. Quem quiser acompanhar sua produção, basta procurá-lo nas redes sociais. Seus livros estão disponíveis no site da editora Paratexto (www.editoraparatexto.com.br) e na livraria Excalibur.

“Com palavras e textos, faço minha parte para tentar mudar positivamente o mundo.”

Marisa Loures – Quem é o José Renato?

José Renato – Antes de tudo, pai e avô que vive agora um momento novo da vida. Fechei um ciclo profissional em dezembro passado quando me aposentei. A partir desse momento, tenho me dedicado a palestras e ao trabalho literário de forma mais intensa. Voltei a escrever contos, crônicas e poesias e me tornei membro da Leia JF (Liga dos Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora). Ressalto, contudo, que o gosto pela leitura e escrita vem desde criança. Aos 10 anos, recebi um prêmio como a melhor redação em minha cidade natal – Santos Dumont, porém não tive condição de ter uma vida dedicada a esse oficio. Mas, nos últimos anos, busquei esse resgate e fui encorajado ao ser premiado num concurso de poesias e premiado também em outro concurso de contos infantis. Participei, também, de uma antologia de contos fantásticos. Em 2017, publiquei o primeiro livro infantil, e, agora, o segundo, “A escola dos cereais – O sentido da vida”, cujo projeto é que seja o primeiro de uma série especial. Acredito no poder transformador da leitura e no efeito das metáforas na vida das pessoas, como é a proposta desse último livro. E, com palavras e textos, faço minha parte para tentar mudar positivamente o mundo. Ainda que seja uma pequena gota no oceano, creio que o oceano seria menor sem essa gota, parafraseando Madre Tereza de Calcutá.

– O personagem principal do seu livro é o Juninho. Apresente-o para o leitor.

Juninho é a típica criança na fase do porquê. Possui a curiosidade prazerosa da infância, aquela de fazer perguntas desconcertantes para adultos despreparados. Ele tem um perfil investigativo e perseverante. Relaciona-se bem com meninos e meninas de espécies diferentes. No livro, amarelos como ele, brancos, negros e verdes convivem harmonicamente. Juninho gosta de pesquisar fora da escola e na escola. É aquela criança que orgulha pais e professores e é estimado pelos colegas.

– É uma obra que trabalha um conteúdo filosófico sob a ótica infantil. A literatura é uma boa forma de transmitir, para o grande público, conhecimentos, como a filosofia?

Minha formação acadêmica é em direito, e minha especialização em Gestão de Serviço Bancário. Fui gestor da Caixa Econômica durante quase 30 anos. Logo, não possuo formação em filosofia, porém seria muita ingenuidade não perceber que nossa vida hoje, independentemente da atuação, tem influência dos grandes mestres da filosofia. Portanto, a literatura joga luzes sobre os temas e dilemas filosóficos vivenciados por todas as pessoas, no dia a dia, incluindo crianças. Espero que este livro ajude nesse papel e que um grande público seja atingido. Há um texto de Epicuro mais ou menos assim “Nunca protele o filosofar quando for jovem, nem canse de fazê-lo quando for velho, pois ninguém é pouco maduro ou maduro demais para conquistar a saúde da alma”.

– O livro é uma verdadeira metáfora sobre o sentido da vida. Se levarmos em conta que há diferentes repertórios que os pequenos autores trazem, é possível dizer que o seu livro é acessível a todas as crianças?

Tenho dito que o livro serve para todas as crianças de zero a cem anos ou de 5 a 105 anos. Exatamente por ser uma metáfora, ele pode ser aplicado para as crianças de todas as idades. Não importa o sistema de crenças das famílias, o nível social ou tipo de constituição familiar. Claro que a questão existencial tem um foco central, contudo podemos pegar somente a título de exemplo uma situação. Juninho reclama que não gosta do vento forte, e os professores mostram a ele o benefício. Independentemente do tipo de infância, qual criança não teve de ser contrariada em algum momento? Tomar um remédio amargo, comer um legume não apetitoso, ter um pai ou mãe mais exigente, ou seja, são “n” situações onde as crianças de todas as faixas podem facilmente se identificar.

– Como é escrever para a garotada?

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Minha entrada no mundo da literatura infantil foi com o livro “Um, dois, feijão com arroz”, em 2017. Ele foi baseado nas travessuras infantis dos meus filhos Guilherme e Vinicius. O rascunho foi feito quando eles eram crianças, porém ficou guardado numa gaveta. Cerca de 12 anos atrás, Guilherme faleceu num acidente e nem preciso dizer quanto foi doloroso para a família perder um filho de 18 anos de idade. Passados alguns anos e vendo que ainda era difícil para membros da família lidar com essa separação prematura, resolvi tirar o rascunho da gaveta. Fiz uma adaptação para que o livro encerrasse com a história dos meninos na adolescência. Foi uma forma terapêutica de lidar com o assunto e dizer que era importante guardar as boas lembranças e prosseguir. Contudo, o livro que deveria ser uma pequena edição só para a família e amigos foi bem recebido e elogiado também fora desse grupo e me encorajou a entrar nesta nova vereda. Além do livro “A escola dos cereais – O sentido da vida”, terei participação em uma antologia infantil que será lançada na Flijuf, a partir de 10 de outubro. No livro “As mais belas histórias”, da Editora Paratexto, participo com um conto intitulado ‘Silvestre, o caracol que não queria deixar rastros”. Esse conto foi premiado num concurso nacional e é repleto de lições importantes para crianças.  E por fim reforço que o projeto de “A escola dos cereais” é publicar outros livros com temas bem interessantes. Portanto, me sinto animado como o personagem Juninho, estimulado a buscar mais.  É um desafio, e, ao mesmo tempo, uma alegria escrever para esse público.

“Não me parece sensato, contudo não se pode escrever para crianças com foco predominantemente comercial. Isso me faz lembrar do texto de Rubem Alves sobre as escolas que são gaiolas e escolas que são asas. Fazendo uma analogia, gosto da literatura que dá asas. Se não podemos ensinar as crianças a voar, podemos, através da literatura, encorajá-las a voar. Essa literatura infantil, que leva cultura, arte, provoca o pensamento e faz sonhar e querer voar, é a que mais me encanta.”

– É muito comum vermos discussões sobre o papel utilitário da literatura infantil. Você acha que conferir a ela uma função específica é correto?

Como tudo na vida, é preciso ter equilíbrio. Não vejo como um erro perceber uma necessidade do público infantil e atendê-la através da literatura. Imagine alguém que descobre um remédio que pode curar uma criança e não o fabrica porque terá de cobrar para isso. Não me parece sensato, contudo não se pode escrever para crianças com foco predominantemente comercial. Isso me faz lembrar do texto de Rubem Alves sobre as escolas que são gaiolas e escolas que são asas. Fazendo uma analogia, gosto da literatura que dá asas. Se não podemos ensinar as crianças a voar, podemos, através da literatura, encorajá-las a voar. Essa literatura infantil, que leva cultura, arte, provoca o pensamento e faz sonhar e querer voar, é a que mais me encanta.

– Como trabalhar com a literatura infantil de maneira que ela seja uma forte aliada para o desenvolvimento das crianças, ultrapassando a perspectiva puramente didatizante?

Este livro “A Escola dos cereais” já é uma proposta não “didatizante”, pois conduz a uma discussão que vai além do curriculum escolar. Ele leva o leitor além da fronteira da literatura. É um convite à imaginação, à investigação, à discussão e ao contraditório. Portanto, sair do convencional e usar a metáfora como ferramenta é um dos recursos para uma obra não “didatizante”. Há muitos temas a serem abordados e espero que, nos próximos livros da série, seja possível a continuidade.

“Acho importante olharmos com atenção a cultura local. E não é simples bairrismo citar esses nomes, pois a maioria, além de escrever para crianças, tem uma vida ligada à educação infantil.”

– Poderia indicar alguns autores necessários à formação leitora das crianças? 

Estou falando para um Jornal de grande importância para Juiz de Fora e região e quero começar primeiramente evidenciando escritores da cidade. Dentre os membro da LeiaJF, por exemplo, temos vários com trabalhos relevantes para crianças, inclusive adotados por escolas. Cito Marisélia Souza, Emanuelli Ferrugini, Maga San, Alice Gervason, Vanda Ferreira, dentre outros. Claro que, fora da Liga, há muitos nomes, como Renata Aragão e outros talentos. Acho importante olharmos com atenção a cultura local. E não é simples bairrismo citar esses nomes, pois a maioria, além de escrever para crianças, tem uma vida ligada à educação infantil. No âmbito nacional, é difícil não citar os clássicos, como Monteiro Lobato, Ziraldo, Vinicius de Moraes, Raquel de Queiroz. Nomes que transcendem ao tempo na literatura infantojuvenil e que dispensam comentários.  Porém, há nomes menos conhecidos, mas fortes hoje, como Daniel Munduruku, Duda Machado, Odilon Moras, nomes premiados e que abusam da criatividade.

A escola dos cereais – O sentido da vida”

Autor: José Renato Amorim

Editora: Paratexto, 32 páginas

Lançamento: 5 de outubro, às 17h, no Espaço Excalibur (Rua São Mateus, 265, São Mateus).

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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