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Bicho Papão

Por Nara Vidal

23/08/2020 às 06h55 - Atualizada 20/08/2020 às 19h13

Eu brinquei, mas brinquei tanto que só parei quando fiz treze anos e beijei um menino na boca pela primeira vez. Adorava brincar. Casinha, boneca, comidinha, professora. Brincava o dia inteiro e era a única coisa que me interessava durante a maior parte do dia.
Meus pais trabalhavam uma jornada inteira. Eu ficava toda tarde na casa da minha avó onde moravam, na casa ao lado, meu tio e minha tia.
Nas minhas brincadeiras eu era mãe de três filhos, era professora, fazia a comida, limpava e arrumava a casa. Basicamente, eu imitava a minha mãe. Minha família era uma como outra qualquer: meus tios nos contavam histórias, chamavam a minha atenção se eu fizesse algo errado, me davam doces escondido da mãe e antes do almoço, me levavam para passear, me falavam das plantas e dos bichos. Às vezes, contavam para mim e meus primos histórias de medo, assombração, fantasma. Mas na hora que a gente ia dormir, a família nos enchia de afeto, nos servia um copo de leite queimadinho, nos cobria com a flanela quente do mês de julho e a gente dormia os sonos justos de toda criança.
Em outro ponto do mundo, no meu futuro e quando eu já era adulta, teve uma menina que também adorava brincar. Brincava muito, mas era constantemente interrompida pelo tio que não estava para brincadeira. Ela também ficava com a avó. Bastava a menina começar a brincar e lá ia o tio cortar os sonhos e o divertimento da menina. Ela só tinha seis anos quando começou a testemunhar na própria carne tão tenra e nova a história de terror que ouvia dos livros, como se tivessem pulado as páginas e ido morar ali com ela. Coitada daquela menina. Do lado dela, um monstro causando terror, pavor e silêncio. “Se abrir a boca, o bicho papão te pega”. Mas já pegou, pensava a menina. Ainda assim, ela não dizia nada.
O que será que vem acontecendo na nossa sociedade quando grupos de pessoas acreditam ser razoável e aceitável que uma criança de dez anos tenha um filho? Só isso já é escandaloso. Mas e quando essa criança carrega o que achava que fosse dor de barriga, o que, de fato, era um feto fruto da violência na sua forma mais repulsiva e abominável de um tio? Quem são esses indivíduos que ignoram a barbaridade do crime cometido pelo parente da criança para alterar o foco do problema? Há um único criminoso nessa história e, até hoje, segunda-feira, ele está foragido. Se a energia e a determinação dessas pessoas fossem usadas para capturar o criminoso, estuprador e pedófilo que arrasou o bem estar de uma criança, traumatizando uma vida para todo o seu futuro, talvez esses crimes acontecessem menos. Não há Deus que justifique isso. Não há. Nunca haverá. Nunca! Eu, enquanto brincava de casinha, guardava minhas bonecas para dentro dos sacos de brinquedo ou caixas de presente no fim do dia. De lá não saíam a não ser no dia seguinte, quando eu acordava pronta para fazer o papel que me cabia: o de ser criança. Aos dez anos, essa menina já viu de frente o lobo mau, o bicho papão, a bruxa, a raposa, o monstro. Eu achava que fosse o tio representação nefasta mais que suficiente desse mal. Acontece que, pobre menina, quando voltar à vida, terá que olhar nos olhos quem lhe desejou a morte. Ou ser mãe aos dez anos através de um estupro é vida que se celebre? Afinal, de quantos monstros é feito o pesadelo de uma criança? Sinto uma incalculável vergonha de quem aponta o dedo para a criança. Erram o alvo. Erram feio.

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Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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