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Calabouço

Por Nara Vidal

13/09/2020 às 06h55 - Atualizada 10/09/2020 às 19h22

Um passo em falso e lá vamos nós parar no calabouço. Quando eu era criança, algumas palavras me fascinavam. Calabouço era uma delas. Uma palavra redonda, de muitas voltas e com um fim misterioso. O que será que existia no calabouço? Começo a achar que encontrei o significado.
A vida, nestas horas destes anos vinte, está mesmo um perigo. Não vou falar das praias cheias, assunto que deve ter irritado muita gente que lia a minha crônica da semana passada. Talvez esses leitores estivessem na praia enquanto ouviam um texto que parecia eles mesmos falando? Talvez. Às vezes, uma provocação explode os sentidos mesmo. Desculpem, mas não me desculpo.
Todavia, vamos deixar em paz o pessoal que quer ir à praia cheia, ao bar lotado. (O negócio que eu comentei lá, sabem, da falta do exercício de leitura, interpretação de texto, isso vem dando muito trabalho. Cada um recolhe o que consegue de uma leitura.)
Vou mudar o assunto e falar de calabouços.
Semana passada, conversando com uma amiga que mora em Portugal, ela estava lá no calabouço. Diferente do fundo do poço, um lugar para onde vamos com as próprias pernas, o caminho para o calabouço não é percorrido sozinho. Nos levam até a porta, nos jogam lá dentro e saem correndo com a chave. Pois, a minha amiga estava nas profundezas dessa prisão. Arrasada, chorosa e muito melancólica, ela se desesperava pelo fato (fato!) de ter que aceitar que não verá sua família por um tempo. Ela vive dias que não têm futuro. Alguém já pensou no desespero de não ter esperanças? No início do ano, quando o vírus maldito se espalhou, aquele calabouço, era esconderijo comum a todos. As famílias isoladas nos seus subnúcleos, todos tentando estar vivos para uma eventual celebração. Mas, minha amiga não pisa no Brasil há mais de dois anos porque planejava receber a família em Portugal este ano, planejava também celebrar o aniversário do pai que fará, com vírus ou sem vírus, oitenta anos. Semana passada, ela me enviou uma mensagem apavorada porque sonhou que os irmãos organizaram uma festa onde ela teria que participar por vídeo, ao vivo. Além de toda essa bagunça dentro dela, a família vem deixando ela mofar. Há tempos que não lhe contam um segredo. Todos se comunicam, falam várias vezes por dia, mas há um fio cortado quando o papo precisa chegar até ela. Eu entendo esse desespero porque ser a ponta fraca da corda é humilhante. As mensagens são cada vez mais ralas. Os emojis trazem corações cada vez maiores simulando um batimento que faz seus olhos brilharem de esperança por um reencontro. Ela me contou que vem sonhando com os óculos quebrados. Perguntei o que era aquilo. Ela me disse que, há bastante tempo, quando seu pai ia encontrá-la no aeroporto, ele a abraçava com tanta força que quebrava seus óculos esquecidos e pendurados entre o peito, do lado de fora da blusa. Riam de chorar, emocionados. Nenhuma lágrima ia para os óculos em desuso. Mas, as comunicações, quando não são frequente, pregam peça na cabeça dela que se sente a alça da xícara de um café quente: necessária para compor a coisa, mas fora do conteúdo. Não adianta tentar explicar suas sensações. Ninguém, de fato, entende porque é ela quem vive como estrangeira no Brasil e em Portugal. Mas, ela se sente mal porque não quer parecer vítima – a conclusão mais rápida para colocar uma pedra no assunto- Ela também não quer ser egoísta sentindo tanta falta assim. É preciso ser generosa, vibrar com cada encontro do qual não participa e deixar de ser infantil porque senão, ninguém aguenta ela mesmo. Saudade dá e passa. Que ela não se preocupe por não saber quando vai ver os irmãos, os parentes, a casa dos pais que ainda é sua. Que ela não se desespere por sentir que vem perdendo companhia, festas, segredos. Que ela celebre o fato de a família estar junta, saudável. Eu disse para ela se acalmar e se acostumar. Para crescer e, francamente, amadurecer. Uma hora, ela pega esse voo para o Brasil. Só não precisa ficar pensando em quando. Isso é bobagem. Estes anos vinte têm matado mesmo. E a vida, a vida é um perigo com calabouços e chaves perdidas.

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Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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