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Não é bem assim

Por Nara Vidal

04/10/2020 às 06h55 - Atualizada 03/10/2020 às 15h47

Uma das notícias mais felizes que eu li esta semana foi a da dona de casa que entrou com um processo contra a União depois do discurso “não é bem assim” do presidente do Brasil na ONU. Para quem não acompanhou, explico: o senhor presidente da República foi convidado a abrir a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas com um discurso que deixou muita gente estarrecida e confusa. Em algum lugar desse Brasilzão, havia uma dona de casa, ou melhor, uma cidadã que se respeita e que conhece seus direitos, mas que principalmente, não se deixa fazer de boba.

Jair Bolsonaro disse em seu discurso que o auxílio emergencial que o seu governo disponibilizou aos necessitados cidadãos brasileiros era de mil dólares americanos em parcelas somadas. Mas, a dona de casa que é uma cidadã inteligente não conseguiu fechar essa conta. Afinal, com a alta cotação do dólar (alguém aí querendo dar uma arejada no estrangeiro, tem que ver essa cuestão com o Guedes, talkei?), o que disse o senhor presidente significaria que ela deveria ter recebido bem mais do que o que recebeu em real, na real. Ela, então, processou a União. “Mas, e daí?”, ouço dizer o coro dos que ainda acreditam em seu minto, desculpa, mito. E daí que se o presidente torce um pouquinho a verdade, então verdade já não é, não é mesmo? “E daí”, continua determinado coro. E daí, pessoal, que quem paga os salários dos servidores públicos tem direito a ter dados e fatos e não uma aproximada explicação insuficiente do uso de dinheiro público.

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A notícia foi linda porque me fez ter esperança num país que não aceita ser passado para trás. Me fez acreditar que nem todos estão dormindo e nem todo mundo acha que “político é isso mesmo”, e que nem todo mundo aceita ser pisado, ridicularizado, passado para trás, tratado como gado só porque tem lá a frase pronta: mas e a corrupção do PT? A questão é que o cidadão brasileiro que é inteligente feito a tal dona de casa que deu exemplo a todos nós, cobra, não só seus direitos, mas respeito. Respeito e acesso à transparência das contas públicas e não aceita montagem de circo e espetáculo para inglês ver.

Mais que nunca o cidadão brasileiro inteligente precisa estar atento para o uso das palavras, as colocações e as acusações. O mundo cobra uma postura firme e uma atitude sensata da presidência do Brasil em relação a um dos maiores desastres ambientais de todos os tempos. Ainda assim, o índio que vive em Pindorama há tanto, tanto tempo antes de Cabral e sua trupe chegarem, levou a culpa das queimadas. O cidadão brasileiro que se importa com seus recursos naturais teria todo o direito de ter maiores explicações, pedir provas da União por tal declaração. Queremos ou não queremos saber se é mesmo o índio, o caboclo que vai lá e queima tudo? Mas, gente, para quem escreve como profissão como eu, é a mesma coisa que eu tacar fogo na minha coleção de livros. Não consigo compreender essa lógica, vocês?

Em tempos de campanha eleitoral quando já não existe parcimônia para gritos de ofensa por todos os lados, seria interessante o cidadão buscar esclarecer a verdade nas falas e promessas dos seus mintos e mitos. Menos “não é bem assim” e muito mais “provas e fatos”. Porque o dia que o brasileiro sentir mais orgulho de ser chamado de cidadão do que de engenheiro, médico e arquiteto, e sentir mais orgulho da sua ancestralidade indígena e negra do que a europeia historicamente opressora, aí sim, voltaremos a estrelar a esperança na nossa programação normal.

Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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