Tópicos em alta: delivery jf / eleições 2020 / coronavírus / greve / polícia

Girassóis

Por Nara Vidal

26/07/2020 às 06h55 - Atualizada 25/07/2020 às 16h58

Semana passada, minha filha terminou a escola primária. Um turbilhão de emoções nos acompanha quando momentos marcantes assim acontecem. Isso não é característica minha; todo pai e mãe sente essa mistura de melancolia pelo passado e entusiasmo por um futuro que começa a ser escrito. Há uma inevitável vistoria feita dentro de nós nesse papel memorável que é o de pai ou mãe com acertos, erros, hesitações, certezas, boas intenções, sacrifícios. Somos todos feitos dessas emoções diariamente, mas quando uma etapa tão significativa assim se completa, é normal que haja reminiscência. Aquela foto do primeiro dia usando o uniforme, os olhos brilhantes de desconhecimento, curiosidade em contraste com a foto do último dia que traz uma mocinha de aparelhos nos dentes e que tem em comum com a menina de quatro anos os olhos brilhantes de desconhecimento e a curiosidade.

No último dia, depois de deixá-la no portão da escola, passei numa loja e comprei um buquê de girassóis. Eram para ela, parecem-se com ela. Quando ela chegou, entreguei-lhe as flores e ela se surpreendeu. Disse que era a primeira vez que ganhava flores e por isso estava mesmo virando gente grande. As flores eram para trazer cor e mais vida para casa, mas acima de qualquer coisa, eu queria agradecer a caminhada. Agradecer por ela ter deixado eu segurar a sua mão quando, tantas vezes, era ela quem me guiava. Várias vezes, eu nem sabia para onde estava andando e ela ainda assim, confiou em mim, de mãos firmes a, às vezes, olhos fechados.

O conteúdo continua após o anúncio

Agora, tenho diante de mim uma menina que cresce diante dos nossos olhos, se transforma por dentro e por fora a cada suspiro de saudade das gengivas banguelas que me mordiam o queixo quando tinha meses de vida. Um caminho a ser feito é uma coisa formidável. Como pai e mãe, a gente sonha, imagina, mas é para nunca nos esquecermos que os pés agora são dela, a vontade e os desejos são dela, a vida, enfim, é dela. Cabe a quem olha, a torcida, cabe estar a postos para qualquer eventualidade, cabe esperar que mude de ideia quando nos ignorar por anos e anos, cabe a nós o que não cabe mais a nós.

Para falar a verdade, acho que o que mais quero para ela é conseguir, ao longo do seu futuro, identificar os mesmos olhos cheios de brilho pelo desconhecido e repletos de curiosidade e que não lhe falta vontade de vida e girassóis. Planejar um futuro é um enorme privilégio.

Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia