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Novo normal

Por Nara Vidal

16/08/2020 às 06h55 - Atualizada 12/08/2020 às 17h41

A verdade é que, quando as portas se trancam e a luzes se acendem dentro de casa, ninguém pode saber da vida de ninguém. Se você não faz parte de determinada família, você não sabe o que se passa dentro daquele íntimo que é a mesa do jantar. A coreografia dos olhos para baixo e para frente olhando as mãos que seguram a colher que entra e sai da sopa quente, grossa ou rala, dependendo da época, dependendo da família. Mas, mesmo com uma intimidade muito particular, uma coisa que todas as famílias comungaram foi o amargo desta pandemia. Ricos, pobres, mais ou menos. Do dinamarquês ao colombiano, todo mundo foi atingido em cheio por uma nova praga arrasando países e economias, mas principalmente essas mesmas famílias feitas de tantas partes e peças. Todos fomos atingidos indireta ou indiretamente. Houve quem perdesse a própria família. O fim da linha perder a própria família. Como é possível se levantar, olhar para frente, sentar-se à mesa do jantar mais uma vez com o peso das ausências? Na minha cabeça ecoa o número cem mil. Aqui na Inglaterra essa tragédia foi notícia: cem mil. São cem mil famílias, cem mil vidas e mundos que foram interrompidos pela completa incompetência da presidência. (Sim!) Uma falta de assistência mínima fez todo mundo se angustiar e sair para as ruas para ganhar o pão. É compreensível o desespero. Mas é inadmissível a falta de assistência que é negada ao cidadão brasileiro. Esse abandono jamais será esquecido pelo desrespeito, pela crueldade, pela indignidade.
O desespero pelo pão à mesa não muda de país para país. Onde tem uma família tem também preocupação em pagar contas, proporcionar estudos, manter a comida fresca. Mas é um sufoco. Digo isso por própria experiência. As oportunidades que vinham, passaram a encolher, algumas desapareceram por completo. Se é possível pinçar um ponto positivo dessa pandemia, talvez ter que ver o mundo de um outro ângulo seja um deles. Como se eu tivesse sido forçada a olhar para um lado que eu nem sabia que existia antes de todo este pesadelo. O fato é que, a partir da popularização dos cursos e da educação online, acordei um dia para a oportunidade de trabalhar daqui de onde moro com alunos de toda parte. Passei a oferecer cursos de literatura e arte online, e a boa e velha aula de inglês. Eu comecei a dar aulas de inglês quando tinha dezesseis anos para algumas crianças da minha cidade. Falávamos em números, cores, animais e partes do corpo. Desde então, nunca mais parei. Ajudei a desenvolver um conteúdo para um curso em Juiz de Fora que implementou uma ideia que eu tive, que era oferecer aos alunos horários mais longos para maior exposição e contato com a língua através da literatura como base do aprendizado. Dei aulas em cursinhos no Rio, Juiz de Fora e em Londres. Agora, de repente, posso abraçar novos alunos através do zoom, já que é o que temos e isso me faz sentir que o normal, como conhecíamos, talvez nunca mais volte. O desemprego cresce aqui e aí. O desespero também. Quem sobreviver vai precisar de uma boa dose de criatividade, mas também de uma dose cavalar de boa vontade em olhar para paisagens antes obstruídas. Mas nada de achar que esses recursos estão aí disponíveis a todos. Não estão. Eu, por exemplo, tive o privilégio de frequentar um cursinho de inglês, algo ainda restrito ou financiado com muito sacrifício. Uma enorme parcela da nossa população não tem acesso nem mesmo à internet. Portanto, não sejamos tolos. A minha ideia é oferecer meus cursos e para cada cinco alunos pagantes, uma bolsa integral para quem não tem recurso. Engraçado como que a língua inglesa continua sendo um requisito tão desejável para um bom currículo. Curioso também que a oferta de ensino da língua ainda seja tão restrita a quem pode pagar. A não democratização de uma ferramenta como o domínio ou mesmo um mínimo de conhecimento da língua inglesa só faz a gente repetir a estrutura que abraça exclusivamente os privilegiados. É preciso girar a roda. Precisamos ampliar o conhecimento e as oportunidades. Quem aí quer um país mais justo? A Educação e a oportunidade mais inclusivas talvez nos ajudem na escolha de uma liderança de fato quando as eleições chegarem. Haja esperança.
Mais informações de cursos www.capitolinabooks.com/cursos

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Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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