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Como vencer o luto – passo a passo

Por Nara Vidal

27/09/2020 às 06h55 - Atualizada 24/09/2020 às 20h56

Não se preocupem: este não é um texto triste. É um texto sobre a vida, afinal de contas, mas pontuado por saudade que engole a gente.
Um luto tem um tempo próprio. Alguns nem chegam a acontecer. Outros, profundos, cortam a carne lá dentro numa infecção que se alastra por todo o corpo vivo fazendo dele uma matéria podre. Esse tipo demora e nem sempre é possível ter tempo para desossá-lo, revisitá-lo, esgotá-lo. O ideal é sentir tanta dor, tanto desassossego, tanta solidão que uma hora nos cansamos do corpo morto que carregamos que pesa demais e largamos aquilo em algum canto como um indigente. É quando se caminha rumo as pazes que fazemos com a morte. Mas ainda não é tudo. Ainda não é o suficiente.

Equivocadamente, podem nos aconselhar a deixar que passe o tempo, a esquecer o assunto, abraçar distrações e formas leves de viver. Eu discordo: o triunfo sobre a morte acontece quando prestamos atenção nela. Devemos pensar na morte todos os dias, por prolongadas horas, nos atentar a cada detalhe e capricho seu, surpresas, cores e cheiros. Não é questão de tempo, mas de muita atenção. Nunca se esqueça da morte e ela se transformará nessa vulgaridade.

Uma forma de conviver com a morte é notar que a dor dilacerante começa a fazer o caminho inverso do profundo das entranhas. Vão saindo de dentro de nós cicatrizes cobrindo brechas feitas de um novo tecido cutâneo que é muito imperfeito, mas é mais resistente, menos frágil. Chega um dia em que olhamos nossas mãos e elas estão lá cobertas por pele novamente. Não sangram mais, não estão mais roxas e nem inchadas. Mal se nota as feridas. Há, então, um esvaziamento. Passamos a não nos lembrar tanto do morto, ainda que a morte esteja lá, colada em nós. Quando nos atravessa uma fotografia inesperada, sentimos um pequeno golpe. Uma relativa culpa por aquela imagem nos apanhar num momento contente e de distração. Somos surpreendidos. Estávamos bem e aí, aquela foto. Mas, surpreendentemente, voltamos a esquecer o morto. Na rotina que vamos complicando na intenção de simplificá-la, a figura que te fez chorar, que te fez querer morrer, começa a virar uma névoa e passa a ocupar o crescente departamento das lembranças. Agora já é possível rir quando revisitamos convivências.

A vantagem de aceitar a morte de alguém que amamos é poder, com o tempo, chegar cada vez mais perto da idade que ficou cristalizada. Quando minha mãe morreu, ela tinha sessenta e quatro anos. Eu vou fazer quarenta e seis. Estamos cada vez mais perto.

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À medida que eu vou envelhecendo, minha mãe se aproxima e se renova e nos reencontramos. Temos também em comum a ruptura. Ela morreu, eu me mudei de país. Minha mãe está reduzida ao que foi até os seus sessenta e quatro anos. Eu, para tanta gente, também fiquei lá suspensa em passado e expectativas que poucas vezes coincidem com o real processo do que nos tornamos, inevitavelmente causando decepções.

No decorrer da longa morte da minha mãe, que já dura onze anos, notei também que ela foi uma mulher. Entendi que às sextas-feiras ela sonhava enquanto se preenchia de cuba libre e música ao vivo no barzinho da cidade. Nada diferente do que eu faço hoje quando frequento festas e encontro delírios dentro de taças de vinho. É notável também me lembrar do seu senso de justiça atrelado à generosidade. Não falhava em distribuir atenção e igual amor a cada uma das filhas. Chegava a ser difícil identificar uma que fosse a preferida, fazendo com que cada uma tivesse tal certeza. Eu tenho certeza.

É um milagre a vida depois da morte, mas é bastante possível uma vez que aquele luto pesado é largado e abandonado no meio da terra batida e oferecido aos abutres que façam, sim, seu banquete e deem uma festa com o que não aguento mais carregar.

Essa semana que passou foi meu aniversário de mudança. Há dezenove anos fora de um país. Já são espaçadas as lembranças de rostos, objetos que parecem feitos de sonho. Não há tempo que apague a mãe, no entanto.

Se há quem fale com animais e plantas, deve ser aceitável que se fale com mães mortas, presenças fantasmagóricas, brumas finas e com cheiro de frutas tropicais e samambaias choronas que continuam fincadas no chão à nossa disposição. Conversar com a mãe é uma chance de desenterrar o seu vocativo que eu achei que nunca mais fosse usar. Vejam que, quem diria, eu acabei vencendo a morte.

Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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