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 A pergunta como fator de aprendizagem

Quantas vezes, diante das perguntas insistentes dos filhos ou dos alunos, pedimos que se calem? Ou não damos importância? Ou desmerecemos suas indagações?Muitas vezes nem as percebemos... Temos levado elementos para que reflitam? Elementos de lógica e verdade? Temos aproveitado esta oportunidade para conhecer como eles pensam, quais têm sido suas preocupações, suas inclinações, seus receios, suas tendências?

Por Cristina Coronha

27/12/2017 às 08h00 - Atualizada 29/12/2017 às 07h56

Os seres humanos são inquietos por natureza, criativos em seus hábitos, propensos às alterações e mudanças da vida, condições significativas para o desenvolvimento e a aprendizagem.Os animais, diferentemente, agem rotineiramente, fazem suas moradias sempre da mesma forma, porque não inquirem para rever , não observam para aperfeiçoar, não evoluem no que fazem instintivamente, apesar de possuírem a inteligência da natureza.

São as perguntas que movem as aspirações, os projetos e assinalam o universo cognitivo, o nível de interesse, a capacidade intelectiva e sensível daquele que inquire.Elas acompanham toda a nossa história de vida, porém existem algumas fases em que parecemos mais ávidos à elas : quando a criança tem cerca de 4 anos vive a idade dos porquês e pergunta tudo, demonstra interesse em saber, em entender a causa dos fenômenos, em compreender o mundo que a cerca e a si mesma. Depois, por volta dos 6 anos, indaga sobre Deus, sobre a morte, demonstra estar sensível à questões tão transcendentes. O adolescente também vive uma fase de questionamento, de outra natureza, nem sempre manifesta. Esses questionamentos são inquietudes, forças que ajudam a manter vivo o anelo de arrancar das profundezas ignoradas , os segredos que haverão de iluminar o fôro íntimo, como ensina Gonzalez Pecotche.

Que belo e estimulante fator impulsionador de crescimento! As perguntas vem como necessidade de construir os conceitos e o entendimento que ainda não se têm. E serão as explicações dadas pelos pais e professores que ajudarão a formar ou deformar a visão da realidade .

Com o avançar da idade, o homem parece ter esquecido de se ocupar (seriamente) com esse chamado interno , deixando de se perguntar, de querer saber, aprender -a não ser por necessidade material –, assumindo uma atitude passiva,preguiçosa, acomodada (?) E tem passado da idade dos porquês (que deveria ser eterna) para a idade da resignação.

Quais têm sido nossas atitudes docentes no momento em que uma criança ou adolescente nos inquire sobre algo de maior transcendência? Perguntas como: Como eu nasci? Por que papai saiu de casa?Por que vovó morreu? Como faço para deixar de ser como sou e melhorar ?Por que não consigo aprender? Muitos anos atrás minha filha, ouvindo-me falar a palavra luta, perguntou “ mãe, a senhora luta?” Ela estava com 8 anos, fase,ainda, formativa do caráter, precisando de elementos para construir seus conceitos e eu, com a consciência do meu dever de educar, comecei a reperguntar e depois falar, em tom de questionamento .Sabia que mesmo que sua mente não captasse/entendesse toda a vastidão desse conceito, certamente a sensibilidade recolheria os elementos e os guardaria na memória para mais tarde, servir de ajuda à razão para formar seus juízos. Aproveitei para mostrar a luta como lei da vida, em situações do dia a dia,no assumir uma atitude responsável de fazer sempre o melhor, no cultivo de bons pensamentos e boas ações, na luta individual, interna, de reforçar valores e qualidades, de ser verdadeiramente valente e buscar ser feliz, na luta de pensar e refletir sobre as coisas antes de aceitá-las como verdade.

Quantas vezes, diante das perguntas insistentes dos filhos ou dos alunos, pedimos que se calem? Ou não damos importância? Ou desmerecemos suas indagações? Muitas vezes nem as percebemos… Temos levado elementos para que reflitam? Elementos de lógica e verdade? Temos aproveitado esta oportunidade para conhecer como eles pensam, quais têm sido suas preocupações, suas inclinações, seus receios, suas tendências? Outro dia vi uma criança perguntar para a mãe porque não poderia ficar na rua sozinho e a mãe falou que a velha mendiga e bruxa poderia pegá-lo. Por que mentimos? Por que inventamos histórias tão irreais e imaginativas? Será que é porque não temos a clareza da nossa responsabilidade? Ou não sabemos o que responder porque não pensamos? Será que estamos tão acomodados e, por isso, repetimos as eternas respostas prontas que a nossa cultura falida tem nos oferecido?

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O que temos feito com nossas crianças e nossos adolescentes? O que temos feito com nós mesmos? Será que matamos a vontade de aprender que pulsa em todos nós porque invalidamos o (nobre e transcendente) exercício de perguntar?

As perguntas são consubstanciais com a própria força que sustenta a vida humana, são como um algo a mais que falta à alma humana, de conhecer. Conhecer para aprender.Aprender para ser mais feliz.

 

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Cristina Coronha

Cristina Coronha

Neuropsicopedagoga, Psicopedagogia (UFRJ), Especialista em Educação Infantil e Gestão Social (UFJF), graduada em Pedagoga (UFF). Professora dos cursos de pós-graduação em Psicopedagogia e Gestão Escolar. Psicopedagoga Clínica, Orientadora Vocacional e Educacional, Palestrante, Consultora Educacional para o Desenvolvimento de Valores e Talentos. Escritora de artigos em jornais e livros, Membro da Associação Brasileira de Psicopedagogia-ABPp,e e da Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia. Criadora do projeto Articulação em escolas de Minas Gerais. Docente da Fundação Logosófica do Brasil. Professora convidada do Polo Interdisciplinar de Gerações da UFJF. Mediadora do PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental pelo The International Center for the Enhancement of Learning Potential Israel.

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